Stratio: “A nossa ambição é estar em todas as frotas do mundo”

“Tipicamente, as empresas que testam a nossa plataforma celebram contratos de longa duração por sentirem que o benefício da tecnologia traz valor acrescentado para as suas operações”, dizem Ricardo Margalho e Rui Sales, presidente-executivo e presidente, da Stratio que levantou no início do mês um investimento de doze milhões de euros.

No início do mês, a Stratio encaixou doze milhões de euros após uma ronda de investimentos da Série A. A plataforma de manutenção preditiva de frotas em tempo real utilizada por diversas empresas nacionais e estrangeiras vai permitir a contratação de 60 novos colaboradores, acelerar o processo de expansão e aumentar a capacidade de investigação e desenvolvimento (I&D).

Em entrevista ao Jornal Económico, os cofundadores da Stratio, Ricardo Margalho e Rui Sales, presidente-executivo e presidente, respetivamente, perspetivam o futuro, o avanço da tecnologia num mercado que ficou parado no tempo e como a tecnologia desenvolvida pela empresa portuguesa diminui os custos das que contratam o seu serviço.

Receberam um investimento de 12 milhões de uma ronda da Série A. De que forma é que este investimento impulsiona a avaliação da vossa empresa?
A avaliação da empresa é confidencial por motivos que se prendem com a natureza dos acordos assinados com os investidores. Podemos avançar que é uma avaliação em linha com o que tínhamos em mente e com base nos objetivos estabelecidos pré-ronda.

Europa, América do Norte, América Latina e Ásia são as regiões onde já têm presença. O intuito é avançar para mais regiões ou fortalecer onde já existem?
A Europa é atualmente o mercado mais maduro para a Stratio, mas existe ainda uma grande margem para crescimento. Paralelamente, estamos presentes na América do Norte, América Latina e Ásia, onde estamos numa fase inicial, com projetos lançados com os primeiros clientes. A estratégia passa por acelerar a nossa atividade nestes mercados onde já temos atividade, mas onde é apenas a ponta do iceberg.

A nossa rápida expansão para várias geografias aconteceu porque muitos dos nossos clientes são grandes empresas com operações globais. Na prática, temos estado a expandir operações em conjunto com os nossos clientes, que depois de testarem a nossa solução e verem o retorno de investimento conseguido, acabam por decidir implementar a tecnologia transversalmente nas suas frotas e operações espalhadas pelo mundo.

A vossa tecnologia está implementada em cinco das dez maiores empresas de transportes. Pensam que esta nova ronda possa ser um novo impulso para chegar às restantes?
Os nossos grandes clientes têm operações em países que vão desde a Austrália e Qatar, passando pelos EUA e Brasil. A Keolis por exemplo opera cerca 21 mil veículos em 13 países e fatura mais de seis mil milhões de euros ao ano, contando com cerca de 70 mil trabalhadores. Já o ComfortDelGro Group opera mais de 40 mil veículos em vários países, incluindo frotas na China e estando presentes em mercados importantes e muito desenvolvidos no sector como Singapura e Malásia. A Arriva, RATP Dev ou a Go-Ahead são igualmente líderes em mercados como o Reino Unido, França ou os EUA, onde contam com grandes operações.

Estamos em negociações ativas com várias outras grandes empresas neste sector. O mercado já reconhece o valor da nossa tecnologia, e em muitos casos já a testaram e viram o valor acrescentado e o retorno sobre o investimento médio de 70 vezes que a solução oferece. Acreditamos que rapidamente chegaremos a muitos novos clientes não só pela aceleração das nossas vendas e entrada em novos mercados, mas também por já sermos uma referência de mercado. Isto é: muitos novos clientes chegam até à Stratio por terem tido contacto com outras empresas que já utilizam a nossa solução.

Na vossa opinião, as empresas de transporte de mercadorias e de passageiros perdem por não ter a vossa tecnologia?
Trata-se de utilizar uma tecnologia que garante maior sustentabilidade das operações, zero avarias, e capacidade de antecipar problemas com os veículos. O chamado downtime é o maior problema que a indústria dos transportes enfrenta atualmente. As empresas perdem receita, têm clientes descontentes e impactam a vida das pessoas de múltiplas maneiras. Atrasos nos transportes, falha na entrega de encomendas ou de bens de primeira necessidade são apenas alguns exemplos.

Toda a cadeia de valor é impactada com avarias desnecessárias que podem ser previstas e solucionadas de forma a salvaguardar o  funcionamento perfeito de todo o ecossistema. Se tivermos em conta que esta é uma indústria cada vez mais competitiva, então a nossa tecnologia ganha uma dimensão muito importante do ponto de vista operacional e financeiro.

A longo prazo, e à medida que investimos ainda mais na nossa tecnologia, maior retorno os operadores de frotas conseguem ter. O resultado é a redução do custo do transporte para o utilizador final, o que permite uma democratização no acesso ao transporte público e ao custo do transporte de bens.

De que forma é que a vossa tecnologia melhora a qualidade e diminui os custos para as empresas?
A nossa tecnologia tem já um enorme impacto no dia a dia de empresas que gerem operações com milhares de autocarros e camiões. A  combinação de Internet of Things (IoT) e Inteligência Artificial (IA) em tempo real resulta na produção de informação que ajuda os  utilizadores da plataforma a tomar as melhores decisões possíveis no que respeita à manutenção dos veículos.

