Contabilidade: talento, burocracia e critérios ESG no leque dos desafios para 2023

Ultrapassada a pandemia, o horizonte alarga-se, mas desafios há sempre. O ano novo está à porta e há, pelo menos, um que vai dar água pela barba: como captar e reter as melhores pessoas nas empresas. Por Almerinda Romeira

1. Quais os principais desafios que se colocam ao sector? 2. Como antevê a entrada da área da Contabilidade em 2023?

Ana Louro
Partner da Moneris

1 O sector da Contabilidade tem vindo a enfrentar grandes desafios nos últimos dois anos, motivados pelo motor “pandemia”, com principal destaque para a gestão de processos operacionais e a gestão de recursos humanos.

Uma das principais tendências no sector, tem sido a aceleração na adoção de novos processos operacionais, com a adoção de novas tecnologias, caminho este inevitável, mas ainda assim bastante dispendioso no que concerne a investimento em meios tecnológicos e humanos, adaptados às novas necessidades.

A acrescer a esta situação, também a aposta em formação das equipas operacionais tem sido um desafio no sentido de reforçar as competências tecnológicas de uma classe a quem já é exigida atualização constante de conhecimentos técnicos para desempenho de uma profissão de grande responsabilidade e exigência.

Com toda esta pressão e crescente exigência, constata-se, especialmente neste último ano, uma fuga à profissão e desta forma a motivação e atração de talento está a ser um dos fatores mais desafiantes no setor da Contabilidade.

A profissão está a ser esmagada pelas exigências fiscais deixando pouco espaço para que o profissional se dedique a desenvolver novas áreas, como é o caso da adaptação a novas tecnologias e ao desenvolvimento da comunicação com o cliente, passando assim a exercer um papel preponderante no aconselhamento dos gestores e o apoio na tomada de decisões.

2 As empresas que já se encontram a adotar novas tecnologias e a investir na melhoria continua da experiência dos seus funcionários e clientes, estarão no caminho certo para enfrentar os desafios de 2023 e assim estarem na linha da frente para atingirem o sucesso.

O momento é agora e a gestão eficiente de recursos humanos, quer na formação, quer na motivação, deverá ser o foco também em 2023, caminho essencial para o aumento da satisfação dos clientes deste setor, pois equipas motivadas são a chave da satisfação dos clientes.

O foco na equipa e no cliente deverá ser um fator primordial no sucesso do setor.

Um outro desafio e tendência é a crescente adoção da robotização de processos através da Inteligência Artificial, tendo como principal objetivo criar automatismos para melhoria de eficiência operacional. Permitirá assim criar espaço para tarefas como o aconselhamento estratégico a clientes e apoio na tomada de decisões.
Ainda assim, os desafios em 2023 continuam a ser constantes, destacando-se a crescente adoção de ferramentas tecnológicas, transição digital e adoção de armazenamento em “cloud” que implica um elevado investimento em cibersegurança.

2023, continuar a evoluir, modernizar, assumindo o papel de aconselhamento, muito para além da execução técnica e resposta fiscal.

 

Hugo Ribeiro
Contabilista Certificado | CEO HVR Business Consulting

O ano de 2023 na área da Contabilidade vai ser um ano de consolidação e mudança de paradigma que já se assiste, em que a digitalização dos processos se assume cada vez mais como fundamental, o papel do contabilista também se tem vindo a alterar, sendo em muitos casos já um consultor que ajuda no processo de decisão e no crescimento e não apenas no mero cumprimento de obrigações fiscais, o que vai levar sem dúvida a uma valorização da profissão. As alterações legislativas continuam, o que leva a que seja necessária uma atualização constante e de adaptação de processos, . Continua, no entanto, a existir um elevado número de declarações fiscais e parafiscais que nada acrescentam e são apenas burocracia para as empresas e que devem ser eliminadas. O controlo de qualidade em fase de implementação pela Ordem poderá ser bastante positivo e ajudará a elevar a qualidade dos serviços prestados.

