Sobrevivência a quanto obrigas

Quando parecia que a pandemia poderia tirar alguma força e projeção aos partidos portugueses dos extremos, António Costa inverte as probabilidades e aposta na parceria solitária com os Comunistas.

Vivemos tempos extraordinários no meio de uma pandemia causada pelo covid-19 e no tabuleiro dos jogos de sobrevivência política assistimos a manobras só possíveis em democracias pouco estruturadas e imaturas.

O Governo escolheu um caminho arriscado, e a negociação e cedências para a aprovação do Orçamento do Estado de 2021 (OE2021) são a prova disso mesmo.

António Costa tem conseguido um conjunto de condições que lhe asseguraram a governabilidade. Mas, com o divórcio do Bloco de Esquerda, é preocupante ver Costa colocar a governabilidade do país nas mãos do Partido Comunista Português (PCP), revelando uma miopia que apenas vê a sua sobrevivência.

Em plena crise de saúde pública o PCP rasgava as vestes e exigia, como moeda de troca para acordos futuros, fazer a festa do Avante. António Costa cedeu, trocando os sacrifícios de milhões de portugueses pelo novo “amor” comunista.

Mas pior que esta cedência sazonal foi a última em que, com condições ainda mais restritas no país, António Costa permitiu que se realizasse o Congresso do PCP dando um sinal errado à sociedade portuguesa.

O primeiro-ministro parece validar a condição do PCP, dando quase a entender que é um partido defensor da verdadeira Democracia. Como diz João Vieira Pereira, “é uma vergonha tolerarmos estes pequenos delitos ao PCP como se fossem normais quando são a prova de como os comunistas revelam a sua natureza nos pormenores”.

António Costa escolheu para “compagnon de marche” Jerónimo de Sousa. O mesmo Jerónimo que fez aprovar um voto de pesar pela morte de Fidel Castro em 2016 e no texto proposto referia que era “uma referência incontornável que consagrou a sua vida aos ideais do progresso social e da paz”… pasme-se.

O mesmo Jerónimo e o seu PCP que veneraram Hugo Chávez, ex-Presidente da Venezuela e um dos mais duros ditadores da América do Sul, quando este visitou Portugal em 2008. O mesmo Jerónimo e o seu PCP que rejeitaram, no parlamento, um voto de pesar a três das maiores referências do progresso nacional como Américo Amorim, Belmiro de Azevedo e Alexandre Soares dos Santos.

Por pura estratégia política assistimos à tentativa de branqueamento dos que veneram os maiores ditadores da história e defendem as piores ditaduras, considerando isso um sinal de maturidade intelectual.

Numa altura de pandemia em que os portugueses vivem momentos muito difíceis, somos confrontados, para além da irresponsabilidade da praxis política, com a dura realidade dos números.

A dívida pública bateu um novo recorde subindo para 268,146 mil milhões de euros, (dados do Banco de Portugal), o que indica que quando os juros da dívida subirem, invertendo a atual política do BCE, a pressão das contas públicas sobre a economia será insustentável.

Também a OCDE veio prever para Portugal um cenário pior do que para a zona euro, com uma quebra do PIB em 2020 de 8,4%, com uma recuperação de apenas 1,7% em 2021 e de apenas 1,9% em 2022, divergindo dos principais países europeus. Aliás na União Europeia, em pior situação que Portugal só temos a Grécia e a Croácia o que é revelador do sucesso da governação dos últimos anos.

Quando deveríamos estar a desenvolver um plano de recuperação eficaz para a economia, combatendo os efeitos nefastos da pandemia no curto prazo e por outro lado, preparando-nos para os desafios e problemas estruturais do médio e longo prazo, está este Governo preocupado apenas com a sua sobrevivência.

O Governo deveria ter no OE2021 uma ferramenta para colocar Portugal no caminho de recuperação de uma economia que atravessa momentos muito difíceis, mas o que temos é a cedência que reflete uma opção estratégica errada, que terá consequências negativas no futuro.

A maioria dos portugueses estarão preocupados ao ver no arco da governação um parceiro como o PCP que tem hoje enorme ascendente sobre o governo. Um parceiro que rejeita a iniciativa privada, que defende a nacionalização da economia, que é antieuropeísta, que rejeita a meritocracia, que desvaloriza o empreendedorismo e que abomina o livre mercado.

Pela sobrevivência política sujeita-se a ação governativa às imposições de um parceiro que defende que Portugal, por via dos fantásticos exemplos comunistas, deveria ser um paraíso como a Rússia, com ordenados como os de Cuba, com a liberdade da Coreia do Norte, a fartura da Venezuela e com a Justiça da China.

Quando parecia que a pandemia poderia tirar alguma força e projeção aos partidos portugueses dos extremos e quando se previa que as soluções e entendimentos possíveis de estabilidade governativa estariam mais ao centro, António Costa inverte as probabilidades e aposta na parceria solitária com os Comunistas.

É cada vez mais claro que depois de gastos os recursos da bazuca europeia o preço a pagar por esta inversão será caríssimo e com as surpresas que esta crise ainda nos vai trazer, os efeitos futuros serão dramáticos.

Num tempo de protagonistas que dizem e fazem o que for preciso para sobreviver até já ouvimos a candidata à Presidência da República do Bloco de Esquerda dizer que é social-democrata. Só nos falta mesmo ouvir Jerónimo de Sousa renegar o comunismo e abraçar o socialismo democrático de António Costa, caso isso lhe traga mais uns anos de sobrevivência política.

Dizia o Economista John Galbraith que “nada é tão admirável em política quanto uma memória curta”, e hoje, mais do que nunca, convém avivar as memórias da generalidade dos portugueses que vivem no mundo real onde não vale tudo, longe da utopia Socialista e Comunista que está a surgir neste desconcertante “novo normal”.

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