“Ser empreendedor é trabalhar para melhorar a vida” Tim Vieira

Tim Vieira era um nome que a poucos portugueses dizia alguma coisa. Ficou conhecido com o programa da SIC, o Shark Tank, onde tem sido dos que mais tem ajudado a criar novos projectos. E alguns desses projectos atingiram já o breakeven, como o Lapa, um dispositivo que ajuda a encontrar coisas perdidas, ou as […]

Tim Vieira era um nome que a poucos portugueses dizia alguma coisa. Ficou conhecido com o programa da SIC, o Shark Tank, onde tem sido dos que mais tem ajudado a criar novos projectos. E alguns desses projectos atingiram já o breakeven, como o Lapa, um dispositivo que ajuda a encontrar coisas perdidas, ou as fraldas renováveis Mita.

Aquele empreendedor diz que os empresários portugueses continuam a olhar para o vizinho como o concorrente, quando deveriam avançar em força para o estrangeiro, onde está a verdadeira concorrência.

Hoje é uma figura pública, está no Shark Tank, da SIC, a ajudar empreendedores. Mas há bem pouco tempo poucos portugueses o conheciam. Quem é Tim Vieira?

Eu sempre tive ligação com Portugal. O meu pai nasceu em Portimão, fui para Moçambique com três anos – a minha mãe era de Moçambique –, mas sempre passámos cá um mês por ano para vir visitar a família. Assim, tive sempre ligação a terras perto de Vila Franca de Xira e do Algarve. Depois, quando comecei os meus negócios em Angola, Portugal também era um país onde tinha muitos clientes. Passei a vir cá mais vezes em reuniões com clientes. Passei a gostar de tudo em Portugal, desde o tempo à comida e às pessoas. E vi que temos cá pessoas que conseguem sempre fazer as coisas acontecer – devo ter uns 28 portugueses a trabalhar para mim em Angola – e sempre vi que eram dinâmicos. E quando comecei a tentar fazer alguns negócios em Portugal percebi que aqui também havia oportunidades. Foi mesmo durante a crise que comecei a investir mais, foi em 2011 que comecei a fazer alguns investimentos.

Escolheu o tempo de crise para investir?

Se calhar era o tempo errado para muita gente, mas para mim foi um bom tempo porque consegui possivelmente ter mais valor e ser tomado mais a sério, porque é uma altura em que é importante mostrar que estou cá para investir e não para vender. E foi aí que comecei a fazer mais negócios em Portugal.

Como surgiu a ida para o Shark Tank?

Um amigo meu ligou-me a pedir o contacto de uma pessoa, disse que ia produzir o programa para a televisão e disse-me o que era. E eu disse-lhe que se calhar até entrava naquele programa. Foi uma surpresa para ele porque sempre fui low profile, nem entrevistas dava. Era mesmo trabalhar do que gostava. Mas aceitei o Shark Tank.

Agora ajuda os empreendedores, mas como começou a empreender? Recordo que lançou uma cervejeira artesanal na África do Sul. De onde vem esse bichinho?

O espírito de empreendedor, acho que todos tempos. Às vezes é mais fácil começarmos quando temos mais pessoas à nossa volta que nos deixam começar a usá-lo. Eu tive um pai que começou um negócio quando eu tinha 12 anos, e eu estava dentro do negócio, a ajudar, aí percebi logo o que era ter de trabalhar para melhorar a vida. Acho que ser empreendedor é um bocado isso, às vezes não é estar a pensar que vamos começar grandes negócios, mas que é um passo para melhorar a vida. No meu caso, comecei a perceber que se eu vender uma coisa consigo vender outra. Se quiser uma coisa, vou ter de vender duas. Comecei a perceber que é assim que temos de andar para a frente, para termos o que quisermos. Comecei com vários negócios, a tentar, alguns correram bem, outros não, mas uma coisa que é verdade é que ganhamos sempre experiências, boas e más. O que é importante para um empreendedor são as experiências, porque aprendemos muito, das pessoas, aprendemos negócios e aprendemos nós próprios. Comecei cedo. O negócio da cerveja foi com o que fui mais conhecido, porque só havia uma cervejeira grande na África do Sul. Quando comecei a fazer a minha cerveja parecia uma coisa do outro mundo. E nessa altura tínhamos sanções económicas. Por isso, não tínhamos muitos produtos na África do Sul, as marcas que lá tínhamos eram mesmo muito grandes. Foi aí que começou.

Ainda tem esse negócio?

Não, mas existe e é a maior micro cervejeira da África do Sul. Produz a Boston Larger e a John Black. E são muito boas.