 

Pedro Pinheiro
Presidente do ISCAL – Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa

O sector da Contabilidade em Portugal tem vindo a enfrentar um conjunto vasto de desafios ao longo dos últimos anos e a todos eles tem respondido de forma muito satisfatória, pelo que, certamente, a resposta aos novos desafios que são colocados não será diferente.

O primeiro destes desafios prende-se com a capacidade de atração e retenção de talento. Existe, atualmente, uma enorme dificuldade em recrutar talento que permita responder ao crescimento que o mercado tem vindo a impor. No entanto, o desafio não se coloca apenas na captação, mas também na retenção desse mesmo talento, muito por culpa da relação entre a exigência da profissão e a remuneração a ela associada.

Outro dos desafios que se coloca no sector da Contabilidade encontra-se associado à crescente importância dos aspetos relacionados com as perspetivas ESG. Estes aspetos conduzem à necessidade do sector se adaptar a um conjunto de especificidades de natureza técnica que a preparação desta informação acarreta. Neste contexto, a necessidade de trazer fiabilidade à informação de natureza não financeira, que muitas vezes se reveste de um nível de abstração elevado, implicará uma adequação do ‘mindset’ existente.

Importa também referir que o aumento da notoriedade do sector é em muito alicerçado na qualidade e competência dos seus profissionais. Assim, a constante necessidade de atualização e aquisição de novas competências que permitam atuar em contexto de rápida mutação e incerteza, deve também ser considerada com um dos desafios que o sector enfrenta.

Por último, não posso deixar de referir que a transição digital é ainda um processo em curso, facto pelo qual deve também ser considerado como um dos desafios para a profissão e para os profissionais de contabilidade.

 

Helder Machado
Contabilista Certificado | Diretor Associado da Nominaurea

A entrada da Nominaurea em 2023 será a acompanhar os seus clientes na implementação de todas as alterações que foram introduzidas pela AT, falo de temas como a valorização dos inventários, antecipação do prazo de entrega dos ficheiros de faturação SAF-T, desdobramento dos motivos de isenção de IVA, implementação do ATCUD nas faturas entre outros.

Na Nominaurea procuramos seguir a seguinte metodologia:
1. Analisar – Sempre que recebemos um novo cliente, procuramos verificar quais os pontos e procedimentos que podemos melhorar, no estrito cumprimento dos normativos fiscais, tendo, no entanto, presente as suas necessidades de informação. Propomos procedimentos simples, mas transparentes que promovam uma fácil leitura dos indicadores que importam às empresas.

2. Aconselhar – Depois da análise inicial, em conjunto com o cliente promovemos as alterações pertinentes nos processos de modo a definir quais as rotas a seguir e as que fazem mais sentido para a empresa;

3. Aplicar – Todo o trabalho desenvolvido nas fases anteriores seria desprovido de significado, se não se passar das palavras à ação; e é nesse momento que não deixamos os nossos clientes sozinhos, mas participamos ativamente na implementação das ideias desenvolvidas nas etapas anteriores.

Este ano não será diferente, colocámos em marcha várias frentes de informação (e-mails, artigos, reuniões por vídeo chamada, etc.) de forma a introduzir cada um destes temas nas agendas das empresas com as quais colaboramos. Na Nominaurea pensamos que o maior desafio que se apresenta aos contabilistas certificados em 2023, prende-se com a disponibilização atempada dos indicadores financeiros que permitam aos empresários e aos gestores tomarem as medidas mais apropriadas. Queremos que os nossos clientes sintam que fazemos parte da equipa!

 

Filipa Xavier de Basto
Co-founder do Grupo Your e CEO da Your Finance

A área da Contabilidade terá a meu ver grandes desafios em 2023. As medidas em torno do ESG são uma realidade em todo o sector da Contabilidade e será em torno dessas medidas que o sector terá que se adaptar.

