Risco de recessão ultrapassa risco de inflação

Os juros não irão subir de forma tão agressiva como inicialmente os gestores esperavam. A explicação está no risco de recessão na Europa e nos EUA que já é superior ao risco de inflação.

Da estagflação passámos para a aceleração da inflação e desta para a recessão. As economias mais desenvolvidas estão a passar um período nunca visto depois da II Guerra Mundial. Os gestores de fundos de investimento procuram opções.

Se há alguns meses a opção por um fundo de investimento estava em perceber o nível de risco e era comparado a uma aplicação financeira ou a um depósito a prazo, hoje, os gestores e os investidores procuram soluções para uma economia ocidental que está numa encruzilhada. Num recente “paper” o segurador de crédito Coface diz que quatro meses depois do início do conflito há algumas lições a retirar e todas essas lições irão impactar nos mercados financeiros e nas decisões dos gestores de fundos de investimento. Desde logo temos um conflito para durar e que perturbou o equilíbrio geopolítico mundial. Teremos tensões no sistema produtivo e que já vinham da pandemia e, por outro lado, a mudança da atitude dos bancos centrais perante uma inflação galopante fez com que o risco deixasse de ser a estagflação e passasse para uma inflação acelerada. E, por último, as economias mais desenvolvidas estão perante um cenário de recessão. E Portugal como está a reagir? O país está em sintonia com a Europa ocidental e não está protegido em termos de inflação energética e alimentar. Dados da Católica, através do NECEP, dão conta de uma contração da economia no 2º trimestre de 0,8% em cadeia, contra uma subida em cadeia de 2,6% no 1º trimestre, sendo que para 2022 o PIB deverá manter-se acima da média europeia com um crescimento de 5,2%, acima dos 4,9% previstos pelo Governo. O turismo tem sido um dos impulsionadores, mas também algumas indústrias transformadoras. O mercado financeiro português mantém-se tendencialmente amorfo, sem grandes diretrizes e a informação mais relevante para os fundos de investimento tem sido a performance do mercado imobiliário, tanto residencial como comercial. Dados publicados pelo site Idealista dão conta de que os preços das casas para arrendar em Portugal subiram 2,6% no 2ª trimestre em face do trimestre anterior, sendo que quase todas as capitais de distrito registaram subidas de preço, com destaque para Leiria, Viseu, Funchal, Aveiro, Lisboa, Santarém e Porto, e com variações entre os 4% e os quase 11% em termos de trimestres em cadeia.

Aliás, o gestor da Square Asset Management, Pedro Coelho (que registou no último trimestre subscrições novas de 80 milhões de euros num dos fundos de investimento imobiliários mais populares), questionado perante as opções para os gestores em termos de investimento para cobrir a inflação, guerra e eventual recessão diz serem os fundos imobiliários a resposta. Afirma que em anos anteriores com inflação zero e mercados bolsista em alta “o risco recompensava”, enquanto agora a mesma opção de investimento significa “perder capital”. É possível, adianta, que as obrigações dos EUA tenham retorno dentro de seis meses a 1 ano com descompressão das yields, mas isso não acontece na Europa onde o Banco Central Europeu tem dado sinais de subidas de juros de forma lenta e que no conjunto do ano poderão não ir além de 1 ponto percentual. Pedro Coelho admite que bons contratos e bons inquilinos são uma segurança mas numa economia recessiva haverá incumprimentos mas, por enquanto a situação é altamente positiva para o FII tendo em conta que os ativos se valorizam e as rendas são atualizadas. Para este gestor ter dinheiro à ordem ou liquidez em fundos de investimento significa perder 6,7 ou 8% ao ano com a erosão da inflação. Para os profissionais, diferentemente dos particulares, a liquidez com yields ajustados permite manterem o ritmo de compras e não ficarem à espera dos “saldos”.

Cash is king
Semelhante é a visão de José Brandão Brito, economista-chefe e responsável do research do Millenniumbcp e que começa por sintetizar a situação. “Temos um conjunto de circunstâncias variadas que são penalizadoras do crescimento, caso do elevado preço do petróleo e das matérias-primas alimentares e que só por isso constitui um choque da oferta, sobretudo para a Europa”. E acrescenta que cima de tudo isto temos a subida das taxas de juro, o agravamento das condições monetárias e o fim dos programas de liquidez dos bancos centrais. Por outro lado, temos a FED que já iniciou o programa de secagem (de liquidez no sistema) enquanto o BCE ainda espera para fazer o mesmo. E para controlar a inflação “a política orçamental tem de ser prudente e passámos de um estímulo extraordinário para um estímulo negativo”. Refere ainda o gestor que a inflação deixou de ser virtuosa e que decorria do aumento da procura, algo que significava mais margem para as empresas, para uma inflação importada e esta é uma inflação “que não encoraja a contratação nem os investimentos e prejudica as famílias”. A par de tudo isto existe ainda uma incerteza geopolítica e que não é apenas a guerra na Ucrânia mas também a animosidade EUA/China e são atritos que retiram a confiança aos empresários e que é algo muito penalizador para a atividade económica e par aos mercados financeiro”, conclui o gestor do BCP. E perante os vários riscos “há respostas canónicas diferentes”, afirma.

