Socióloga contra decisão do diretor da FLUL: “chamar a polícia, numa universidade, é a última coisa que se pode fazer”

Luísa Schmidt critica a opção do diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa por ter solicitado a intervenção da PSP que deteve quatro ativistas que participavam numa ação de ocupação da Faculdade em luta pelo clima.

Os impactos das alterações climáticas não escolhem idades, mas a luta pelo clima tem sido recentemente protagonizada por jovens, de uma geração esperançosa que se sente a “explodir no desespero”, considerou a socióloga Luísa Schmidt.

Em 2018, uma jovem sueca de 15 anos começou a faltar às aulas para protestar pelo clima, junto ao parlamento do seu país. Greta Thunberg foi, sem saber, a impulsionadora do movimento ‘Fridays for Future’ e o rosto de milhares de jovens que, em todo o mundo, assumiram o protagonismo no ativismo climático.

“Isto devia ser uma luta de várias gerações”, sublinhou a socióloga e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Luísa Schmidt, em entrevista à agência Lusa, acrescentando que “é uma luta que veio para ficar e para ser feita já”.

Mas, apesar de ser uma luta intergeracional, tem mobilizado sobretudo os mais novos que, depois de pandemia da Covid-19 ter obrigado a interromper as manifestações e as greves climáticas estudantis, regressaram agora com “uma nova receita”.

Ações de protesto em museus com o alvo em quadros de renome (protestos que ainda só aconteceram fora de Portugal), a ocupação de espaços, como na semana passada em seis escolas e universidades em Lisboa, ou ativistas colados a edifícios públicos, de grandes grupos empresariais ou instituições de ensino são alguns exemplos recentes.

“Têm tomado ações para chamar a atenção”, referiu a especialista em sociologia do ambiente, que desvaloriza as críticas apontadas, em particular, aos protestos em museus, sublinhando nenhuma obra ficou danificada, e considerando que se essas formas de protesto são incomodativas, é mesmo porque devem “incomodar, para chamar a atenção”, à semelhança da tradição dos movimentos ambientalistas, de que são exemplo os primeiros anos da ação da Greenpeace.

E porquê os jovens? “Porque são eles que mais sentem, neste momento, que não vão ter as mesmas condições que a geração anterior e que podem vir a ter problemas gravíssimos em termos dos impactos das alterações climáticas”, explicou Luísa Schmidt.

Admitindo que, não só simpatiza, como apoia o ativismo que os jovens têm vindo a protagonizar, a socióloga afirmou que esta “é uma geração que está a fazer uma coisa esperançosa, estando ao mesmo tempo a explodir no desespero”.

“Isto é um problema colossal que nós temos de enfrentar e que muitas vezes tem sido adiado pelos decisores políticos, porque implica uma mudança a vários níveis. Esse problema está a trabalhar na cabeça de gente muito nova, que acabaram de chegar e veem que não têm lugar”, acrescentou.

Por isso, Luísa Schmidt disse também que os jovens têm desculpa para alguns “disparates” que possam cometer no seu ativismo e que isso não lhes tira valor, bem como o facto de não saberem tudo sobre as alterações climáticas, nem terem na ponta da língua todas as soluções. “Eles não dizem que sabem e são altamente abertos aos cientistas, é isso que é interessante”, afirmou a socióloga.

Há também um papel que deve ser assumido pelas escolas e pelas universidades, para corresponder às preocupações dos estudantes e à sua disponibilidade de ouvir, referiu a investigadora, dando como um bom exemplo a forma como o diretor do Liceu Camões lidou com a ocupação da escola, que se prolongou durante toda a semana passada, assumindo o compromisso de colocar o tema das alterações climáticas e do combate aos combustíveis fósseis no centro do debate.

No sentido oposto, critica a opção do diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, outra das instituições que aderiu ao movimento “Fim ao Fóssil: Ocupa!”, por ter solicitado a intervenção da PSP que, na noite de sexta-feira passada, deteve quatro ativistas que participavam na ocupação desde o início da semana.

“Chamar a polícia, numa universidade, é a última coisa que se pode fazer. As faculdades são sítios de experimentação, são sítios para o diálogo entre professores e estudantes, onde temos que estar na linha da frente com os estudantes”, defendeu, acrescentando que esse diálogo entre as gerações mais velhas e mais novas deve alargar-se a todos os setores da sociedade.

E quanto a críticas negativas que, nas últimas semanas, se repetiram em redes sociais e em espaços de comentário, disse apenas: “Claro que podem não gostar de algumas ações, mas tomem atenção a este problema, que é muito mais grave do que aquilo que os jovens estão a fazer para chamar a atenção para isso”.

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