“A Sombra da Rota da Seda”: leitura obrigatória para viajantes compulsivos e de sofá

A sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

Marta Teives

Colin Thubron é um apaixonado pela Ásia, um continente que, segundo ele, “simultaneamente convida e rejeita um conhecimento mais profundo”. Esta sua paixão levou-o a aprender russo e um pouco de mandarim, o que lhe permite relacionar-se com os habitantes locais de uma forma que está vedada ao viajante comum, assim como conhecer muito melhor os lugares por onde passa.

Thubron nasceu em 1939 e há quase 50 anos que escreve relatos de viagens – entre eles, “Sibéria” e “A Sombra da Rota da Seda”, considerados verdadeiros clássicos do género –, para além de colaborar com jornais e revistas, como The Times, The New York Review of Books, The Times Literary Supplement e The New York Times.

Em “A Sombra da Rota da Seda”, escrito em 2006, Thubron descreve uma viagem em que percorreu o trilho da primeira grande rota comercial, um caminho que foi calcorreado por caravanas e homens a cavalo ou a pé ao longo de séculos e que, ainda hoje, contribui para o nosso imaginário ligado à Ásia Central e às grandes viagens.

Mesmo quem não leu Marco Polo na infância não deixa de sentir algum grau de fascínio por uma região do mundo que atravessa diversos países considerados ainda um pouco misteriosos ou exóticos. Nomes como Samarcanda ou Bucara, duas cidades quase míticas hoje situadas no Uzbequistão, fazem sonhar qualquer amante de viagens, mesmo que seja apenas um viajante de sofá.

Colin Thubron inicia o seu longo percurso – mais de 4500 quilómetros – na cidade chinesa de Xian, outrora conhecida como Changan, ou “Paz Eterna”, e onde se situa o célebre exército de guerreiros de terracota, terminando cerca de oito meses depois à beira do rio Orontes, em Antioquia (que os turcos viriam a denominar Antáquia quando, em 1938, tomaram a cidade à Síria e em cujas ruas ainda hoje se ouve falar árabe); do outro lado da fronteira, está Alepo.

 

thubron

 

Pelo caminho, e recorrendo aos mais diversos meios de transporte – autocarro, carroça puxada por burros, comboio, jipes ou camelos –, vai narrando peripécias e deixando alguma informação histórica, como a possível origem de uma etnia chinesa caracterizada pelos cabelos loiros e olhos azuis; a morte do frade jesuíta português Bento de Góis, o primeiro europeu a percorrer o caminho terrestre entre a Índia e a China através da Ásia Central, e que demonstrou que o Reino de Cataio e o da China eram afinal o mesmo; o uso da seda como moeda de troca para aplacar as populações nómadas para lá (para nós, para cá) da Muralha da China; ultrapassando, por vezes com dificuldade, tiques burocráticos herdados da extinta União Soviética; alojando-se em caravançarais quiruizes ou em desolados hotéis afegãos, como em Herat, numa região a que Heródoto chamava “o cesto de pão da Ásia”; comendo em restaurantes com vista para dunas e desertos ou em cidades onde se sentem saudades do Xá da Pérsia, como em Tabriz, no norte do Irão.

Há que fazer um aviso sério aos leitores: se a mera evocação da Rota de Seda já deixa muitas pessoas em ebulição, a leitura deste livro pode provocar uma vontade súbita e inadiável de passar do sonho ao acto.

“A Sombra da Rota da Seda” tem edição portuguesa da Bertrand.

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