Porque é que a Rússia mostra as suas garras?

Nos últimos dias, os apontamentos feitos por representantes ocidentais e russos remetem claramente para um entendimento de que uma guerra entre o ocidente (NATO) e a Rússia não é um cenário de todo desejável.

A atual escalada de tensão nas relações da Rússia com o ocidente tem sido evidenciada quer ao nível do discurso político, que tem sido marcado por um tom mais agressivo, quer de ações concretas, desde suspensão de tratados e saída do Tribunal Penal Internacional às movimentações de forças militares no terreno. A situação atual remete para um nível de tensão nas relações como ainda não tinha acontecido desde o final da Guerra Fria. A pergunta que muitos fazem e muitos outros já deixaram de fazer, sobre se estamos a viver uma nova Guerra Fria, aponta para a crispação nas relações da Rússia com o ocidente e para onde esta nos poderá levar.

O contexto atual é definitivamente muito diferente do da Guerra Fria, então marcado por bipolaridade, equilíbrios de poder e uma confrontação ideológica com contornos muito próprios. Hoje, o sistema internacional é mais complexo, os diferenciais de poder mais evidentes e a confrontação ideológica mais diversa. Mas o facto de estarmos numa situação bem distinta a estes diferentes níveis, não significa necessariamente que o contexto seja menos perigoso.

A crise na Ucrânia com a consequente anexação da Crimeia em março de 2014 e a desestabilização continuada na região do Donbass, sinalizam de forma muito clara as contradições e desentendimentos subjacentes. Situada entre a União Europeia (EU) e a NATO, e a Federação Russa, a Ucrânia viu-se obrigada a fazer uma escolha face às propostas concorrentes de assinatura de uma união aduaneira com a Rússia ou da assinatura do Acordo de Associação com a UE – que continha provisões relativas à criação de uma área de comércio livre. De forma simples, uma questão de integração económica assume rapidamente leituras geopolíticas. A rivalidade em termos de definição de áreas de influência entre o ocidente e a Rússia espelha-se na Ucrânia. Mas esta leitura é limitada.

Três ideias fundamentais neste contexto. Primeiro, o projeto da grande Rússia, num sentido de projeção de poder e influência no sistema internacional e do seu reconhecimento pelos seus pares – sistema internacional policêntrico –, tornam a questão da Ucrânia, bem como a atual intervenção na Síria, parte de um projeto mais alargado de afirmação de poder a nível interno e externo.

Segundo, esta projeção de poder tem assumido uma dimensão militar mais clara, com a Rússia e envolver-se em guerra convencional, bem como a projetar influência através de outros meios, como propaganda e acordos comerciais. Esta conjugação de elementos mais convencionais com métodos menos tradicionais, tem permitido à Rússia uma demonstração de força clara, quer na Ucrânia quer na Síria, com os dividendos políticos que daí tem retirado a nível doméstico, e também em termos de pressão internacional.

Terceiro, as (re)ações da Rússia que acompanham esta política de projeção de poder, têm o efeito reverso de potenciar um dos maiores receios de Moscovo, o seu isolamento. O ocidente tem sido um parceiro privilegiado, apesar das muitas dificuldades que as relações têm experimentado, mas onde a densidade da interdependência é sinónimo da existência de mecanismos de entendimento (veja-se a nível da energia, por exemplo). Não devemos esquecer que a aposta na Ásia não deixa de evidenciar quão difícil será uma aliança sino-russa, que depende em larga medida da vontade chinesa.

Os desafios são enormes. A situação interna económica na Rússia é desfavorável e o esforço de guerra na Síria vem adicionar enorme pressão a uma situação já frágil. Forçar uma janela de oportunidade para negociações é neste momento fundamental para a estratégia russa. E para que as suas políticas de projeção de poder – real e simbólico – não sejam revertidas numa lógica de maior isolamento. Os apontamentos que têm sido feitos nos últimos dias por representantes ocidentais e russos quanto à necessidade de desenvolver medidas de consolidação de confiança entre as partes e de maior transparência nas ações militares, remetem claramente para um entendimento de que uma guerra entre o ocidente (NATO) e a Rússia não é um cenário de todo desejável.

 

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