Saramago, coesão territorial e sustentabilidade

Não devemos permitir que continuem a prevalecer expressões como “interior”, quando nenhum território no nosso país está a mais de 200 km do litoral. O problema do desenvolvimento é a falta de investimento, massa crítica e despovoamento.

Vivemos este ano o centenário do escritor ribatejano e Nobel da Literatura José Saramago e, depois de ler obras como o “Memorial do Convento”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, As Pequenas Memórias” ou “Levantado do Chão”, através de um programa de uma rádio nacional fui descobrindo a obra “Viagem a Portugal”. Trata-se de uma emblemática obra, datada de 1981, e onde o autor, natural da vila de Azinhaga, Golegã, descreve, por exemplo (falando da minha cidade e do seu património) magicamente a Charola do Convento de Cristo em Tomar “como sol radiante e umbigo do mundo”.

José Saramago sempre assumiu a sua terra. E que forma honorável esta a de sublinhar o ano do seu centenário, celebrado na aldeia que o viu nascer, com a plantação de “Cem oliveiras para Saramago”, uma homenagem da sua Fundação. “Minha aldeia era rodeada de olivais, com oliveiras antigas de troncos enormes. Elas desapareceram. Senti-me como se me tivessem roubado a infância. Hectares e hectares de oliveiras desapareceram para dar lugar a culturas mais lucrativas”, escreveu.

Os livros são uma viagem que fazemos através das páginas que desfolhamos e esta obra, para além de se debruçar sobre um Portugal do pós-revolução de Abril – mas onde os locais históricos e de beleza natural são colocados com a beleza do mestre da arte literária – é, por si só, uma autêntica viagem uma vez que nos permite conhecer todo o país, mesmo os locais, muitas vezes, com menos coesão, despovoados e desiguais.

A cultura tem um valor económico claro e obras como esta de José Saramago valorizam o território, despertando no leitor um genuíno interesse turístico e, em consequência, económico. Mas não é essa abordagem que aqui se coloca.

A abordagem que trago a estas linhas é sobre valorização, e como temos que olhar para as potencialidades dos territórios com o objetivo de coesão, criação de desenvolvimento e de emprego. Não devemos permitir que continuem a prevalecer expressões como “interior”, quando nenhum território no nosso país está a mais de 200 km do litoral. O problema do desenvolvimento é a falta de investimento, massa crítica e despovoamento, nunca por causa de ser um território de interior, como Madrid é um exemplo.

Os territórios precisam de investimento para serem atrativos o suficiente para conduzir à fixação de pessoas. O nosso país, na cauda da Península Ibérica e banhado por um Atlântico azul, tem em cada terra, cada lugar, um potencial que urge reconhecer e valorizar. Os milhões de turistas que anualmente nos visitam comprovam isso mesmo.

A este propósito, não posso deixar de referir que Portugal se encontra a acolher, pela primeira vez, a Conferência sobre os Oceanos das Nações Unidas sob o tema “Conservar e utilizar de forma sustentável os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável”. Uma conferência que procura impulsionar soluções inovadoras, baseadas em dados científicos, através das quais se pretende iniciar um novo capítulo da ação mundial sobre os oceanos, tendo em vista a sustentabilidade do planeta.

Um planeta que precisa de soluções que permitam uma gestão sustentável dos oceanos, com uma aposta nas tecnologias verdes e utilizações inovadoras dos recursos marinhos, impedindo a perda de habitats e o garante da biodiversidade.

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