Saúde mental e democracia: se lhe prometerem fórmulas mágicas… desconfie

O sonho da república de há 112 anos já sofreu muitos revezes e alguns dos seus ideais apenas foram alcançados, em certa medida, após o 25 de Abril de 1974. 

O sonho da república de há 112 anos já sofreu muitos revezes e alguns dos seus ideais apenas foram alcançados, em certa medida, após o 25 de Abril de 1974.  O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no seu discurso do 5 de Outubro deste ano, alertou para os riscos existenciais da democracia pelas suas falhas não atendidas e contextos férteis para populismos. A esse propósito, recordou os idos de 1922, onde também uma guerra e uma pandemia criavam um caldo propício a soluções simplistas e até radicais para atender aos anseios das pessoas.

Apesar dos erros e vulnerabilidades existentes e da necessidade de as melhorarmos substancialmente, diferencia-nos de há 100 anos termos instituições que não tínhamos, entre outras competências e ganhos civilizacionais relembrados pelo Presidente da República. Todavia, os nossos pontos de referência de onde brotam as expectativas que nos acalentam são os de agora e as necessidades que sentimos partem do que já conquistámos e não desses tempos de outrora.

Os serviços de saúde mental prestados há 100 anos eram pouco mais do que tentar ajudar quem sofria de doença mental e era excluído, rotulado de louco e aprisionado até. Foram décadas sem que os direitos humanos se fizessem sentir entre estas pessoas e as suas famílias. Nos últimos 48 anos muito mudou no tratamento das pessoas com doença mental e na humanização dos cuidados de saúde em geral. Todavia, só mais recentemente foi ficando mais clara a diferença entre falar de saúde mental e doença mental, entre estar doente ou em sofrimento psicológico sem que signifique doença, em que é necessária prevenção e não só remediação, em que para além da importância do modelo biomédico nos contextos de saúde, existem outros modelos com evidência científica, bio-psico-sociais, complementares e transversais aos contextos, envolvendo as comunidades, as escolas e os locais de trabalho.

Hoje, aceder aos serviços públicos de saúde, e de saúde mental em particular, é muito mais do que o acesso para aqueles que sofrem de uma doença mental. E ainda assim, para esses, continua a ser tão difícil. Só que as pessoas pedem mais, precisam de mais, esperam mais. Querem poder aceder em proximidade ao apoio psicológico antes de estarem doentes. Querem poder trabalhar sem ficarem doentes em consequência do trabalho. Querem poder aprender e ensinar, desenvolvendo o saber estar e o saber ser, com bem-estar enquanto vivem a escola. As pessoas querem acreditar num futuro melhor e precisam de acreditar.

Esta combinação é propícia aos vendedores de banha da cobra, das fórmulas mágicas, do tudo bem ou do tudo mal, das intervenções sem evidência científica, que até algumas universidades, na área da gestão e dos negócios, vendem sem cuidado, escrúpulos e em pacotes com alguma psicologia ao barulho para validarem terapias alternativas e logros vários como se se tratasse tudo da mesma coisa. Perde-se assim credibilidade e contribui-se para a desinformação.

As pessoas exigem mais, exigem melhor, e podemos juntos fazê-lo, contribuindo com seriedade para tornarmos a saúde mental e o bem-estar uma prioridade global, como defende o mote da Organização Mundial da Saúde para o 10 de Outubro deste ano. Estaremos também a contribuir para a credibilidade das instituições e para a qualidade de nossa democracia.

Recomendadas

A voz da metamorfose

Arquitetos e urbanistas são chamados a desenhar soluções criativas integradas em estratégias maiores, onde é dada voz a uma consciência social e política que tem especial atenção a contextos sociais diversificados.

Portugal perde com a Roménia e falha ‘final four’

As grandes transformações económicas e sociais de que o país precisa para corrigir a trajetória da divergência em relação à Europa não dependem da quantidade de dinheiros comunitários. Depende da conceção estratégica que se quer para Portugal.

Uma estagnação sem mistério

Nem numa área que é querida pelo Governo e que se tornou mais urgente e importante com a invasão da Ucrânia, a energia renovável, a administração pública funciona.
Comentários