Fardados, de boina com o emblema do Exército e idade semelhante à de Salgueiro Maia a 25 de abril de 1974, quatro tenentes de Cavalaria continuam a ver no capitão de Abril o “tipo de comandante” que ambicionam ser.

Três décadas volvidas sobre a sua morte, Salgueiro Maia – comandante da coluna militar da Escola Prática de Cavalaria (EPC) de Santarém que, no dia 25 de abril de 1974, desceu sobre Lisboa e levou à rendição do primeiro-ministro Marcello Caetano – tornou-se um “ícone” e um “exemplo” para os jovens militares da arma de Cavalaria.

Na Escola das Armas, em Mafra – onde se concentraram todas as escolas práticas desde que foram extintas em 2013 – quatro tenentes de Cavalaria, com idades entre os 28 e 29 anos, falam à Lusa para descrever aquele que intitulam de “nosso tenente-coronel”, apesar de, na altura em que Fernando Salgueiro Maia morreu, a 03 de abril de 1992, nenhum deles ter ainda nascido.

Daniel Valério, de 29 anos, traz na lapela a insígnia do quartel da Brigada Mecanizada, a mesma unidade a que, diz com orgulho, o capitão de Abril pertenceu por duas vezes: como capitão e como major.

Para o tenente – que deverá ser promovido a capitão em dezembro, obtendo assim a patente que Salgueiro Maia tinha no dia 25 de abril de 1974 – o militar de Abril é o seu “oficial de referência por dois fatores essenciais: o gosto dele por blindados e por história”.

“O Salgueiro Maia é, sem dúvida, uma figura incontornável dos últimos anos do Exército português. Especialmente para mim, que sou militar de Cavalaria e oficial, marcou-me muito”, diz o tenente Valério, que os restantes entrevistados descrevem como o mais aficionado pela figura do capitão de Abril.

Promovida a tenente há apenas quatro meses, Joana Granja, com 28 anos, também sublinha que, “dentro da arma de Cavalaria”, Salgueiro Maia continua a ser “uma pessoa bastante referida”, cujos valores militares, durante os cinco anos de academia militar, são transmitidos aos mais jovens pelos superiores hierárquicos.

“Da geração mais recente, olhamos para Salgueiro Maia como um exemplo, um ícone, que devemos seguir”, concorda o tenente Francisco Teixeira, com 29 anos, que traz costurada, na manga direita do seu camuflado, o escudo dourado atravessado por uma banda vermelha, que representa a arma de Cavalaria.

“Coragem”, “serenidade”, “bom senso”, mas, acima de tudo, “liderança”, são algumas das palavras que os jovens militares pronunciam quando abordam a figura de Salgueiro Maia, que, em conjunto com os restantes capitães de abril, veem como um prestígio para as Forças Armadas.

“São personagens da história que são muito importantes para nós. Ver aquilo que eles fizeram, ver como o fizeram, e tentamos ou seguir ou utilizar os exemplos deles para continuarmos a nossa carreira”, diz Joana Granja, que, em termos pessoais, classifica Salgueiro Maia como o capitão de Abril “de maior destaque” por ter sido o “representante da arma de Cavalaria”.

Apesar da importância “óbvia” do dia 25 de abril de 1974 na carreira de Salgueiro Maia, os jovens militares abordam “toda a carreira” do capitão de Abril para exemplificar o lastro de exemplos, valores e “virtudes” que deixou presentes na arma de Cavalaria.

“Já enquanto aluno da Academia não teve problemas. Depois, nas campanhas em que desempenhou diferentes funções, e que foram notáveis as formas como desempenhou essas funções. E, ao longo da sua carreira, também teve um desempenho muito nobre dentro da arma”, diz Francisco Teixeira, que vê no capitão de Abril “um dos” ícones da Cavalaria, em conjunto com o patrono da arma, Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque.

Daniel Valério destaca o comportamento que o capitão teve na Guiné, quando, numa altura em que a companhia de Cavalaria que comandava se preparava para regressar a Lisboa, é chamada à última da hora, em maio de 1973, para participar na operação Ametista Real e na rutura do cerco a Guidage.

“Eles já tinham entregado o seu material e armamento e receberam uma missão bastante difícil, e ele conseguiu motivar os seus homens, voltar a dar-lhes equipamento, cumprir a missão. (…) Isso garantidamente demonstra as grandes capacidades de liderança que marcavam o tenente-coronel Salgueiro Maia”, frisa.

No percurso de Salgueiro Maia, João Neves, de 28 anos, destaca, no entanto, o dia 25 de abril, para ver na “mítica situação” do Terreiro do Paço – em que Salgueiro Maia, por volta das 09:00, enfrentou desarmado, com uma granada no bolso, quatro carros de combate na avenida Ribeira da Naus – uma forma “muito inspiradora” de como, numa altura “muito crítica” e de uma “forma quase impensável”, Salgueiro Maia conseguiu levar a ação “a bom porto”.

“Conseguiu lidar com aquela situação difícil com excelente bom senso, porque conseguiu resolver a situação sem que houvesse qualquer tipo de derramamento de sangue”, indica.

Figura principal do golpe de Estado que derrubou o regime do Estado Novo, Salgueiro Maia é, no entanto, um militar que os tenentes de Cavalaria recusam ver como “rebelde”, afirmando antes que, no dia 25 de abril de 1974, “foi-lhe dada uma operação e ele executou”.

“Quando vemos a história do 25 de abril, vemos que o nosso tenente-coronel de Cavalaria Salgueiro Maia teve de lutar uma luta interna em como iria cumprir a sua missão – que recebeu para cumprir naquele dia – e o seu profundo respeito pela hierarquia. (…) Ele não foi um rebelde, foi alguém que agiu de acordo com a missão que lhe tinha sido atribuída”, sublinha Daniel Valério.

Herdeiros de uma figura que, no dia 25 de abril, quis instituir uma “democracia pluralista”, os jovens tenentes evitam responder se, hoje em dia, as Forças Armadas são um garante do regime democrático, afirmando que “estão ligadas a um Estado, a uma Nação, e a partir daí têm as suas missões para cumprir”.

De camuflado, boina a pender para o olho direito e as insígnias de tenente nos dois ombros, Daniel Valério diz que, no dia 25 de abril de 1974, Salgueiro Maia “agiu com a perceção de que, naquele momento, estava a agir em prol da vontade do povo português”.

“Atualmente, acredito que o Exército português, e eu pessoalmente, ajo diariamente em prol de Portugal e dos portugueses. Entendo a coerência naquele momento específico, tal como entendo a nossa coerência hoje em dia, e acho que é isso que temos de continuar a fazer, e faremos”, sublinha.