Siza Vieira ao JE: Programa Apoiar já aprovou apoios no valor de 356 milhões de euros, dos quais 27% estão pagos

Numa entrevista que será publicada amanhã, na edição semanal do Jornal Económico, o número dois do Governo responde a questões sobre a retoma económica, os apoios do Estado aos sectores mais afetados pela pandemia, os planos para recapitalizar as empresas após o fim das moratórias bancárias, a TAP, a litigância em torno do 5G, a estabilidade do setor financeiro e a estratégia de reindustrialização europeia, que será uma das prioridades da presidência portuguesa.

Cristina Bernardo

Numa entrevista que poderá ser lida amanhã, na edição semanal do Jornal Económico, o ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, faz um balanço dos apoios às empresas desde o início da pandemia, incluindo o novo programa Apoiar. Segundo Siza Vieira, à data de hoje, o novo programa, anunciado há três semanas, aprovou apoios às empresas no valor de 356 milhões de euros, dos quais 97,7 milhões (27%), já foram pagos.

“Esse programa já começou a fazer pagamentos. Já aprovámos 38.159 candidaturas com um valor de incentivos de mais de 356 milhões de euros e já fizemos pagamentos de 97,7 milhões de euros, que correspondem à primeira fase. Os apoios do programa Apoiar já estão a chegar à economia e vão continuar até janeiro, fevereiro”, afirmou Pedro Siza Vieira, na entrevista que será publicada esta sexta-feira, 18 de dezembro, estando disponível nas bancas de todo o país e, para os nossos assinantes digitais, no JE Leitor.

Na entrevista, Siza Vieira aborda temas como a retoma económica, os planos para recapitalizar as empresas após o fim das moratórias bancárias, o investimento do Estado na TAP e o papel do Banco de Fomento, entre outros.

Um dos aspetos abordados foi a reindustralização da Europa, que será uma das prioridades económicas da presidência portuguesa da União Europeia. Siza Vieira considera que a Europa percebeu que “a sua liderança tecnológica tradicional já está posta em causa” e que “não dispõe de matérias-primas e de componentes críticos para o seu funcionamento”. Sem o investimento em tecnologias de futuro, a Europa não conseguirá liderar no setor industrial, defende o ministro, realçando a necessidade de assegurar a autonomia estratégica da Europa, a qual passará também, pela aposta em novas fontes de energia, como o hidrogénio.s.

Siza Vieira sinaliza que a estratégia industrial europeia que visa criar as condições para a Europa recuperar um maior peso na  é um dos temas que vai marcar a próxima presidência portuguesa do Conselho da União Europeia primeiro semestre de 2021, sucedendo à Alemanha.

Sobre a estratégia industrial europeia, o governante defende que aquilo que a Europa percebeu nos últimos anos, e sobretudo durante esta pandemia, foi que “viveu muitas décadas com uma liderança tecnológica e uma liderança industrial num conjunto de produtos e tecnologias que já vinham de trás e o que fez, diz, “foi delegar” nos países asiáticos a produção de bens de consumo mais baixo, exportando produtos de tecnologia avançada e focando-se também muito nos serviços. Uma estratégia, acrescenta, que também “nos permitia ter um nível de vida bom”.

Pedro Siza Vieira deixa, no entanto, o alerta: “agora a Europa percebeu foi que a sua liderança tecnológica tradicional já está posta em causa”. Explica aqui que os chineses já são os maiores produtores de automóveis e dominam a tecnologia da mobilidade elétrica que, frisa, “vai ser a mobilidade do futuro e que as tecnologias indispensáveis no futuro à volta do digital estão dominadas pelos Estados Unidos e pela China”.

O ministro da Economia dá ainda conta de que a Europa não dispõe de matérias-primas e de componentes críticos para o seu funcionamento. “Se temos maior incerteza geopolítica, se os Estados Unidos não nos asseguram a proteção que beneficiámos durante vários anos percebe-se como a posição da Europa é relativamente frágil”, defende, acrescentando que quando se fala de autonomia estratégica e de resiliência “fala-se precisamente de criar condições para que todos os cidadãos da Europa não vejam o seu modo de vida posto em causa porque de repente alguém corta o fornecimento de uma matéria-prima crítica”.

