Sem alternativa senão a demissão

Miguel Macedo demitiu-se. E fê-lo porque em consciência percebeu que a sua permanência no governo era insustentável, para si próprio e para o governo, devido à proximidade pessoal e profissional que manteve e mantinha com alguns dos principais suspeitos no caso gravíssimo de corrupção em torno dos Vistos Gold, que a Operação Labirinto parece ter […]

Miguel Macedo demitiu-se. E fê-lo porque em consciência percebeu que a sua permanência no governo era insustentável, para si próprio e para o governo, devido à proximidade pessoal e profissional que manteve e mantinha com alguns dos principais suspeitos no caso gravíssimo de corrupção em torno dos Vistos Gold, que a Operação Labirinto parece ter conseguido provar. Por isso, Miguel Macedo, assumindo a sua responsabilidade política, demitiu-se. É que para além destas suas ligações pessoais (ligações de amizade antigas e ligações em sociedades empresariais num passado recente), entre os 11 quadros do Estado suspeitos da prática de crimes de corrupção, de recebimento indevido, de vantagem, prevaricação, peculato de uso, abuso de poder e tráfico de influência, Miguel Macedo, enquanto Ministro da Administração Interna, ainda tutelava o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, cujo diretor, um dos principais suspeitos, está constituído formalmente como arguido e atualmente em prisão preventiva, caso inédito num diretor de um órgão de segurança e polícia criminal ao mais alto nível.

Como não se demitir? Claro que Miguel Macedo não tinha outra alternativa senão apresentar a demissão e retirar-se rapidamente de cena, sob pena de se deixar enlamear por todo este processo vergonhoso, para onde gente sem escrúpulos – funcionários “topo de gama”, amigos de todos, muito amigos de alguns – arrastou a honorabilidade de parte da administração pública. Também soubemos que Passos Coelho o tentou convencer a ficar, comprovando o autismo e a insensatez deste primeiro-ministro, que não vislumbra a floresta para além da árvore – mas Macedo já anda nisto há muito tempo e demonstrou ter mais calo político do que Passos Coelho.

Quem não se lembra do caso de Miguel Relvas, quando Nuno Crato foi elogiado por ter enviado para a Inspeção Geral do Ensino Superior os factos relativos à licenciatura do então Ministro? Ora o Ministro da Educação em exercício era obrigado a enviar essa documentação à Inspeção da sua tutela, devido à natureza do seu conteúdo e na sequência de procedimentos administrativos regulares nessas circunstâncias. Não se tratava de uma opção, não tinha era outra alternativa.

Quem age por não ter alternativa, ou porque é sua obrigação, limita-se a cumprir. Miguel Macedo apenas cumpriu – triste país o nosso onde já se elogia alguém só porque cumpriu a sua obrigação. Elogios, só se for por ter desobedecido a Passos Coelho … Ou pelo contraste com a atitude de outros ministros, como Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz, cuja cegueira os impede de assumir responsabilidades e de ver o quanto estão já a apodrecer no governo. E quanto o governo está a apodrecer com eles.

Gabriela Canavilhas
Pianista, deputada e ex-ministra da Cultura

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