Subida dos depósitos vai acontecer “no tempo certo”, dizem bancos

Como desafios para o futuro reina uma unanimidade na banca: a cibersegurança e a inovação. É aqui que os bancos preveem ter de fazer fortes investimentos. Sobre os depósitos, enquanto o rácio de transformação estiver em 80%, não há urgência em subir os juros.

O presidente do BPI, João Pedro Oliveira e Costa (E), o CEO, Santander Totta, Pedro Castro e Almeida (2-E), o presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB), Vítor Bento (2-D), e o presidente do Millennium BCP, Miguel Maya (D), participam na conferência “Banca do Futuro”, em Lisboa, 16 de novembro de 2022. ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Num painel intitulado “Reconstruir o futuro: novos desafios, novas oportunidades”, da conferência “A banca do futuro”, organizada pelo Jornal de Negócios, em Lisboa, os responsáveis pelos maiores bancos portugueses debateram o futuro da banca. “Enquanto criar valor para a sociedade a banca tem futuro”, defendeu Miguel Maya, CEO do Millennium BCP.

José João Guilherme, administrador da Caixa Geral de Depósitos, considera que o maior desafio da banca do futuro é a cibersegurança. “Os bancos têm de investir fortemente em cibersegurança”, defendeu o responsável da CGD que por outro lado, considera que os bancos estão com melhores estruturas de capital, que permite alguma tranquilidade num cenário de recessão.

João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI, lembra que os desafios da banca “agudizaram” desde 2007/2008, e desde então não houve descanso. “Não há economia sem uma banca saudável”, frisou o CEO.

Um cenário de inflação como o atual é uma novidade recente (das últimas décadas), mas João Pedro Oliveira e Costa lembra que “também não conhecíamos uma pandemia, também não sabíamos o que era dar moratórias a 25% da carteira, também não sabíamos o que era ter os clientes todos nas app e deixarem de ir aos balcões”. O CEO do BPI defendeu o forte investimento tecnológico e em cibersegurança como desafios da banca do futuro.

Um cenário de recessão? “O nosso cenário central, neste momento, não é de uma recessão para 2023”, diz o CEO do BPI que admitiu alguma incerteza e que “estamos preparados para isso”.

Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander Totta, defende que “é bom que haja um abrandamento da economia”, uma vez que Portugal e o resto da Europa “viviam numa economia sobreaquecida”.

A título de exemplo diz que “já tínhamos inflação no mercado imobiliário”. Para o CEO do banco era “insustentável” continuar o padrão de crescimento económico.

“Não podemos entrar em pânico com a subida dos juros”, pois o foco tem de estar em “controlar a inflação”, disse o CEO do Santander Totta.

Miguel Maya, CEO do BCP, diz que há sinais de alerta mas “temos de estar preparados para viver num cenário de maior ambiguidade do que aquele que se viveu no passado”. A “nova realidade” que tem de se aceitar é a de um mundo mais global, com um ritmo mais acelerado.

O nosso cenário base “é a enorme imprevisibilidade”, pois “estamos dependentes do que se vai passar na Ucrânia”, referiu o banqueiro que apelou “à racionalidade, em vez de emoções, nas decisões”.

O CEO do BCP lembrou que “o país está melhor, o desemprego está mais baixo, o euro está mais sólido, há maior coesão, a banca está em melhor situação para apoiar a economia, os empresários estão melhor qualificados, há uma juventude qualificada”.

Mark Bourke, CEO do Novobanco, diz que a atual incerteza económica existe mas não afeta o banco que está hoje muito mais sólido e com um modelo de negócio mais robusto.

O administrador da CGD acha que o atual nível das taxas de juro, de 2% a 3%, é “perfeitamente normal”, o que não era normal era viver com taxas de juros negativas. O preço do dinheiro é a taxa de juro e o valor é aquilo que com ele se pode comprar, explicou. O valor manteve-se mesmo quando as taxas eram negativas, lembrou José João Guilherme que admitiu que esta fase de transição “não pode ser súbita” e alerta que os bancos têm de ter “uma visão de longo prazo e caminhar para um equilíbrio”. Pagar juros pelos depósitos é o normal, insistiu.

O CEO do BPI, questionado sobre quando é que os bancos vão subir os depósitos, disse “que estamos em concorrência” e por isso os clientes podem optar entre vários bancos. “Faz parte da oferta de um banco os depósitos, mas é preciso seguir critérios de prudência, que têm a ver com as condições de mercado e com os custos de financiamento. Portanto, serão refletidos no momento certo. É um caminho que irá acontecer, no momento que for mais indicado”, disse sobre a subida dos depósitos.

Já Pedro Castro e Almeida, lembrou também que as taxas de juros estiveram negativas durante 10 anos. “Não há necessidade neste momento de começar a pagar depósitos, porque é uma questão de gestão de balanço”.

O facto de o rácio de transformação dos depósitos em crédito estar em cerca de 80% explica esta pouca urgência em subir os juros dos depósitos. “A elevada liquidez também tem levado a manter os spreads do crédito, nomeadamente às empresas”, disse o CEO do Santander Totta que lembrou ainda que os bancos se financiam no mercado e estão a pagar mais pelas várias emissões de dívida.

O BCP também respondeu que a captação de recursos é importante, no entanto, “o banco tem uma política de preços de depósitos que consideramos necessária à estratégia da instituição”.

“Estamos num mercado aberto, em matéria de captação de recursos, que não se esgota nos próprios bancos, há uma quantidade enorme de entidades que oferecem produtos de poupança”, disse Miguel Maya.

O CEO do Novobanco, Mark Bourke, também respondeu à questão, dizendo que o ajustamento dos juros será feito de forma natural.

José João Guilherme foi ainda chamado a intervir para dizer que seria importante que houvesse mais investimento das empresas do que aquele que existe, apesar do baixo serviço da dívida dos últimos anos. O aumento dos custos financeiros começa agora a afetar as empresas e as famílias, mas a CGD está cá para ajudar os clientes a reestruturarem os créditos, disse o administrador do banco público.

O CEO do Santander considera que, “em média, as empresas estão numa boa situação, em termos de volume de vendas e de EBITDA” e espera uma subida do investimento no próximo ano por causa das verbas do PRR. No entanto, alertou para o risco dos fundos europeus acabarem por contribuir para o sobreaquecimento da economia. Pelo que até dá jeito “um ligeiro atraso” na execução desses fundos.

Miguel Maya, por sua vez, também não está preocupado com o grau de execução do PRR. “A preocupação é que os investimentos sejam efetivamente feitos naquilo que pode transformar o país”, disse o presidente do Millennium BCP.

O debate decorreu na conferência “A banca do futuro”, organizada pelo Jornal de Negócios, em Lisboa, os responsáveis dos cinco maiores bancos – José João Guilherme, administrador da CGD; Miguel Maya, CEO do BCP; Mark Bourke, CEO do Novobanco; Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander Totta e João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI.

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