Será a recessão na União Europeia inevitável?

O Banco Central Europeu já definiu que “A médio prazo teremos de trazer a inflação de volta aos 2% e faremos o que temos de fazer. Isto é, continuar a aumentar as taxas de juro nas próximas reuniões”, explica Christine Lagarde.

Será que a recessão económica é mesmo inevitável ou será possível um soft landing? E qual o impacto nas empresas? É certo que vivemos um período ímpar na conjuntura mundial, sentida em quase todos os países do mundo, porém, a Europa foi particularmente afetada. Nos últimos meses, registámos um aumento da taxa de inflação para um nível que não víamos há mais de 40 anos, em especial nos EUA e na Europa.

Na União Europeia (UE), o impacto da valorização do dólar tem-se traduzido no aumento do custo das importações e na consequente desregulação da balança de pagamentos. Ainda assim, temos a guerra Rússia-Ucrânia que, por via da guerra híbrida, veio aumentar significativamente os custos da energia, fazendo aumentar a pressão inflacionista.

Mas como será que isto se reflete na economia?

O Eurostat reviu a estimativa inicial da variação de preços em setembro para a zona euro de 10% para 9,9%, mas a inflação continuou a acelerar, acompanhada por um aumento da taxa de juro em 75 pontos base, que impactou também as taxas de juro direcionadas ao refinanciamento de longo prazo (TLTRO). Neste momento, registamos uma EURIBOR de 2%, valor que se afigurava quase irrealista há pouco mais de três meses.

Mas para onde será que caminhamos?

O Banco Central Europeu (BCE), liderado pela Christine Lagarde, já definiu o atual objetivo. “A médio prazo teremos de trazer a inflação de volta aos 2% e faremos o que temos de fazer. Isto é, continuar a aumentar as taxas de juro nas próximas reuniões”, segundo explicou Lagarde. Isto reitera o compromisso do BCE em diminuir o gap entre o atual PIB real e o PIB potencial, resultante dos choques macroeconómicos que se verificaram.

Olhando para o futuro, estima-se que a taxa de juro aumente e seja acompanhada pelo Quantitative Tightening (QT), i.e., além da suspensão da compra de ativos pelo BCE, também se registará uma diminuição do seu balanço e dívida. Em resultado disso, haverá um aumento dos spreads tanto para as empresas como para os próprios governos dos Estados-membros.

Estes fatores significam que, em termos económicos, parece ser cada vez mais difícil um soft landing, isto porque o PIB real das economias da UE passou a ser inferior ao que antes foi, o que irá resultar numa inevitável recessão económica. Outro fator a ter em consideração, é a instabilidade política, o que só piora a situação.

Na realidade, e de acordo com os dados mais recentes, já pode considerar-se que a economia europeia se encontra em recessão. O PMI compósito da zona euro caiu para 47,1, um mínimo de 23 meses, contudo a indústria é a que está a ressentir-se mais, com uma queda para 46,6, tendo presente que 50 ou mais representa um cenário de estabilidade e/ou crescimento económico.

O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o ITIC, o grupo de estudantes que integra o Departamento de Research do Iscte Trading & Investment Club.

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