Depois expandiu os negócios a que áreas?

Depois surgiu uma oportunidade para ir trabalhar em Angola, o que era uma boa oportunidade para mim porque a África do Sul também tinha entrado em crise, com o rand a desvalorizar.

Isso foi em que ano?

Em 2000, quando o dinheiro sul-africano começou a desvalorizar muito e quando a economia angolana começou a crescer. Cheguei a Angola em Outubro de 2001 e era o timing prefeito porque o país estava a começar mesmo a andar para a frente. Fica só a três horas da África do Sul mas é um mundo diferente. Desde a maneira de fazer negócios, a língua, a cultura, a comida, mas eu tinha uma vantagem, a minha língua portuguesa, e já saber o que era o bacalhau… (risos)… sobrevivi logo. E também já tinha tido contacto com muitos angolanos, havia muitos angolanos na nossa igreja, logo era muito mais fácil gerir e trabalhar com angolanos. Fui lá o director-geral de uma empresa norte-americana e um ano e meio depois decidi começar o meu negócio. Por acaso. Eu estava para ir para a Nigéria mas uma pessoa que estava em Angola pediu-me para ficar e abrimos juntos um negócio. Ficou meu sócio até agora, na área da comunicação, que é o nosso maior negócio em Angola. Temos cerca de 500 pessoas e estamos envolvidos em tudo, desde agências, outdoors, impressão, em quase todas as áreas somos líderes.

Depois chega a Portugal, que negócios cá tem?

Aqui começámos com a agricultura. Com o programa Shark Tank entrámos em outras áreas, mas também temos outros de pessoas que vêm ter comigo. Há muitos novos potenciais startups que vêm ter comigo.

Então foi o programa da SIC que vos aumentou o número de negócios em Portugal?

Sim, mas não é só o Shark Tank, cada vez há mais portugueses que acreditam muito mais neles e acreditam que não é a trabalhar para um salário que vão mudar a vida deles. E estão a utilizar as capacidades que têm para arrancar com novos negócios. Acho que nunca vi esta atitude em Portugal tanto como agora. E isso vê-se na rua, basta ver as lojas novas que abrem, os produtos novos a serem feitos, as novas app. É incrível. E também vimos as grandes empresas a sofrerem quando há tantas coisas novas a aparecerem.

Na agricultura o que têm?

Plantações de framboesa, que é vendida para o estrangeiro. Quando começámos éramos dos poucos a produzir e agora já há muita produção.

Além das framboesas, que mais produz?

Temos também mirtilos, mas com uma área mais pequena. Vamos agora avançar para mais 5 hectares de mirtilos. A plantação de framboesa tem já 27 hectares e a produção este ano está com um crescimento de 70%, em relação à produção total do ano passado. Este ano já produzimos mais de 175 toneladas e o ano passado produzimos 102 toneladas.

Em que áreas acha que os portugueses podem ser fortes?

Cá dentro é o turismo e em segundo lugar é a agricultura onde há ainda muito para fazer. Onde Portugal não está ainda a ter sucesso é no marketing dos produtos. Se melhorarmos isso acho que temos tudo para conseguir expandir os produtos portugueses no mundo. Aqui também estamos à procura de sinergias, também estamos à procura de portugueses que estão lá fora e que conseguem ver coisas em Portugal que lhes interessa expandir para o estrangeiro. Não é fácil, eu sei. Até há empresas cá que estão no Porto e que não estão em Lisboa mas estão a falar que querem ir para o estrangeiro… acho que precisamos de alguns casos de sucesso que nos vão dar algum grande impulso e que vai parar o medo e a falta de confiança. Quando tiverem sucesso, acho que vai ser difícil parar as pessoas que querem levar produtos lá para fora. E a verdade é que o mundo já está muito mais aberto aos produtos portugueses. A roupa, o calçado então está muito bom, a comida, com a expansão do turismo, as pessoas já estão a querer provar a nossa gastronomia. Quando vêm cá e vêem as ruas e tudo tão limpinho e com tudo organizado, nós já não estamos tão longe de ser uma Suíça, já não estamos a ser comparados com países do terceiro mundo. Um estrangeiro chega cá e fica muito admirado, porque isto não é o que estavam à espera. Depois vêem os jovens a fazer tudo, com Tuk Tuk, a abrirem lojas, a falar línguas que eles ficam espantados em como as conseguimos falar, os estrangeiros quando falam de Portugal já falam de nós de maneira diferente.

No programa da SIC que projectos já apoiou?