“Estamos ao mesmo tempo a querer manter como uma voz a favor de uma economia global aberta, assente em regras e organizações multilaterais, mas ao mesmo tempo fazemos o nosso trabalho de casa para reforçarmos a nossa autonomia estratégica”, realça Siza Vieira.

Sobre a autonomia estratégica destaca a valorização dos produtos made in Europe, a defesa do mercado interno relativamente à entrada de produtos que não respeitam as  regras europeias nos seus processos de fabrico. “Isso é uma área muito significativa, como também a criação e o investimento em tecnologias de futuro sem as quais a Europa não conseguirá liderar no setor industrial”, referindo-se aqui “a algumas tecnologias digitais”.

O governante afirma que os Estados Unidos e mesmo a China lideraram claramente a internet das pessoas e os próximos anos vão ser da internet das coisas e da internet aplicada à indústria e aplicada aos transportes e a um conjunto de serviços muito complexos. “Aí é preciso desenvolver tecnologias e aplicar computação avançada, inteligência artificial, tecnologias da cloud às questões específicas da indústria e da atividade económica. E a Europa quer fazer investimentos muito significativos aí”, explica.

Questionado sobre soluções como os smart contracts (com tecnologia blockchain), que permitiriam, por exemplo, que a aplicação de fundos europeus fosse imediata, dispensando intermediários financeiros, Pedro Siza Vieira revela que entre as várias tecnologias digitais que se quer apoiar e incentivar estão também as tecnologias blockchain e a sua aplicação a um conjunto de setores muito significativos.

“A conjugação disso, a computação avançada, inteligência artificial, etc é aquilo que permitirá que tenhamos uma indústria mais eficiente, mais produtiva, menor consumidora de recursos e também nos serviços, na logística, nos transportes, todas essas tecnologias vão trazer transformações exponenciais”, conclui.

Reforço da autonomia estratégica e o papel do hidrogénio

O ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital defende ainda que o reforço da autonomia estratégica “passa por projetos como o hidrogénio”. E rejeita as críticas em Portugal a essa opção.

“Não consigo acompanhar muito bem essas perspetivas. Aquilo que se falou no início sobre o hidrogénio verde foi muito à volta da ideia de um grande projeto que seria até mais virado para a parte elétrica. Julgo que hoje em dia as pessoas já percebem que o tema do hidrogénio não é nacional, é um tema global e que tem a ver com várias aplicações que não apenas ser uma componente e armazenamento de eletricidade”, afirma.

Siza Vieira explica que aquilo que é mais importante é o hidrogénio como matéria-prima nos processos industriais, recordando que o maior projeto que está pensado em Portugal é o de Estarreja, “de utilizar gases renováveis para integrar nos processos da indústria química”.

O governante realça que “é isso que leva os países do norte da Europa a estarem muito interessados no hidrogénio verde e outros gases renováveis verdes. Ao misturar-se com o gás natural também ajuda a reduzir a intensidade carbónica do gás natural que consumimos. Portanto, existe um grande interesse”.

Sobre os aspetos críticos para produzir hidrogénio verde, Siza Vieira sinaliza o custo da energia elétrica. “A França tem energia nuclear, que é barata e quer dominar a energia do hidrogénio verde, aproveitando ter energia barata. Países do sul da Europa, como Portugal e Espanha têm energia barata também, que é a solar. Julgo que há uma oportunidade para a Europa, se desenvolver as tecnologias necessárias para a produção de gases renováveis e com isso sermos capazes de não apenas conquistar a nossa auto suficiência energética, mas também sermos capazes de termos a tecnologia necessária para sermos capazes de fazer isso sem termos que estar a comprar a outros países do mundo”, conclui.

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