“Fãs de Fórmula 1 gostam de ação próxima, querem ver corridas mais roda-a-roda, como Mansell e Piquet”

O Jornal Económico entrevistou o diretor de sistemas de dados da Fórmula 1, Rob Smedley, que destacou que, por este ser um desporto “muito estratégico e tático”, é necessário usar “números e dados” para contar aos fãs o que está a acontecer em pista.

O Mundial de Fórmula 1 (F1) acabou este domingo, tendo culminado numa prova histórica que elevou o desporto a um nível de mediatismo do qual muitos fãs já não se recordavam. É certo que este ano a competição teve muitos “fãs Netflix” – como chamam os históricos aficionados a quem começou a acompanhar a modalidade depois da série “Drive To Survive” – mas é inegável a dimensão que teve o Grande Prémio de anteontem, em Abu Dhabi. E, por detrás, está também um trabalho tecnológico que tem vindo a ser feito nos últimos anos pela F1.

O diretor de sistemas de dados da F1 considera que a tecnologia tem um papel preponderante quer na manutenção dos fãs que seguem a maior modalidade de automobilismo do mundo desde o século passado que para juntar mais pessoas nos autódromos ou colá-las às televisões aos fins de semana. Para se ter uma noção da quantidade de informação que é necessário filtrar, cada carro de F1 tem 300 sensores que geram 1,1 milhão de pontos de dados telemétricos por segundo que têm de ser transmitidos para as boxes – de outra forma, como é que o Toto Wolff e o Christian Horner sabiam o que dizer na rádio?

A questão é que esses dados em tempo real têm também de ser combinados com mais de 70 anos de dados históricos de corridas, para se saber quem foi o mais rápido de sempre, entre outros. É aqui que entra a tecnologia na nuvem da AWS. Só assim foi possível à F1 fazer simulações aerodinâmicas para desenvolver o carro da próxima geração 70% mais rápido e com uma redução da perda de downforce (força descendente) de 50% para 15%.

“Antes de verem os dados na tela, as ideias começam a surgir na nossa equipa e começamos a construir modelos e algoritmos diferentes para os colocar em versões de produção. É apenas mais uma forma de usar os dados para envolver os fãs, trazer mais fãs, porque a F1 é extremamente complexa. Não é como assistir a futebol no Reino Unido, futebol americano ou râguebi, que são muito mais simples de seguir do que a F1”, referiu Rob Smedley, em entrevista ao Jornal Económico (JE) à margem do evento anual de cloud computing da Amazon Web Services (AWS), o re:Invent, que se realizou em Las Vegas.

O antigo engenheiro de pista de Felipe Massa (Ferrari, entre 2006 e 2013) diz que é por esse motivo que se condensa 1h30 de corrida em cinco minutos de vídeos ou outros conteúdos multimédia, para responder às necessidades dos fãs mais novos, que se habituaram a consumir informação – e desporto – em diferentes plataformas e em curtos períodos de tempo. Ademais, há telemetria dos carros, tempos, informação sobre pneus, imagens, meteorologia e metadados para reunir, processar e mostrar nos ecrãs.

“Quando vês F1 sabes que naquele momento vês um ou dois carros numa pista de 5km, mas há muitas ações diferentes se tivermos em conta aqueles 20 carros e como podem interagir entre eles, todas as diferentes permutações e combinações de cenários que se podem desdobrar. É absolutamente massivo. É um desporto muito estratégico e muito tático, por isso a única maneira que tem se tem para realmente entrar, envolver os fãs e contar-lhes um pouco a história, mais aprofundada sobre o que está a acontecer, é usar os dados, fazê-lo através de números”, explicou.

Ao lado do primeiro protótipo que a F1, enquanto organização, desenhou para as equipas, Rob Smedley contou aos jornalistas que, há cerca de quatro anos, a empresa questionou-se sobre o que os fãs realmente queriam e decidiu fazer um novo inquérito, cujas conclusões foram cruciais para os novos carros que entrarão em 2022 (que eram para ter entrado este ano). “Eles disseram que gostavam de ver ação próxima, corridas mais roda-a-roda, como quando víamos aquelas imagens icónicas de Nigel Mansell e Nelson Piquet em que corriam mesmo muito próximos. Os fãs querem isso”, assegurou. No entanto, com os modelos em vigor é praticamente impossível criar esse efeito.

“Os atuais carros do Grande Prémio geram muita downforce, mas também geram muita turbulência [dirty air] da parte traseira, o que significa que os carros que seguem atrás a menos de meio segundo perdem 40% da downforce (o efeito que empurra o carro para o chão e causa o desempenho de maior ou menor velocidade nas curvas) e cria-se este círculo vicioso onde os carros não se podem aproximar para seguir os da frente. Logo, nunca se consegue esta ação roda-a-roda [batalhas mais próximas] e quisemos redesenhar o carro completamente”, clarificou Rob Smedley.

Como não poderia deixar de ser no sector desportivo, há negócios que explicam esta vertente tecnológica que chegou à F1, uma vez que em setembro de 2016 a empresa foi comprada pelo grupo norte-americano Liberty Media por 8 mil milhões de dólares (7 mil milhões de euros) através da aquisição da Delta Topco e das ações da CVC Capital Partners. Rob Smedley garantiu ao JE que esse foi o principal impulsor do digital.

“A Liberty Media, como provavelmente sabe, tem uma grande presença aqui nos Estados Unidos, não apenas na comunicação mas na transmissão desportiva. Portanto, trouxeram muitas aprendizagens sobre como o desporto é consumido e como os fãs estão envolvidos por mecanismos diferentes. Trouxeram esse pensamento e essa cultura para a organização, o vertical dos dados, e depois cheguei eu e a minha equipa fez-se a parceria com esta gigante da tecnologia. É um supergrupo”, sublinhou.

Recomendadas

Râguebi português no Mundial: uma oportunidade para atrair patrocinadores? Veja o “Jogo Económico”

O râguebi português vive um momento histórico com a segunda qualificação para o Mundial. Dos apoios aos patrocínios, o que ganha a modalidade com esta visibilidade? Carlos Amado da Silva, presidente da Federação Portuguesa de Râguebi, é o convidado desta edição.

Mundial2022. Croácia nas meias-finais após eliminar o Brasil nos penáltis

A Croácia qualificou-se esta sexta-feira para as meias-finais do Mundial de futebol de 2022, ao vencer o pentacampeão Brasil por 4-2 no desempate por penáltis, após 1-1 nos 120 minutos, no primeiro encontro dos quartos de final.

JE Podcast: Ouça aqui as notícias mais importantes desta sexta-feira

Da economia à política, das empresas aos mercados, ouça aqui as principais notícias que marcam o dia informativo desta sexta-feira.
Comentários