Cerca de 10% a 15% dos projectos, acabamos por não entrar no final, por várias razões. E às vezes há produtos que podem não dar certo na nossa visão e também não estamos ali para criar falsas expectativas. Então falamos com as pessoas, que por vezes nos percebem. Dói-nos muito quando não conseguimos apoiar, mas também não conseguimos fazer milagres. Nos outros produtos em que estamos a entrar temos esperança de que 50% vá dar certo. E 50% já é um número muito mais elevado do que costumam dizer, dizem que o número de startups que dão certo é de um em dez. Cinco, ou quatro, em dez já é muito bom. Por outro lado, estamos a ver se aquelas pessoas, com aquele bichinho de empreendedorismo, também ajudam outros. Do nosso lado, estamos com alguns projectos em que acreditamos muito. Mas o que investimos nos programas não dá para ter sucesso. Acho que as pessoas, naqueles programas, têm de pedir mais. Os valores que têm pedido são de quem tem uma visão de crescimento muito pequena e muito lenta. Nós gostamos de ver as coisas a crescer mais rápido.

Os concorrentes deviam pedir mais dinheiro?

Deviam prometer mais crescimento com o dinheiro investido. Devia de haver mais crescimento, deviam pensar melhor no que precisam para que o produto cresça mais rápido. Têm uma máquina para produzir, mas é preciso mais do que isso.

Em termos concretos, que projectos tem em curso?

Estamos com boas esperanças que a versão dois da Lapa seja muito bem-sucedida. O nosso mercado principal vai ser fora de Portugal, é onde esperamos um maior crescimento, Este projecto é aquele que encontra as coisas perdidas. Também estamos a trabalhar muito com as fraldas da Mita, um produto que pode crescer, são fraldas renováveis. Também andamos com os fumeiros da Vitta. Depois há produtos que já passaram o breakeven point, como a Skoj, a Drive You. Já estão a facturar. Não quer dizer que todos estes negócios venham a ser enormes, mas alguns deles vão dar sucesso às pessoas que lá estão. A nossa ideia é saltar quando acharmos que é o momento certo e dar o negócio de volta às mãos dos fundadores.

Quanto tempo costuma ficar numa empresa dessas?

Até à altura em começamos a fazer dinheiro. Mas, não é uma coisa com que ficamos emocionais. Acreditamos que as portas possam ficar abertas para outros projectos com essas pessoas.

Se já chegaram ao break even, nem chegou a um ano…

Alguns daqueles projectos não precisavam de muito para lá chegarem, porque os portugueses controlam muito bem os custos. Mas, ainda não estamos contentes com nenhum dos projectos, precisamos que eles cresçam muito mais. O que é positivo é que cinco ou seis deles todos os meses aumentam a facturação e isso é muito bom. Estamos a ver isso nas áreas do fashion, no Skoj, na Mita, estão a melhorar todos os meses.

Um jovem empreendedor que queira falar consigo tem de se candidatar ao programa da SIC ou pode ir ter consigo pessoalmente?

A melhor forma agora é através do programa. Ter um não no programa vai ser melhor do que ter um não de mim, porque pelo menos o produto na televisão fica conhecido, ou até pode vir a encontrar um investidor com mais sinergias do que nós para avançar com o projecto.

Como vê o nosso ecossistema empreendedor em Portugal? Quem tem uma ideia facilmente consegue chegar a quem tem dinheiro para investir?

Para quem tiver ideias não vale a pena dizer que vai ser fácil. Ideias há muitas, eu vou na rua e tenho muitas ideias que depois nunca concretizo. Quem começa uma ideia, e quem pelo menos começa a mostrar que percebe o que esta a dizer, e começa a abrir terreno, acho que se mostrar que há potencial nessa ideia ele vai conseguir encontrar investidores.

Se calhar, às vezes a melhor coisa para quem tem capital não é meter o dinheiro no banco, porque os bancos também fecham, e a Bolsa também desce. Neste país, muitos investidores têm acesso a contactos e conseguem abrir portas. Então, o dinheiro que eles põem nesses projectos e as portas que abrem são quase uma garantia de que o projecto pelo menos em break even vai ficar. E quando é uma pessoa que se mostra muito empolgada e consegue mostrar o seu produto, que já o consegue vender e entrar em vários canais, entra o espírito do investidor, quase a ganância de não perder uma boa oportunidade. Logo, esses investidores vão tentar arranjar fundos, e incubadoras, aceleradores… há uma data de coisas que as pessoas têm de perceber melhor, têm de bater a várias portas. Mas tem é de provar alguma coisa porque ideias há muitas.

 

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