Salário médio real em Portugal cresceu apenas 5,2% ao longo de 16 anos, revela estudo (com áudio)

Este estudo analisa a evolução do salário (base bruto real) médio, desde a introdução do Euro até 2017. Em 2010, verificou-se o pico do salário médio, quando este se fixava nos 966 euros.

O salário médio real cresceu apenas 5,2% ao longo de 16 anos, revela estudo da Gulbenkian. O salário médio descontado da inflação, era de 879 euros em 2002 e subiu para 925 em 2017, último ano da análise em questão.

Em 2010, verificou-se o pico do salário médio, quando este se fixava nos 966 euros. Desde 2015 a “quase-estagnação”, contribuiu para a descida do nosso país no ranking do salário anual médio da OCDE, sendo que, em 2019, Portugal ocupava a terceira pior posição de entre os países da União Europeia que integravam esse ranking, apontam os académicos.

As explicações são multifatoriais, mas os investigadores verificam, nomeadamente, que “houve uma renovação substancial em termos geracionais: a geração mais velha (nascidos antes de 1965), que representava 46% dos trabalhadores em 2002, representa apenas 17% dos trabalhadores em 2017. Por outro lado, o salário médio dos jovens com menos de 25 anos está cada vez mais próximo do salário mínimo: a diferença entre o salário médio deste grupo de trabalhadores e o salário mínimo diminuiu cerca de 30% entre 2002 e 2017. À medida que as gerações mais velhas vão sendo substituídas por trabalhadores mais jovens, que auferem salários mais baixos, o salário médio diminui”.

Ao mesmo tempo, parece ter havido uma política de contenção no aumento dos salários acima do salário mínimo. No período em análise, observou-se em concreto “uma deterioração da situação dos trabalhadores a termo certo que, simultaneamente, representam uma proporção maior dos trabalhadores a templo completo e com remuneração completa: o seu salário médio cresceu a uma taxa inferior ao da generalidade  dos trabalhadores; houve uma compressão significativa dos seus salários induzida pela aproximação do salário mediano ao salário mínimo; e mesmo o salário dos trabalhadores melhor remunerados diminuiu”.

O aumento da escolaridade dos trabalhadores não contribuiu para um aumento significativo do salário médio e num aumento da dispersão salarial porque, durante a recessão, os trabalhadores com graus de ensino superior foram os que sofreram maiores perdas salariais.

Para situar em perspetiva a evolução do salário médio em Portugal, o estudo fez também uma comparação com três países da UE: a Alemanha, como referência de um salário médio elevado; a Espanha, como referência de uma estrutura institucional e de uma força de trabalho idênticas às portuguesas; e a Polónia, em representação de um país com um salário médio mais baixo do que o português.

Tal como em Portugal, entre 2007 e 2018 o salário real médio não se alterou substancialmente em nenhum dos três países. Contudo, os tempos de recuperação diferiram, com a Alemanha e a Polónia a registar uma ligeira subida do salário médio a partir de 2011; Portugal a recuperar lentamente desde 2013; e Espanha com uma tendência de diminuição do salário médio desde 2009. Durante a recessão de 2008-2012, todos os países registaram quebras dos salários reais.

Os investigadores concluem que “as diferenças de produtividade do trabalho parecem explicar as diferenças nos salários observadas entre países”. “Os salários em Espanha são superiores aos portugueses, apesar de ambos os países terem um custo de vida semelhante. Porém, em 2002, a produtividade em Espanha era 32% superior à portuguesa e cresceu ligeiramente mais do que a produtividade portuguesa entre 2002 e 2018. Também a Alemanha é o país com maior índice de produtividade do trabalho e destaca-se pelo facto de ter um salário real médio bastante superior ao salário médio registado nos demais países”, afirmam. No entanto, salvaguardam que em nenhum dos quatro países parece haver sincronia entre o crescimento anual dos salários e o crescimento da produtividade do trabalho, mas verifica-se que a produtividade média cresceu mais do que o salário real médio em todos os países.

Relativamente à carga fiscal, como aumentou no período em análise e dado que os salários praticamente não cresceram, houve uma redução do rendimento disponível das famílias. “Entre 2002 e 2019, houve uma aproximação das taxas médias de imposto que se deveu sobretudo à subida das taxas médias de imposto para indivíduos com salários em escalões de rendimentos baixos e intermédios (mais do que à descida da taxa de imposto dos rendimentos mais altos). Por exemplo, em 2005 a taxa média de imposto para indivíduos a auferir o salário médio era de 16,15%, tendo aumentado para 21,29% em 2017. No caso de indivíduos a auferir 40 mil euros em 2005 (e o equivalente, deflacionado, em 2017), o aumento foi apenas de 27,87% para 32,44%”, explicita.

A investigação analisa a evolução do salário (base bruto real) médio, desde a introdução do Euro até 2017, e foca-se no grupo dos trabalhadores por conta de outrem, a tempo completo, com remuneração mensal base completa, com idades compreendidas entre os 18 e os 65 anos.

Recomendadas

Topo da Agenda: O que não pode perder nos mercados e na economia esta sexta-feira

Com a confirmação de um segundo trimestre de crescimento negativo, a Reserva Federal olhará atentamente para os dados do mercado laboral, onde continua a destacar a força e rigidez observada para argumentar contra um cenário de recessão real. Caso os dados de setembro voltem a surpreender pela positiva, como em agosto, e a inflação continue a dar sinais de não abrandar, a possibilidade de subidas ainda mais expressivas do que 75 p.b. deverá ganhar força.

Patrões vão ter majoração em 50% dos custos com aumentos salariais no IRC

No âmbito do acordo de rendimentos, o Governo decidiu propor aos parceiros sociais uma majoração em 50% dos custos com a valorização salarial em IRC. Patrões têm reclamado, note-se, medidas mais transversais.

Governo propõe reforço do IRS Jovem. Isenção sobe para 50% no primeiro ano

Jovens vão passar a ter um desconto fiscal maior, no início da sua carreira. IRS Jovem passará a prever uma isenção de 50%, em vez de 30%, no primeiro ano.
Comentários