“Sem mais receitas, não se poderá reter talento”

Pedro Brinca, economista e professor da Nova SBE, e Luís Cassiano Neves, analisaram a centralização dos direitos televisivos e a capacidade exportadora da Liga portuguesa. Dois fatores essenciais nas receitas das SAD em Portugal.

A centralização dos direitos audiovisuais é tida como um instrumento indispensável para fomentar a competitividade no mundo do futebol, destaca o Estudo Internacional sobre Direitos Audiovisuais Desportivos da EY e comissionado pela Liga Portugal. Em entrevista à JE TV, Pedro Brinca, economista e professor da Nova SBE, e Luís Cassiano Neves, fundador da 14 Sports Law, debruçaram-se sobre temas que podem revolucionar o futebol em Portugal.

Mais dinheiro da TV?
O economista descarta a viabilidade de um modelo de negociação centralizado sem um modelo de distribuição de receitas associado.

“Quando um modelo é de negociação individual, o modelo de distribuição de receitas está feito. Quando temos negociação centralizada, tem de haver um modelo, um acordo relativamente à forma como essas receitas vão ser distribuídas”, explicou. Segundo Pedro Brinca, a “negociação centralizada por si até pode fazer com que o bolo seja maior, ou então, dependendo das circunstâncias, até desça menos do que a negociação individual”, olhando para a variação como a fonte do problema. “Quer um potencial aumento ou um evitar de uma descida mais acentuada, não compensa [de acordo com contas feitas pelo especialista] aquilo que irá suceder aos clubes por via da redistribuição”, analisa.

No top-10 da UEFA, a liga portuguesa surge como a única que tem negociação individual. “É também bom ver que a liga portuguesa tem um conjunto de especificidades que a diferenciam de todos os outros casos, como uma altíssima concentração de adeptos em três clubes”, refere. Em Portugal, 94,5% dos adeptos são dos três “grandes”. “Um país com dez milhões de habitantes, com relativo poder de compra mais baixo do que, por exemplo, Holanda ou Bélgica, consegue ter uma performance dos seus clubes superior aos clubes desses países e dessa ligas”, afirmou. “Nos últimos 22 anos, a Holanda ficou duas vezes, a última este ano, à frente de Portugal no ranking da UEFA”, exemplificou.

A negociação individual levou a uma concentração de 74,5% das receitas nos três grandes, recorda o professor universitário.

Fábrica de talentos
Por sua vez, Luís Cassiano Neves apresentou uma “visão fatalista” – nas palavras do próprio -, quando questionado sobre como pode Portugal rentabilizar os futebolistas antes da exportação para o mercado europeu. “O que faz mover este mercado é o dinheiro. É evidente que Portugal é, de facto, uma fabrica de talentos. Os clubes portugueses têm tudo, e apesar de circuntancialmente poder haver criticas à menor ou maior aposta nos talentos pelas academias nacionais, tem havido uma capacidade enorme de colocar na montra uma série de jovens jogadores que ganham uma valorização muito rápida, porque as ligas portuguesas, e sobretudo a primeira [liga], têm uma capacidade de exponenciar valor de mercado muito significativa porque tem credibilidade do ponto de vista da tradução dos índices de competitividade que aqui são registados para patamares mais elevados”.

“Mas a verdade é só uma. Os clubes portugueses só vão reter talento mais tempo se tiverem capacidades financeiras para o fazer. As ‘Big 5’ põem em cima da mesa competições que os clubes portugueses pura e simplesmente não conseguem reproduzir. E se conseguem é circunstancialmente para dois ou três jogadores dos três maiores plantéis”, considerou.

Segundo Luís Cassiano Neves, “se não houver capacidade para gerar mais receitas, não haverá capacidade reforçada de reter talento.

Pedro Brinca considera que Portugal “tem feito milagres” e que a indústria do futebol português tem sido “muito maltratada”.

“A UEFA usa a Federação Portuguesa de Futebol como “o exemplo” de boas práticas”, revelou. “Nós somos campeões do mundo de transferências. Temos sido extraordinários no modelo que acredito que é o único para poder vencer. Servir de plataforma de valorização de jogadores que não têm espaço imediato no palco mediático das maiores equipas.” O economista defende que é preciso apostar “na presença nas competiçoes europeias”. “O SL Benfica não teria vendido o Darwin se não tivesse jogado contra o Liverpool nos quartos-de-final pelo valor que vendeu”, afirmou.

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