Sandra Fazenda Almeida: “Cabe às empresas contribuir para criar uma pool de talento mais sustentável”

No dia em que arranca o Congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), Sandra Fazenda Almeida, diretora executiva da APDC, diz ao JE que o talento é um imenso desafio para as empresas, mas que cabe a estas contribuir para criar uma pool de talento mais sustentável. O Programa UPskill é um bom exemplo, aponta.

Subordinado ao tema “Tech and Economics: the way forward” arranca esta quarta-feira, 11 de maio, a 31ª edição do Congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC). Hoje serão abordados vários temas ligados às tecnologias e aos seus impactos nos negócios e nas pessoas. Amanhã  estará em debate o futuro da economia portuguesa, a oportunidade dos fundos estruturais e o talento, além dos já tradicionais Estados da Nação dos Media e das Comunicações.

Nesta entrevista, Sandra Fazenda Almeida, diretora executiva da APDC, analisa o grande desafio que se coloca às empresas: o talento, que escasseia. As soluções passam por mais formação, requalificação e reconversão profissional e propostas como o Programa UPskill, criada em parceria pela APDC, o Estado e a Academia e que tem como objetivo responder à falta de talento TIC nas empresas.

 

Que desafios enfrentam as empresas digitais no recrutamento de talento especializado?

A área da tecnologia procura hoje desesperadamente por mais talento qualificado. De acordo com o Relatório da Korn Ferry, denominado “The Global Talent Crunch”, até 2030 precisaremos de mais 85,2 milhões de pessoas para preencher as vagas de emprego por todo o mundo. A escassez de pessoas com skills proporciona tanto uma oportunidade como uma necessidade de se olhar para além do colaborador tradicional da área tecnológica, procurando-se pessoas diferentes, vindas de outras áreas e com outras formações. É imperativo que as empresas sejam mais diversas, numa altura em que estamos a trabalhar com tecnologias em acelerado desenvolvimento.

Exemplo?
O Programa UPskill oferece justamente essa diversidade, ao promover a requalificação profissional de pessoas oriundas de outros setores para a área tecnológica. Não significa que irão trabalhar apenas no setor tecnológico, mas que poderão ter uma carreira tecnológica em qualquer empresa de qualquer atividade. A economia é cada vez mais digital e todas as organizações precisam de recursos qualificados para modernizarem os seus processos, aumentarem a sua eficiência, conhecerem melhor os seus clientes, parceiros e fornecedores. A digitalização é transversal a toda a economia, o que faz com que a escassez de talento tecnológico seja cada vez maior. E a oportunidade que é dada às empresas que participam no UPskill é, justamente, de poderem contratar pessoas com percursos e experiências diversas, mas altamente motivadas para iniciarem uma carreira de sucesso na área tecnológica.

A escassez da oferta é resolúvel no curto prazo? Como podem as empresas minimizar o problema?

As empresas precisam de definir o que podem oferecer, além da contratação inicial para um determinado candidato. Cada vez mais, terão de oferecer um futuro e não apenas um emprego. Este é um aspeto diferenciador, quando se trata de captar e reter talento num mercado de contratação que apresenta hoje níveis elevados de rotatividade e mobilidade. No webinar organizado pela APDC a 21 abril (https://www.apdc.pt/iniciativas/agenda-apdc/survival-of-the-fittest-candidate-experience-in-the-it-world), uma das conclusões foi que ter um bom programa de integração, com formação e mentoria adequados, assim como benefícios além do salário, que são aspetos cada vez mais valorizados, o que pode melhorar a retenção dos funcionários. Noutras palavras, se as empresas estiverem dispostas a investir nos seus recursos poderão obter um excelente retorno do seu investimento.

Ou seja, nunca foi tão importante como hoje ter uma boa estratégia de employer branding de longo-prazo e em permanente ajustamento à realidade de mercado. As empresas portuguesas estão a competir com grandes multinacionais pelo talento qualificado e têm que saber como se diferenciar. Não podem competir com os grandes players pelo candidato mais experiente do mercado, mas podem ter alguma diferenciação, além do salário, como a cultura e o propósito, que são hoje muito valorizados, sobretudo pelas novas gerações.

Podem ainda apostar em criar capacidade própria de formação e qualificação de pessoas, o que exigirá uma verdadeira mudança de mentalidades na contratação. Fazer este investimento in-house, ao invés de tentar encontrar talento fora da organização, seja no país seja noutros mercados, em concorrência direta com outras empresas, traz não só inovação e progresso para a organização como para a região onde opera, ao valorizar os recursos humanos locais, que assim terão oportunidades, formação e experiências para se desenvolverem profissionalmente.

Iniciativas como o Programa UPskill são um excelente exemplo deste perfil de investimento. Cabe às empresas contribuir para criar uma pool de talento mais sustentável, sendo que o ‘prémio adicional’ do talento cultivado em casa (através de estágios, mentoria e programas de formação) é uma maior probabilidade das pessoas permanecerem por muito mais tempo na organização.

 

Na sua perspetiva, o que pode ser feito a nível da política pública para minimizar esse impacto?

A abordagem a este problema a nível público deve ser holística. Tem que se trabalhar desde a base, na captação de jovens para estas áreas de formação do seu percurso educativo, até à oferta de novas carreiras para o talento já no mercado, em setores e áreas onde existe escassez e são oferecidas melhores condições profissionais.

Os nossos jovens precisam de reforçar as suas capacidades de raciocínio lógico e computacional e de pensamento crítico ao longo do ensino obrigatório. Foi por isso uma boa notícia o anúncio da introdução do pensamento computacional, a partir do próximo ano letivo, como uma das capacidades a desenvolver pelos alunos de todo o ensino básico na disciplina de Matemática. É uma ‘pequena semente’ que certamente dará frutos, apesar de não ser ainda introduzido de forma isolada, como existe já com sucesso noutros países, o ensino da computação, destinado a preparar os jovens para os desafios e oportunidades do mundo atual. Ainda em março realizámos um debate, em parceria com a ENSICO, sobre esse tema (https://www.apdc.pt/iniciativas/agenda-apdc/conference–living-with-technology-innovation-in-education).

 

E ao nível da requalificação?

O UPskill é um exemplo paradigmático da junção de esforços públicos e privados em torno de um projeto que permite às empresas ter talento à medida das suas necessidades e às pessoas vindas de outras áreas da economia terem a oportunidade de terem uma nova carreira, agora numa área tecnológica. É o Estado que financia a formação, é ministrada numa instituição de ensino superior, em articulação com as empresas aderentes (para que os conteúdos programáticos sejam os mais ajustados) e que suporta o pagamento de uma bolsa aos formandos, para que estes possam dedicar-se a 100% a esta reconversão profissional. No final da formação, as empresas asseguram a contratação dos recursos solicitados, com uma remuneração mensal base a partir dos 1.200euros (com subsídio de alimentação). Acredito que o caminho passa muito por programas como este, que são verdadeiramente win-win para todas as partes e contribuem para o desenvolvimento sustentado da nossa economia.

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