Sempre Quis Ser… revela sonhos de sem-abrigo de Lisboa

Sempre quiseram ser… o que são hoje: Catarina Fernandes, artista plástica, e João Porfírio, fotógrafo. Os jovens artistas registaram os sonhos daqueles que dormem a céu aberto e não chegaram a ser o que sonhavam.   Durante cerca de um ano, a dupla de artistas Catarina Fernandes e João Porfírio esteve nas ruas da cidade […]

Sempre quiseram ser… o que são hoje: Catarina Fernandes, artista plástica, e João Porfírio, fotógrafo. Os jovens artistas registaram os sonhos daqueles que dormem a céu aberto e não chegaram a ser o que sonhavam.

 

Durante cerca de um ano, a dupla de artistas Catarina Fernandes e João Porfírio esteve nas ruas da cidade de Lisboa a captar com uma câmara fotográfica os sonhos adiados de várias pessoas que se encontram na condição de sem-abrigo. O resultado é a exposição de fotografia “Sempre Quis Ser…”, que inaugura na próxima terça-feira, dia 25, na estação de metro do Cais do Sodré. A mostra é composta por um núcleo de dez fotografias, num formato de 60x90cm, que revelam os sonhos profissionais e pessoais de dez pessoas que dormem ao relento.
Futebolista, médica, professora/o, informático, arquiteta, engenheiro civil, pedreiro, costureira e, até, “feliz”, são alguns dos sonhos que se podem ler nas placas de ardósia que cada um ergue na fotografia.
Na origem do “Sempre Quis Ser…” está a vontade de dois jovens artistas (ambos com 19 anos) em desenvolver um projeto artístico diferenciador com impacto na sociedade. Catarina Fernandes, natural de Portimão, está em Lisboa há dois anos, tendo ingressado no curso de expressão dramática no Chapitô; atualmente, frequenta também o curso de cenografia na mesma instituição. Há cerca de um ano criou, com duas amigas, a associação Arte Sem Teto, através da qual levam até aos sem-abrigo espetáculos de agrupamentos corais. João Porfírio é conterrâneo e amigo de infância de Catarina, e também se encontra na capital a estudar – fotografia na ETIC – Escola de Tecnologias Inovação e Criação, realizando em paralelo trabalhos de fotojornalismo para vários órgãos de comunicação social.
Há aproximadamente ano e meio, os dois amigos, a dar os primeiros passos no universo artístico, decidiram unir as suas paixões – a fotografia, o trabalho social e o teatro – e começaram a desenhar o projeto que expõem agora. O objetivo ficou definido à partida: relembrar que o sonho faz parte do DNA de todos os seres humanos, os que têm teto e os que dormem a céu aberto. “É muito importante não desistir dos nossos sonhos. É óbvio que a vida pode direcionar-nos para outras situações, mas os nossos sonhos de criança ficam sempre lá”, explica Catarina Fernandes. Para João Porfírio, o mais importante é que as imagens que apresentam espoletem reflexões aos transeuntes: “gostava que o público passasse pelas fotografias e ficasse a pensar naquilo que gostavam de ter sido outrora e no que realmente são hoje”.
Porquê começar pelos sem-abrigo? Para se perceber “que os sem-abrigo são pessoas como nós e que também têm sonhos. É também uma forma de minimizar o distanciamento entre as pessoas que se encontram em condições diferentes”.
A primeira pessoa a ser fotografada por Catarina e João foi Emanuel. O seu sonho era ser informático. “Foi a nossa primeira abordagem, chegámos ao pé dele, percebemos que não falava português, acabámos por perceber que era de nacionalidade turca. Como eu sabia algumas palavras em turco, ele mostrou-se muito colaborativo”, refere a artista. Se, nesta altura, ainda existia algum receio e insegurança comuns a quem dá os primeiros passos na concretização de um projeto, esta primeira experiência fê-los ter a certeza de que havia pernas para andar e de que estes registos fotográficos tinham de ser mostrados. Foi a partir desta fotografia que decidiram avançar com mais registos e expô-los ao mundo. “Até pensámos em expor as fotografias clandestinamente para chamar a atenção”, explica João. Mas a prudência falou mais alto e optaram por apresentar a ideia à ETIC, que estabeleceu a ponte com o Metropolitano de Lisboa.
Cada pessoa fotografada encerrava uma história de vida complexa. Descobrir o que “sempre quiseram ser” nem sempre foi tarefa fácil. “Algumas pessoas divagavam muito e lamentavam o seu percurso de vida até conseguirem lembrar-se do que realmente quiseram ser”. Noutros casos, a comunicação não pôde mesmo ser verbal. “Houve o caso de uma senhora, que só se expressava em romeno, em que só conseguimos perceber o seu sonho profissional através de mímica. Ela fazia um gesto de quem está a desenhar. Pegou na nossa mão e encostou-a ao edifício onde se encontrava. Só nessa altura percebemos que estávamos perante alguém que ambicionava ser arquiteta”, relatam.
No entender de Catarina e João, estas imagens teriam de ser apresentadas, impreterivelmente, a preto e branco, não só porque este tipo de registo faz parte da produção artística de João, mas também porque o preto e branco carrega muito mais emoção e dramatismo. “Dei muito contraste às fotografias com essa intenção”, explica João. Catarina acrescenta que “a fotografia a preto e branco deixa-nos voar, deixa-nos adivinhar a história, enquanto uma fotografia a cores dá-nos logo a informação toda”. Por uma questão de disponibilidade, a maioria das fotografias foi realizada à noite.
Ainda hoje, João e Catarina estabelecem contacto com alguns dos fotografados. Catarina passou o São Martinho a comer castanhas com Clemência, com quem confessa já ter tido grandes e marcantes conversas, daquelas que nos fazem mudar a perspetiva da vida. João revela ter ficado com uma paixão platónica por Maria Catarina, a senhora que está sentada nas arcadas do Teatro Nacional Dona Maria II, que considera a pessoa mais simpática e mais querida que já conheceu.
No futuro, apesar de ainda não estar formalizado, há planos para que esta mostra transite para outras estações de metro, como a Baixa-Chiado, Marquês de Pombal e São Sebastião.
No caderno dos projetos, Catarina Fernandes e João Porfírio tem mais seis ou sete em fila de espera, mas num futuro próximo gostavam de dar continuidade ao “Sempre Quis Ser…” com políticos, médicos, pessoas da alta sociedade e celebridades. Afinal, numa perspetiva shakespeariana, todos “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”.

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