Sílvio Berlusconi e Donald Trump: farinha do mesmo saco?

O ‘The Guardian’ traça um ‘road map’ do que aproxima os dois políticos. Os pontos de contacto são mais que muitos.

O presidente russo Vladimir Putin não foi o primeiro nem por certo será o último: a comparação entre o ex-primeiro-ministro italiano Sílvio Berlusconi e o 45º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “é óbvia”, disse numa entrevista. O jornal ‘The Guardian’ decidiu esmiuçar a personalidade de ambos numa base comparativa e chegou à mesma conclusão: tiques, manias, atitudes e grosserias quanto bastem, fazem dos dois políticos uma espécie de gémeos separados à nascença e que a vontade democrática – sempre pronta a enveredar pelo populismo – quis elevar à categoria de estadistas.

A tentação do ridículo

A primeira e muito singular semelhança entre as duas personalidades reside na facilidade com que decidem afirmar coisas que sabem serem politicamente incorrectas. Os temas são os mais variados, o calibre dos dislates é normalmente alto – mas tudo isso tem o propósito, diz o ‘The Guardian’ de transmitir uma mensagem quase subliminar: quem afirma o que afirma é porque não faz parte do grupo, fechado e mais ou menos inviolável, dos políticos ‘normais’n, que tudo controlam há décadas.

É nesse quadro que se compreende que as ‘boutades’ racistas, xenófobas, sexistas e por aí fora acabem por ter uma ressonância no eleitorado que as desvia daquilo que foi dito, para transformarem as personalidades que as dizem numa espécie de ‘outsider’ interessado apenas em destruir um ‘establishment’ que todos percepcionam podre.

Em certa medida, Berlusconi e Trump conseguem, neste quadro, ser tão eficazes como os populares ao estilo Tino de Rans, com o benefício do fato, da gravata e da fortuna pessoal a remeter para o lugar das coisas que o povo venera.

“Os opositores de Berlusconi tinham uma avenida muito larga e aberta e não podiam resistir a andar por ela. Isso levou-os a uma série de derrotas. Quando ele disse que o Ocidente é superior, os seus opositores chamaram-lhe branco imperialista, mas a realidade é que uma grande parte dos eleitores italianos lhe deu razão”, disse Giovanni Orsina, autor de um livro sobre o ex-primeiro-ministro, citado pelo ‘The Guardian’. “A melhor forma de oposição a Berlusconi teria sido tentar entender o que seus eleitores querem; a esquerda nunca foi realmente bem sucedida nisso”, disse Orsina.

Liberdade de imprensa

Para o ‘The Guardian’, os dois políticos convergem também na reserva com que observam a liberdade de imprensa – que usam bastamente, mas de que se queixam como se houvesse um conluio persecutório. Trump chegou mesmo a afirmar em campanha que “se eu ganhar, o ‘New York Times’, a CNN e o ‘Washington Post’ vão ter problemas”.

A ascensão de Berlusconi em Itália esteve inexoravelmente ligada ao facto de o político ser um dos agentes dos ‘media’ italianos.”Muitos jornalistas foram cúmplices mesmo sem serem controlados, por exemplo, aceitando condições para entrevistas”, disse Jacopo Iacoboni, jornalista político no jornal ‘La Stampa’, também citado pelo ’The Guardian’.

Sexismo: ninguém leva verdadeiramente a mal

O historial de Berlusconi com as mulheres durante o tempo em que foi primeiro-ministro daria com toda a certeza para a produção de uma série televisiva para maiores de 18 anos. Trump é mais recatado – apesar da sucessão de casamentos e da imagem sexista da nova primeira dama – mas as suas afirmações sobre a matéria esbarram inevitavelmente na parede dos grupos defensores da igualdade de género.

Nada disso é particularmente penalizador em relação ao eleitorado: afinal, as ‘boutades’ sobre mulheres e sobre sexo tornam Berlusconi e Trump numa boa companhia para uma saída nocturna: não há homem que resista a, ao menos interiormente, rir-se do que os dois homens dizem sobre a matéria.

O ‘The Guardian’ recorda, por outro lado, que Berlusconi nomeou uma ex-modelo e apresentadora para servir como ministra Para a Igualdade de Oportunidades. A obsessão de Trump com a aparência feminina é igual.

Emma Bonino, ex-ministra dos Negócios Estrangeiros e feminista, citada pelo jornal, disse que “a atitude de Berlusconi provocou uma espécie de revolta de mulheres e grupos de mulheres, que ficaram em silêncio e ausentes durante anos, mesmo em questões importantes para as mulheres”.

Ligações com a Igreja

Berlusconi conseguiu um acordo tácito com a Igreja Católica Romana que o ajudou a manter o poder, recorda o ‘The Guardian’. Os bispos italianos assobiavam para o lado quando Berlusconi pisava o risco do comportamento cristão, desde que o primeiro-ministro os ajudasse na agenda legislativa, incluindo o bloqueio de uniões entre pessoas do mesmo sexo e a limitação dos tratamentos de fertilidade, entre vários outros dossiers.

De modo semelhante, Trump, que se casou três vezes e nunca falou de forma convincente sobre questões de fé religiosa, conquistou o apoio de quatro dos cinco grupos evangélicos brancos, convencidos que Trump elegerá juízes conservadores anti-aborto para o Supremo.

As semelhanças entre os dois políticos não ficam por aqui. O ‘The Guardian’ elenca algumas mais: a propensão para usarem os lugares políticos para resolverem problemas particulares (ou de negócios); a utilização dos imigrantes como bodes expiatórios para o declínio social; o espalhar de amigos por todos os cantos do poder – transformando a máquina do Estado num polvo de clientelismo; e a tentativa de perpetuar as suas decisões para além do tempo das suas presenças no poder, são apenas algumas das semelhanças entre os dois políticos.

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