Perante uma eventual recessão os bancos centrais não irão subir as taxas tão rapidamente quanto se esperava e, aliás, na primeira semana de julho as taxas longas caíram bastante, salienta a mesma fonte. Como opções, afirma, “temos a dívida soberana dos países europeus e dos EUA, mas também o ouro que é tipicamente um ativo de refúgio perante os riscos geopolíticos mas, a verdade é que esta commoditie nem sequer tem tido um comportamento espetacular, sendo certo que também não tem caído. As commodities energéticas também podem ser uma solução, a par das matérias-primas industriais que são cíclicas. Mas aquilo a que José Brandão de Brito dá particular relevo é á liquidez. Afirma que “cash is king”, pois quem tiver liquidez numa situação de incerteza beneficia já que perante as correções dos mercados haverá oportunidades para comprar. Adianta que é muito mais interessante “esperar pelo próximo bull market do que estar a tentar fazer o timing da reversão”. Esta estratégia não seria boa para fundos de pensões, nem para os particulares.

Inflação em segundo plano
Paulo Rosa, Investment Senior Economist do Banco Carregosa, destaca a perda de confiança dos consumidores. Sublinha o facto de na Zona Euro “o contexto macroeconómico ter-se deteriorado e o sentimento do consumidor em junho caiu para níveis de 2013. Na Alemanha, o sentimento do consumidor, medido pelo GfK, registou um novo recorde de baixa em julho, refletindo uma diminuição da propensão a comprar e um alívio na pressão inflacionista do lado da procura. Em junho, o Índice harmonizado de preços no consumidor na Alemanha desceu pela primeira vez desde outubro de 2020, queda justificada, em parte, pela baixa do imposto sobre os combustíveis, mas também pela diminuição da procura. A balança comercial alemã em maio apresentou o primeiro défice desde 1991. Também as perspetivas para a atividade empresarial têm abrandado e o PMI alemão apontou, em junho, para o crescimento mais lento desde julho de 2020”. Adianta que nos EUA “a confiança do consumidor medida pela Universidade de Michigan regista níveis de 2008 e a do Conference Board assinala mínimos desde fevereiro de 2021. O PMI caiu em junho para 52,7, o nível mais baixo desde julho de 2020. O indicador GDP Now da Reserva Federal de Atlanta antecipa uma contração de 2,1% do PIB norte-americano no segundo trimestre”, e nos EUA, a política monetária é cada vez mais contracionista. A base monetária desceu 13%, desde os máximos históricos em dezembro do ano passado, e a rubrica reservas bancárias do passivo da Reserva Federal dos EUA diminuiu 32%, assinala a mesma fonte. Adianta que “a queda da confiança empresarial e do consumidor, a potencial recessão e a contração monetária são variáveis deflacionistas. Um abrandamento da globalização não é inflacionista, mas sê-lo-á se existir um recuo da mesma. Paulo Rosa salienta que os mercados bolsistas estão atualmente em mínimos e há receios de recessão nos EUA. Sublinha que “nas últimas semanas o risco de recessão está a ultrapassar o risco de inflação” e, na prática com a recessão há alívio da inflação e as taxas de juro tendem a desacelerar. E, no corrente ano aquilo que temos é um risco de crédito e menos um risco de taxas de juro e dos mercados financeiros. Os gestores estão a ser penalizados mais pelas expetativas de recessão do que pelas expetativas dos juros.

Relativamente à guerra existe uma incógnita e o seu desenvolvimento irá influenciar o desenvolvimento global, assim como os avanços e recursos “influenciarão a economia global”. Relativamente à pandemia o relevante é a postura dos governos e se forem como o chinês o certo é um confinamento abrupto. Em termos de opções para os fundos serão os ativos tecnológicos uma das soluções, segundo este gestor. “Com a recessão o ouro pode ser um metal atrativo, chegou aos 2060 dólares e pode chegar aos 800 dólares, é um ativo de refúgio. Por seu lado os entusiastas das criptomoedas perceberam que estão perante ativos de risco. As empresas serão interessantes perante algum alívio nos juros com impacto positivo nos resultados. As big techs têm sido penalizadas mas não se descarta alguma recuperação. Refere o gestor que a dívida pública é outro refúgio. “O soberano é um ativo a ter em conta”.

Refere Luís Sancho, analista de Investimentos da unidade de Asset Management em Portugal do BBVA, refere que no mercado acionista “o estilo valor, que historicamente, costuma beneficiar de ciclos de subidas de taxas de juro poderá ter vantagem favorecendo setores como energia e financeiro”. Já João Paulo Caldeira da Silva diretor do Departamento de Desenvolvimento e Marketing do Novobanco diz que as preferências “ alargam-se aos fundos de ações temáticos, com um “beta de mercado” reduzido, aos fundos de matérias-primas e aos fundos de Retorno Absoluto, em ambos os casos, devido à sua tradicional descorrelação com as classes de ativos “tradicionais”. Por seu lado Cristina Brízido, CFA da Caixa Gestão de Ativos, considerada que “as estratégias de investimento multiativos, adaptadas ao perfil de risco do investidor, tenderão a apresentar-se como soluções adequadas, tendo em conta um horizonte de investimento de médio e longo prazo, em razão da diversificação apresentada por classes de ativos, geografias e moedas.

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