Setor automóvel europeu une-se contra o Brexit sem acordo

São 110 mil milhões de euros até 2025 que estão em causa, num setor que responde por um superavit de 74 mil milhões (só em 2019) e pelo emprego de mais de 14,6 milhões de europeus.

HO/Reuters

Os líderes do setor automóvel e dos componentes automóveis dos dois lados do Canal da Mancha uniram-se na assinatura de uma nota conjunta em que apelam a um acordo urgente “que permita antes do fim do período de transição, dentro de apenas 15 semanas, um ambicioso acordo de comércio livre”.

A nota afirma que “as estimativas mostram o impacto catastrófico das tarifas da Organização Mundial do Comércio em caso de ‘não acordo’, pondo em risco a produção de cerca de três milhões de carros e carrinhas fabricados na União Europeia e no Reino Unido durante os próximos cinco anos”.

O não acordo significaria perdas comerciais combinadas entre a União e o Reino Unido “no valor de até 110 mil milhões de euros até 2025, além dos cerca de 100 mil milhões de euros de valor de produção perdida este ano por causa da crise do coronavírus”.

Para evitar um segundo golpe económico ao sector que emprega 14,6 milhões de pessoas, “a indústria apela aos negociadores para que garantam urgentemente um acordo que proporcione tarifas zero, regras de origem modernas e evite regulamentos diferentes nos dois lados do canal”.

As principais organizações representativas dos fabricantes de veículos e de componentes automóveis na União, a Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) e a Associação Europeia de Fornecedores de Componentes para Automóveis (CLEPA), juntamente com 21 associações nacionais, incluindo a SMMT (Reino Unido), a VDA (Alemanha), o CCFA (França), a PFA (França) e a AFIA (Portugal), “alertam hoje que a indústria pode enfrentar sérias repercussões”.

Sem um acordo em vigor até 31 de dezembro, “ambas as partes seriam obrigadas a manter relações comerciais sob as regras não preferenciais da Organização Mundial do Comércio (OMC), incluindo uma tarifa de 10% sobre os carros e até 22% para carrinhas e camiões. Tais tarifas – muito superiores às reduzidas margens da maioria dos fabricantes – teriam quase de certeza de ser repercutidas aos consumidores, tornando os veículos mais caros, reduzindo a escolha e afetando a procura. Além disso, os fabricantes de componentes para automóveis também serão atingidos pelas tarifas. Isso aumentará o preço de produção ou levará a mais importações de componentes de outros países não pertencentes à UE, que serão mais competitivos”.

Antes da crise do coronavírus, a produção de veículos automóveis da União e do Reino Unido rondava as 18,5 milhões de unidades por ano. Este ano já se perderam cerca de 3,6 milhões de unidades em todo o sector devido à pandemia. “Novas estimativas indicam que, no caso dos carros e carrinhas, uma redução da procura resultante de uma tarifa de 10% da OMC poderia diminuir cerca de três milhões de unidades produzidas nas fábricas da UE e do Reino Unido nos próximos cinco anos, com perdas no valor de 52,8 mil milhões de euros para as fábricas do Reino Unido e 57,7 mil milhões de euros para as fábricas sediadas em toda a União. Os fabricantes de componentes para automóveis também serão afetados por estas alterações”.

Esta dupla perda de negócios prejudicaria seriamente as receitas do sector, responsável por um “superavit comercial combinado de 74 mil milhões de euros com o resto do mundo em 2019. Em conjunto o setor automóvel da UE27 e do Reino Unido são responsáveis por 20% da produção mundial de veículos automóveis e investem cerca de 60,8 mil milhões de euros por ano em inovação, sendo o maior investidor europeu em I&D”.

José Couto, presidente da AFIA, disse, sobre o assunto, que “a indústria automóvel necessita de um acordo que mantenha a competitividade e permita às empresas continuarem a relação comercial com os seus parceiros britânicos. O Reino Unido é o 4º principal cliente dos componentes automóveis fabricados em Portugal”.

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