‘Silly season’

O que devia preocupar os cidadãos, as famílias e as empresas (e o Estado) era que houvesse um plano estratégico para Portugal, com uma mudança da mentalidade das pessoas e do Estado.

Está a iniciar a silly season e todos nós vamos de férias, com o país a arder, real e metaforicamente. A inflação a caminhar paulatinamente para o duplo dígito, a economia a regredir e o fantasma da estagflação à espreita.

O Governo com problemas sérios de coordenação, como se viu no lamentável episódio do novo aeroporto, com problemas sérios de implementação do PRR, com graves problemas na gestão do Serviço Nacional de Saúde e, agora, com problemas de manutenção das esquadras da PSP, antevendo-se já os problemas recorrentes na abertura do ano lectivo.

A oposição da esquerda só se preocupa com os lucros que a guerra e a inflação induzem em alguns sectores, como se tais lucros fossem o anátema da nossa sociedade, esquecendo que a solução passaria por aliviar a carga fiscal a todos os portugueses, aproveitando a brutal almofada financeira com a receita fiscal extraordinária induzida pela inflação.

A oposição da direita continua adormecida com os episódios lamentáveis da total falta de isenção e imparcialidade do putativo presidente da assembleia da república ou da falta de coordenação do actual Governo na questão dos aeroportos do Pedro Nuno Santos.

Tudo questões que não preocupam, ou não deviam preocupar, os cidadãos, as famílias e as empresas!

O que devia preocupar os cidadãos, as famílias e as empresas (e o Estado) era que houvesse um plano estratégico para Portugal, com uma mudança da mentalidade das pessoas e do Estado, em que a criação de riqueza fosse estimulada e reconhecida por todos, que todos quisessem participar na criação de riqueza, empreendendo ou respeitando os que empreendem, por forma a que seja possível distribuir essa riqueza, por via dos impostos, num sistema tributário justo, proporcional, igual, competitivo e transparente.

Menos burocracia para os cidadãos e empresas, menos impostos sobre a criação de riqueza (IRS e IRC), redução do IVA e do ISP, amenizando a perda do rendimento disponível das famílias por força da inflação, maior respeito pelos empresários que arriscam os seus capitais e um quadro legal estável para as relações de trabalho, potenciando a mobilidade profissional e geográfica, deviam fazer parte desse plano e não fazem.

Só se ouvem estratégias politicamente correctas e da moda. Políticas de inclusão ridículas, sempre na crista da onda das políticas contra as alterações climáticas, ressurgimento das políticas fracturantes e minoritárias socialmente, agenda dos activistas, tudo contra os ventos da actualidade e dissociadas das necessidades actuais e prementes das famílias e das empresas.

A política dos sound bites inúteis e dos tweets instantâneos, onde nada se cria e tudo se perde.

Entretanto, no mundo empresarial do Estado, vemos a derrocada anunciada da TAP, onde apenas falta a greve dos pilotos (em marcha…) para dar a machada final no plano estratégico da mesma, a anunciada quebra das negociações sobre a aquisição da EFACEC pelo grupo DST, por força da proibição dos auxílios de estado através de mais uma vergonhosa intervenção do banco “político” do fomento, e tememos o pior com a empresarialização do SNS, através da criação de um CEO (para que servirá a Ministra?), como se a utilização de um anglicismo parolo resolvesse algum problema do SNS…

Temo, sinceramente, que a silly season, ou temporada superficial, numa tradução bondosa, se prolongue indefinidamente…

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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