O ‘sound bite’ que é a corrupção

Talvez andemos a confundir clientelismo e falta de transparência com corrupção; aqui a definição jurídica da última não ajuda e tem vindo a ser muito criticada.

Com as últimas notícias vindas dos EUA relativamente à vitória de Trump, o tema da corrupção tem reconquistado espaço mediático. Nesse caso, e na minha opinião, apresenta um cariz marcadamente demagógico mas o assunto, não é, por si só, despiciendo – muito pelo contrário.

Dados publicados pela Transparency Internacional em Portugal (Transparência e Integridade, Associação Cívica – TIAC), dão-nos informação mais interessante no que diz respeito a este tópico. O estudo, metodologia e resultados estão disponíveis online e atestam, para o caso português, resultados de interesse particular. Cerca de 51% da população manifesta preocupação com a corrupção enquanto fenómeno, sendo o Parlamento, as autarquias e as empresas os palcos mais preocupantes para os cidadãos.

A corrupção ganha grande relevo, já que esta prioridade vem imediatamente a seguir ao estado da economia e do emprego, sendo seguida pela saúde. Os resultados são importantes e devem ser lidos e interpretados por todos. Falta-me espaço para uma análise profunda, mas gostaria de deixar alguns pontos a considerar e que nem sempre, com a rapidez das notícias e a falta de debate público, são escapelados. Não pretendo esgotar a temática, mas não será má ideia ter em conta os grandes problemas que uma leitura demasiado fácil destes assuntos pode gerar.

Primeiramente, analisar a corrupção científica e sistematicamente é uma empresa muito difícil, tal como é árduo analisar grupos de pressão e poderes de influência. Os dados são sempre duais, opacos e complexos de operacionalizar. Talvez por isso, o trabalho do cientista social seja aqui tão inglório: é mais fácil analisar resultados eleitorais.

Questionamos a população sobre a corrupção, mas é natural que as pessoas sintam que a resposta correcta seja a sua total repulsa por essa realidade. Todavia, esta resposta não quer dizer que, numa situação em que um dos respondentes se visse envolvido na possibilidade de aceitar um favorzinho para ter uma consulta mais rapidamente do que o seu vizinho e pagasse por isso, o não fizesse. No estudo, apenas 2% dos inquiridos responderam ter pago um suborno no último ano.

Do ponto de vista do bem da sociedade, está provado que a corrupção afecta negativamente a economia de um país como, por exemplo, a fuga aos impostos. Mas depois, e do ponto de vista individual, cada cidadão pode estar mais preocupado com o seu bem-estar do que com o país a que pertence, esse todo indefinido e pouco palpável.

A percepção dos portugueses sobre os políticos e as instituições do Estado é muito negativa desde há anos. Assim, a crença (justificada ou não) num país com elevados níveis de corrupção acaba por ser a causa ou o resultado deste (des)contentamento. Salvo as explicações culturais que eu não consigo provar, e logo não atesto, esta imprecisão é, por si só, difícil de circunver.

Há uns anos atrás, em conjunto com um colega e num estudo sobre Portugal demonstrámos que em municípios onde existem mais casos de corrupção existe uma maior mobilização política e uma maior participação eleitoral. Mas então, se toda a gente sabe que a corrupção é danosa para o Estado, porque é que a mesma continua a existir? E não contribuirão para esta desconfiança generalizada, além dos factos, os meios de comunicação social sensacionalistas, que atestam como corruptos os que são e os que não são?

A verdade parece estar algures no meio: entre a população que acredita existirem elevados níveis de corrupção e os números parcos de casos provados. Talvez andemos a confundir clientelismo e falta de transparência com corrupção; aqui a definição jurídica da última não ajuda e tem vindo a ser muito criticada.

Para mim é ainda muito preocupante a ideia bipolar em que “todos os políticos são corruptos” e que “quando a corrupção nos favorece não é assim tão má”.

A autora escreve segundo a antiga ortografia.

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