“Sector do turismo nunca terá uma recessão”, defende vice-presidente do BCP

O economista Augusto Mateus lembrou também que os Governos europeus financiaram quase toda a despesa pública relacionada com a crise pandémicas com a “criação monetária”. Já Jorge Rebelo de Almeida, presidente da Vila Galé, trouxe para o debate a necessidade de se promover a fusão das PME, para ganharem escala e massa crítica. Tudo na VI Cimeira do Turismo.

No painel “financiamento do turismo e gestão dos custos de contexto” na VI Cimeira do Turismo português, participaram João Nuno Palma, vice-presidente do BCP, Augusto Mateus, economista, e Jorge Rebelo de Almeida, presidente do Conselho de Administração da Vila Galé.

O vice-presidente do BCP realçou que o sector do turismo foi dos mais afetados pelo confinamento, mas lembrou que a estrutura empresarial se manteve devido aos apoios dados pela banca, nomeadamente as moratórias de crédito e as linhas Covid. Mas também devido aos lay-offs do Estado.

“O BCP teve uma quota de mercado de 40% das linhas de crédito Covid, que é o dobro da nossa quota de mercado natural”, lembrou João Nuno Palma.

O sector do turismo, “chegou a ter 4.200 milhões de euros de moratórias (eram 18% das empresas com uma utilização de moratórias), em abril de 2020 e recuperou totalmente. No fim de 2021 já tinha 85 milhões de euros de moratórias, correspondente a 8% das empresas, disse o vice-presidente do Millennium BCP, que frisou que hoje a situação está regularizada.

“O sector do turismo já chegou a ter 4% de crédito vencido, em 2021 tinha 6%, e depois das moratórias o sector tem hoje em dia 1,2% de crédito vencido”, avançou João Nuno Palma.

O sector recuperou graças à melhoria da rentabilidade do turismo, constatou.

Sobre as atuais linhas de crédito, o administrador executivo do BCP explicou que “há agora esta linha de 600 milhões, com garantia mútua, criada por resposta ao aumento dos custos de produção, que o banco está agora à espera do protocolo para ter a certeza que as empresas do sector são abrangidas, mas temos outra de apoio à transição energética, que o turismo poderá utilizar e são 290 milhões de euros, que entram no inicio de outubro. Temos mais 100 milhões de euros de apoio à formação e qualificação de trabalhadores, que já está em curso. Temos mais 30 milhões para apoio à internacionalização de empresas, que também estão disponíveis para as empresas de turismo, e temos mais 20 milhões para a formação de competências verdes que também estão disponíveis”.

Do ponto de vista da estruturação de nova oferta, de novos projetos (imóveis para turismo, hotéis) “está a haver uma procura substancial, nomeadamente em Lisboa, Porto, Algarve”, revelou João Nuno Palma que reconhece uma valorização dos activos face ao momento da concessão do financiamento.

Portanto para a banca este sector tem boas perspetivas dada a dimensão da procura. “Em Lisboa existem 183 turistas por cada 100 habitantes e no Porto 160 turistas por cada 100 habitantes”, revelou o vice-presidente do BCP.

Sobre a evolução económica para 2023, João Nuno Palma disse que o banco perspetiva um abrandamento da procura do sector do turismo para o próximo ano, “mas o sector nunca vai entrar em recessão, nas nossas perspetivas”.

“Tem de haver um equilíbrio entre as políticas monetária e orçamental”, defendeu. Se as taxas de juro subirem para níveis muito elevados, poderão “surgir outro tipo de cenários”, disse. Mas “no cenário central com que o banco está a trabalhar, o sector é resiliente [em 2023 há um abrandamento e em 2024 recupera]”, referiu.

Numa altura em que o turismo recuperou os níveis de procura pré-pandemia, Augusto Mateus lembrou a assimetria do impacto do confinamento na economia. Esta assimetria “esteve em força na recuperação”, referiu o economista que considera que a inflação, que começa em 2021, está ligada a essa assimetria. O conflito na Ucrânia em fevereiro, veio apenas acelerar o processo inflacionista que já tinha sido desencadeado.

“O turismo tem uma dinâmica de regresso à normalidade, mas é uma dinâmica de vitória sobre o confinamento, e portanto tem uma procura turística de curtíssimo prazo”, defendeu.