Existem milhares de pessoas cujas vidas acabam por não ser afetadas de cada vez que uma avaria é detetada e evitada pela nossa tecnologia. Ao pensar na forma como um autocarro avariado impacta a totalidade da sua rota, facilmente percebemos que a disrupção é muito  significativa na vida das pessoas, com custos muito para além dos financeiros dado que implica também a perda de reputação por parte dos operadores das frotas.

Qual o investimento que uma empresa que pretenda obter a vossa tecnologia tem de realizar?
Tipicamente, as empresas que testam a nossa plataforma celebram contratos de longa duração por sentirem que o benefício da tecnologia traz valor acrescentado para as suas operações. Os nossos contratos assentam num modelo de subscrição anual que permite às empresas acederem à tecnologia na sua totalidade, sem custos de aquisição de hardware, sem preocupações, e sem encargos adicionais. Isto está
também alinhado com a nossa forma de operar com os nossos clientes: o foco em oferecer-lhes o melhor serviço possível.

Não só a plataforma é atualizada regularmente, como todo o sistema, desde os nossos modelos de Inteligência Artificial, ao software e ao firmware que corre nos nossos dispositivos, está em constante melhoria. Um cliente que contrate com a Stratio ao dia de hoje vai ver constantemente o seu produto e o seu Retorno de Investimento aumentar.

A nossa ambição é estar em todas as frotas do mundo e isso só é possível se oferecermos o melhor produto e o melhor serviço possível a todo o momento.

Qual a vossa receita no ano passado?
Mantemos esta informação confidencial, mas crescemos 2700% em ARR (Annual Recurring Revenue) desde a nossa Seed Round até agora. Temos combinado a lógica de crescimento acelerado com a sustentabilidade financeira. Essa solidez é importante porque os nossos clientes procuram parceiros com quem podem contar no longo prazo. Antes mesmo de iniciarmos este novo ciclo de investimento já tínhamos atingido o break-even (operar com lucros).

Quanto investiram em investigação e desenvolvimento desde a criação da empresa?
O investimento em investigação e desenvolvimento nos últimos anos tem sido cerca de 65% do nosso orçamento anual. Investimos continuamente na oferta aos nossos clientes, no desenvolvimento de produto e também nas áreas de suporte.

Querem recrutar mais de 60 pessoas para reforçar a empresa. Quais os cargos?
Um dos grandes focos é a contratação de engenheiros. A base do nosso desenvolvimento tem sido a engenharia de altíssima qualidade que existe em Portugal. Pretendemos melhorar a nossa plataforma, desenvolver novas predições de falhas e melhorar as ferramentas que  oferecemos às empresas de transportes de forma a que elas possam atingir o seu principal objetivo: utilizarem a manutenção preditiva para
nunca mais terem avarias que impactem o transporte de pessoas ou a entrega de produtos.

Paralelamente, temos posições em marketing, vendas e outras áreas que vão permitir acelerar bastante o nosso crescimento e fazer chegar a nossa tecnologia a cada vez mais pessoas.

Pode a vossa tecnologia ser aplicada a veículos de transporte de passageiros? Falando em carros de cidadãos privados.
O nosso foco tem sido desde o início as frotas, dado que é nesse sentido que a mobilidade está a evoluir.

Um dos problemas mais graves do mundo atual são as alterações climáticas, e se queremos resolver este problema temos que conseguir que o transporte público seja ainda mais barato e mais confiável. Escolhemos focarmo-nos nas frotas comerciais para conseguir dar um forte  contributo para um futuro mais sustentável. É também através da redução dos custos de operação que podemos tornar o transporte ainda
mais acessível a toda a população. E isso tem impactos muito benéficos nas sociedades.

Independentemente do nosso foco, a tecnologia que construímos está preparada para funcionar em todos os veículos terrestres, sendo assim compatível também com veículos ligeiros, que partilham grande parte da tecnologia dos veículos comerciais ou pesados.

De que forma é que a tecnologia da Stratio impacta a transição para zero emissões?
Acreditamos que a nossa tecnologia é crítica na transição das frotas com veículos de combustíveis fósseis para veículos zero emissões. O investimento que estas empresas precisam de fazer em frotas sustentáveis é cerca de vezes mais elevado que uma frota com veículos operados a combustíveis fósseis. Muitas empresas ainda não tomaram essa decisão porque não conseguem justificar esse investimento do ponto de vista do retorno financeiro a médio prazo.

Se queremos resolver o problema grave das alterações climáticas, temos que resolver a parte económica primeiro para conseguir acelerar essa mudança.

É precisamente aqui que a nossa tecnologia é crítica. As empresas que já utilizam a nossa tecnologia evitam ter os veículos parados nas oficinas nos momentos em que deveriam estar a trabalhar e a contribuir para a amortização e para o retorno desse investimento. Em vários casos, já assistimos a clientes nossos que só tomaram a decisão de investir em frotas mais sustentáveis porque a nossa tecnologia os ajuda a
garantir o retorno financeiro. A Stratio já demonstrou a múltiplos clientes que com a nossa tecnologia implementada, o caminho é claramente o das frotas elétricas.

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