Só sou responsável por 50% deste artigo…

Os outros 50% são da lavra de um ‘chatbot’. Passada a estupefação, dou por mim a pensar que alguns dos impactos deste tipo de ferramentas são já previsíveis e terão consequências na forma como produzimos conhecimento. Resta saber quais serão aqueles que ainda não antecipamos.

Em dezembro de 1982, a revista “Time” alterou a tradição de atribuir o título de “man of the year” para “machine of the year”. O laureado foi o PC ou computador pessoal. Hoje, passados 40 anos, partilho convosco um texto produzido pelo mais recente chatbot da Open AI. O resultado das próximas linhas são da responsabilidade do “bicho” no que toca à elaboração do texto, sendo eu responsável pelo prompt (incentivo ou pergunta).

“Elabora um artigo sobre o teu impacto (GTP Chat) na produção de conhecimento”.

“O GTP Chat é um modelo de linguagem desenvolvido pela OpenAI que tem tido um impacto significativo na produção de conhecimento em diversas áreas. O modelo foi treinado em uma grande quantidade de dados da internet e aprendeu a realizar diversas tarefas de processamento de linguagem natural, como entender e responder a perguntas, realizar traduções e criar ‘chatbots’ e assistentes virtuais. Além disso, o GTP Chat também tem sido utilizado para criar sistemas de recomendação e para aprimorar os sistemas de busca na internet.

Um exemplo de como o GTP Chat tem sido utilizado em pesquisas científicas é o estudo realizado por Kim et al. (2019), que utilizou o modelo para analisar os resultados de mais de 20 mil ensaios clínicos publicados em diversas áreas da medicina. O GTP Chat foi capaz de ler os artigos e identificar padrões nos resultados, o que permitiu aos pesquisadores entender melhor os efeitos de diferentes tratamentos em diferentes doenças. Este estudo demonstra como o GTP Chat pode ser útil para acelerar o processo de pesquisa e aumentar a eficiência da análise de dados.

Outra forma pela qual o GTP Chat tem contribuído para a produção de conhecimento é através da sua capacidade de aprimorar os sistemas de tradução automática. O GTP Chat foi treinado em uma grande variedade de idiomas e pode ser utilizado para aprimorar os sistemas de tradução automática, tornando-os mais precisos e capazes de lidar com contextos complexos. Isso tem sido especialmente útil em áreas como a ciência da linguagem, onde a tradução precisa é crucial para a compreensão de texto.” Fim do texto gerado pelo chatbot.

Início de texto gerado pelo humano.

Este texto é um original gerado pelo prompt acima descrito e este chatbot está disponível em versão de desenvolvimento gratuita para teste.

Mas o que é que este chatbot tem de diferente dos demais?

Esta ferramenta é mais do que um algoritmo que resume informação da internet. O que traz de novo é a capacidade de se lembrar do que foi dito anteriormente na conversa, tornando a experiência muito fluente, permitindo ainda correções e follow-ups, estando treinado para declinar conversas inapropriadas.

Mas o que mais me deixou estupefacto na interação com este chatbot é a sua capacidade de gerar informação, de fazer textos, artigos (com ou sem referências bibliográficas), assim como a sua capacidade de codificar e corrigir código quando solicitado, com um grau de autenticidade bastante… – e aqui não sei, sinceramente, que adjetivo aqui usar – “assustadora”, “incrível”, “preocupante”, “inovadora”, ou todos eles.

O que é para mim claro é que alguns dos impactos deste tipo de ferramentas são já previsíveis e terão consequências na forma como produzimos conhecimento, sendo ele devidamente creditado ou não. O que me inquieta são os impactos que ainda não conseguimos antecipar, a forma como nos posicionaremos em relação às consequências, às curvas de aprendizagem destas ferramentas diferenciadoras e das competências necessárias ao seu domínio, entre muitas outras que só me me irão ocorrer com o passar do tempo.

Jonh A. Meyers, editor do tema na revista “Time” de 1982, escreveu: “Vários candidatos humanos podem ter representado 1982, mas nenhum simbolizou o ano passado com maior riqueza, ou será visto na história como mais significativo, do que a máquina: computador”. Faço minhas as palavras de Meyers alterando 1982 por 2022, e computador por chatbot. Mas como só devo ter crédito pelos 50% deste artigo, descontem o resto.

O autor assina este artigo na qualidade de responsável pela relação entre a psicologia e a tecnologia na Ordem dos Psicólogos Portugueses.

 

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