Rússia assume ascendente na Turquia

Assassínio do embaixador Andrei Karlov é o fim do projeto turco de ser uma potência alternativa no Médio Oriente.

Vladimir Putin

A libertação da Alepo das mãos dos rebeldes do auto-proclamado Estado Islâmico e o episódio do “assassinato político do embaixador russo Andrei Karlov” levaram à falência os planos do governo turco liderado por Recep Erdogan para “a criação de uma nova potência no mundo sunita”.

Miguel Monjardino, docente e investigador do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, declara ao Jornal Económico não ter dúvidas de que, “cinco anos depois, há um desastre turco face à tentativa de aumentar a sua preponderância no Médio Oriente” e uma consequente “cedência à Rússia” desse papel.
Ou, por outras palavras, o sonho de ‘desenterrar’ uma parte importante do antigo Império Otomano – que chegou a estender-se até Damasco, Bagdade e Bacu a este, até à Crimeia a norte e até às portas de Viena a oeste – pelo menos em termos de influência política, acabou abruptamente na semana passada.

Tudo isto é um “enorme embaraço para Ancara em termos diplomáticos” e as repercussões políticas da derrota de Erdogan – que, para o investigador, já havia averbado um derrota interna na sequência da tentativa de golpe de Estado do verão – não vão tardar a aparecer. Nomeadamente – e esta parece ser a mais importante – o aumento da capacidade de influência de Moscovo no Médio Oriente, que se dá também, recorda Miguel Monjardino, “porque os Estados Unidos decidiram abandonar a região” de uma forma assaz inesperada: “atiraram a chave ao ar e não quiseram saber de quem a foi apanhar”.

O assassinato de Andrei Karlov – “um embaixador de grande talento e amigo pessoal do presidente russo Vladimir Putin” – é o corolário dessa derrota: foi alegadamente assassinado por um elemento ligado aos rebeldes nacionalistas, o que quer dizer que há uma parte da Turquia que não perdoará a Erdogan não ter sabido gerir a deriva pan-otomana que agora sai derrotada; e acabará por fazer com que “a Turquia tenha de aceitar receber forças policiais de Moscovo dentro do seu território”. Pior não era fácil. “A Turquia está a aprender que ser potência no Médio Oriente sai muito caro”, conclui Miguel Monjardino.

O futuro
“Não sei o que a Turquia vai fazer agora”, admite Miguel Monjardino, para quem “um entendimento com Moscovo” é o caminho mais óbvio, ou talvez mesmo o único. O que também parece óbvio é a eternização do estado de guerra na Síria, desta vez com um novo foco possível: Idlib, província do noroeste do país, que faz fronteira com a Turquia. E onde, já agora, Recep Erdogan tem o ‘outro’ problema crónico de sempre: a presença dos curdos, que o presidente turco tem usado até à exaustão como ‘bode expiatório’ para consumo interno, mas que, para todos os efeitos, são parte das forças que saem vencedoras do conflito sírio.

Por detrás do conflito há um problema latente, que os analistas identificaram há já algum tempo, e que o desenvolvimento dos acontecimentos no teatro da guerra ainda não permitiu debelar: “para a Rússia, a Síria pode ser um segundo Afeganistão?” A resposta é equívoca – dado que também tem a ver com a capacidade bélica de ‘atirar’ forças para o terreno na tentativa de acabar rapidamente com a guerra e isto não está apenas nas mãos de Moscovo. “Bashar Al-Assad não tem infantaria e é por isso que os militares estrangeiros tiveram de intervir; o Hezbollah libanês, que interveio em Alepo, terá cerca de 15 mil homens na Síria”, recorda Miguel Monjardino.

Mas, por maioria de razão, parece claro que Moscovo terá todo o interesse em acabar rapidamente com a guerra, institucionalizar o governo de Assad e apresentar ao mundo uma nova ordem regional monitorizada a partir do Kremlin. As implicações deste novo posicionamento de forças na região ficam para mais tarde, mas o certo é que tudo isto implica alterações geo-estratégicas importantes, nomeadamente no que tem a ver com as relações – neste momento difíceis – entre a Rússia e a Europa. Para já, o que parece mais que certo é que o sonho de uma Rússia a ‘pedinchar’ às portas da Europa – que claramente passou pelas cabeças pouco esclarecidas de alguns estadistas europeus em 1989 – está completamente posto de lado.

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