São as culturas, estúpidos!

Desde cedo que estamos expostos às mais variadas culturas. Sim, plural, culturas.

A cultura familiar, a cultura do bairro onde vivemos, do nosso país, dos amigos, da nossa escola, da equipa desportiva que apoiamos, da universidade que escolhemos, da música que ouvimos, dos livros que lemos, da empresa onde trabalhamos ou criamos… enfim, a cultura está em todo o lado expressando-se das mais variadas e distintas maneiras. Ao longo da nossa vida, deambulamos por todas, de forma mais ou menos intensa, criando a nossa própria cultura e, para onde quer que vamos, levamo-la connosco.

 

Todos querem ser como a Google – como criar falsa inovação e falsa mudança

Tal como as pessoas, cada empresa tem a sua maneira de fazer as coisas, ou seja, a sua cultura, e esta pode revelar-se pela forma como são desenhados os seus diferentes espaços. A Google é um dos exemplos mais citados e copiados em termos de desenho de espaços de trabalho. Ter um “cool office” cheio de cores, com salas de jogos, puff fofinhos e citações de “força para a frente que atrás vem gente” não fazem uma Google! O que resulta para umas empresas pode não resultar para outras. A moda da inovação transformou alguns espaços de trabalho em cenários teatrais ou em lugares de querer parecer uma coisa que não se é, ignorando o verdadeiro contexto e cultura inerente a cada empresa. Todos compreendemos a importância e o impacto que o espaço tem nas nossas vidas, basta tomarmos como exemplo a nossa própria casa. O cuidado que temos em comprar as mobílias, em escolher as cores das paredes, o que pendurar, a textura do sofá, que candeeiros, tapetes… parte do que somos fica visível através do nosso espaço.

 

Acabar com a síndrome das segundas feiras

Um estudo feito em 142 países de todo o mundo, revelou que apenas 13% dos trabalhadores se sentem devidamente empenhados e engajados com o trabalho (Gallup – State of the Global Workplace). Posto isto e segundo o relatório Gallup: “how can we live with more than 70 percent of employees who would rather be anywhere but the workplace?” Os espaços de trabalho são a expressão de uma forma de estar e de ser, reveladores da qualidade cultural de uma empresa (tenha ela meses ou anos). Apesar do estudo da Gallup ser de 2012, existem muitas empresas cujas culturas estáticas não permitem ir para além das banais tentativas superficiais de transformar espaços em lugares IKEA… como se isso bastasse, e sim, por vezes as segundas feiras são dias em que a vontade de ir trabalhar se confunde com a vontade de desistir.

 

Quem faz as culturas?

Podemos dizer de forma quase direta que a cultura é feita pelas próprias pessoas já que tudo resulta de um constructo das mesmas. Interpreto a expressão atribuída a Peter Drucker: “culture eats strategy for breakfast”, como uma espécie de visão de futuro face ao trabalho. De que este possa vir a estar, cada vez mais, assente num sentimento de identidade, ou seja, de dar às pessoas um espaço de trabalho com o qual se identifiquem, e não o seu contrario. Ver o ambiente de trabalho através dos olhos de quem usufrui e passa a maior parte do seu tempo por lá, para retirar as pessoas do que tem sido o lugar de uma certa invisibilidade. Ouvir quem interessa, empatizar para que se possam criar soluções ligadas a um contexto, a uma cultura. A natureza do “onde” do trabalho tem uma relação intrínseca com a forma como as pessoas interagem e estão. O lugar, funciona como uma espécie de plataforma física do quem, do quê, do quando, do porquê e do como fazer. Mais do que um mero espaço onde se vai trabalhar, um espaço onde se possa interagir, criar e, talvez, de uma forma mais verdadeira, inovar.

 

Mudar espaços ou mudar de espaço? Personalizar cultura e espaço

Se mudarmos a forma como as pessoas interagem dentro de um espaço, mudamos o seu comportamento, o que pode levar a uma mudança da cultura. Por sua vez, se mudarmos o espaço, de acordo com o contexto inerente ao mesmo, podemos também mudar a forma como as pessoas se ligam e trabalham entre si ou potenciar o que já existe entre elas. Os espaços podem funcionar como ferramentas estratégicas de crescimento e mudança sem dúvida, mas, para além de podermos mudar o espaço, podemos também mudar de espaço. As novas tecnologias, as redes sociais e a crescente mobilidade, têm permitido a criação de diferentes espaços de trabalho. Este novo “espaço” de trabalho pode ser uma secretaria, um barco, a casa de um amigo, uma cadeira num espaço de cowork ou o meu desktop. Mais do que o espaço em si, é a cultura de cada espaço que conta, a comunidade de pessoas que dele fazem parte. Eu escolho o meu espaço de trabalho e posso mudar quantas vezes eu quiser! Posso ir para ali porque me interessa trocar ideias com as pessoas que ali trabalham, ou posso ir para acolá porque adoraria ter feedback daquelas pessoas em particular, aproveitando ao máximo o que um espaço me possa dar. Deambular para criar a minha própria cultura e “espaço” de trabalho. Eis o futuro?

 

Artigo escrito por Raquel Félix – Knowledge Hunter/ Research & Innovation Analyst

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