O economista Augusto Mateus lembrou também que os Governos europeus financiaram quase toda a despesa pública relacionada com a crise pandémicas com a “criação monetária”. Por isso é que, entre outras razões, “hoje o euro vale menos 24% que o dólar e menos 16% que o yuan”, disse Augusto Mateus. A desvalorização do euro é um factor conjuntural positivo favorável à procura turística, lembrou ainda.

Augusto Mateus lançou o desafio de Portugal melhorar a sustentabilidade da oferta turística.

A inflação alta está instalada e vai estabilizar em torno de 5% ou 6% em 2023, lembrou ainda o economista que aponta que esta inflação irá “secar” a poupança acumulada das famílias durante a pandemia de “30 mil milhões de euros”, pelo que o turismo nacional para o ano não se irá repetir da mesma maneira.

O poder de compra em Portugal baixou 11,3% desde abril, disse Augusto Mateus.

“A inflação não é exclusivamente um fenómeno monetário, de desvalorização da moeda”, porque “temos inflação pelos custos mas também pelos estrangulamentos, pela assimetria” avisou o economista que considera que “perdemos tempo” vamos ter que usar intensivamente alguma subida da taxa de juro. Isso seca liquidez”, admitiu.

“Para que a inflação do passado não pressione a inflação do futuro pela inércia, o grande instrumento não é taxa de juro, é a confiança”, defendeu o economista que quer políticas públicas estáveis.

O que tem de ser acelerado é a ajuda às empresas a fazer a digitalização e a transição energética, referiu Augusto Mateus.

A confiança associada ao investimento foi também defendido no painel, por João Nuno Palma, que lembrou os custos de contexto (e deu  o exemplo da burocracia na aprovação de um projeto).

Jorge Rebelo de Almeida, presidente do Conselho de Administração da Vila Galé, revelou que construiu quatro hotéis durante a pandemia, “abrimos um em São Paulo, no Brasil, e estamos com mais cinco hotéis em andamento”. Mas agora os custos de construção disparam.

O gestor criticou o debate anterior, num painel que discutiu “o novo paradigma da mobilidade” e em que se falou do novo aeroporto e a ferrovia. “Os comboios estão um desastre e são importantíssimos para o desenvolvimento do turismo em Portugal, sobretudo para desenvolver o interior”, disse o gestor que aposta no interior como desenvolvimento futuro do turismo português.

O presidente da Vila Galé, sobre a falta de investimento na ferrovia, ironizou e disse “temos de nos voltar para o ciclismo e começar a cativar internacionalmente ciclistas, porque não faltam ciclovias”.

Jorge Rebelo de Almeida lembrou que foi “o cliente português” que sustentou a subida exponencial do turismo este ano. “Porque o nosso cliente estrangeiro não cresceu e até houve alguns mercados que ainda não atingiram o ponto de 2019, como o brasileiro. O americano está praticamente em linha e o alemão está em queda”, disse o gestor que lembrou ainda a faltas de medidas para combater a seca.

O empresário trouxe também para o debate a necessidade de se promover a fusão das PME, para ganharem escala e massa crítica.

A decisão do novo aeroporto é fundamental, defendeu também João Nuno Palma.

O ‘chairman’ da ANA afirmou esperar que com o novo ministro das Finanças, Fernando Medina, sejam autorizadas as obras de melhoria do aeroporto de Lisboa, depois de o anterior João Leão ter sido uma “força de bloqueio”. José Luís Arnaut falava na 6.ª Cimeira do Turismo Português, a primeira em modo presencial desde a pandemia, no auditório da Fundação Champalimaud, em Lisboa.

 

 

 

 

Recomendadas

Bosch procura 100 profissionais para centro de desenvolvimento de software para airbags e travões em Braga

“A partir de Braga, vamos contribuir para o objetivo de continuar a salvar vidas, tornando a condução mais segura e confortável”, explica Carlos Ribas, representante da Bosch em Portugal. ‘Recruitment days’ vão decorrer em Braga nos dias 13 e 14 de janeiro.

JE Podcast: Ouça aqui as notícias mais importantes desta segunda-feira

Da economia à política, das empresas aos mercados, ouça aqui as principais notícias que marcam o dia informativo desta segunda-feira.

“Taxa Amazon”. Barcelona prepara-se para taxar empresas de entregas

A cidade espanhola deverá aplicar uma taxa às empresas que circulem no espaço público para entregar encomendas online. Medida abrange empresas com mais de um milhão de euros em receitas anuais e deverá encaixar cerca de 3 milhões nos cofres da autarquia.
Comentários