Destaco outros desafios. A consolidação da transformação digital. O “pleno emprego” e a especulação salarial que se vive em torno da captação de talento para esta área da contabilidade. O contexto atual: A subida da taxa de inflação, as taxas de juro em alta e a instabilidade dos mercados, leva a uma certa retração ao investimento por parte dos empresários e gestores das empresas.

Há dois, três, anos estamos numa era de transformação, que requer a adptação das empresas portuguesas. A preparação dos contabilistas para esta nova era torna-se assim essencial. Importa referir, antes demais, que esta realidade ainda que possa afetar inicialmente as empresas de maior dimensão (aliás, para as grandes empresas estes temas já não são novidade), são as PME que terão de estar conscientes, pois em poucos anos terão as mesmas obrigações que as grandes empresas – e aqui o papel do contabilista é e será cada vez mais central.

O contabilista é, sempre foi e será o ventilador das empresas. E no momento estamos perante uma era em que o contabilista, tem de ser encarado como consultor no apoio à tomada de decisões de gestão, pois já não chega cumprir com os registos contabilísticos e com o compliance fiscal. Acredito que o papel dos contabilistas é ir mais além. Penso que todos nós, temos que nos preparar para esta evolução natural. Estou certa de que estes dois últimos anos têm sido a prova de que os contabilistas são indispensáveis em tudo o que esteja relacionado com matérias contabilísticas, fiscais e ainda de relato financeiro e que contribuem para a diferenciação e inovação das empresas. Com os desafios também vêm oportunidades de negócio e crescimento. Uma coisa é certa, nunca a Contabilidade esteve tão bem posicionada para dar resposta aos empresários quer no apoio à gestão quer como aliada, em tempos incertos.

No Grupo Your temos procurado adaptarmo-nos ao momento atual, na crescente implementação dos critérios do ESG, da digitalização de processos e na automatização de procedimentos e, consequentemente, procurando posicionarmo-nos como consultores das PME.

Destaco ainda o papel que a Ordem dos Contabilistas Certificados tem desempenhado nos últimos quatro a cinco anos, no que diz respeita à profissionalização e dignificação da profissão, apelando a uma crescente unificação dos seus profissionais e à promoção de formação focada naquilo que são estes desafios.

 

Paulo Gomes
Consultor sénior da Anturio no escritório da Madeira

Devido à constante mudança no mundo digital e nas obrigações legais, torna-se cada vez mais premente termos um ERP completamente integrado e que responda rapidamente às alterações legais impostas pela AT.

As empresas necessitam cada vez mais de ter a sua informação centralizada para poder responder aos desafios constantes da Contabilidade.

É necessário que os softwares de Contabilidade respondam rapidamente às alterações legais de forma rápida e eficaz. Os ERPS têm de se adaptar a esses desafios incessantes, para poderem responder às imposições legais.

Alimentar os dados contabilísticos é uma tarefa morosa, pois se não existem ferramentas no ERP que facilitem essa tarefa, dificilmente temos a informação a tempo para responder às referidas obrigações legais.

Com a introdução do Saft-T veio a possibilidade de os ERPs poderem importar diretamente as faturas do ficheiro “Saft” e integrá-las automaticamente na Contabilidade, tirando, assim, muito trabalho que era efetuado anteriormente de uma forma manual. Também permitiu integrar de uma forma automática o “Saft” contabilístico.

Com a obrigatoriedade de os documentos terem impresso o QRcode, veio também dar a possibilidade de podermos lançar automaticamente os documentos no ERP pela leitura do QRcode, mais uma vez facilitando o trabalho das empresas e gabinetes de contabilidade.

Além da possibilidade de importarmos os dados pelo ficheiro “Saft”, também com um ERP podemos ter uma integração automática com outros módulos, como Gestão, Vencimentos e Imobilizado, permitindo, desta forma, não ser necessário duplicar trabalho, pois quando é criada, por exemplo, uma fatura no sistema, ela vai automaticamente para a Contabilidade, permitindo, assim, que o software de Contabilidade cumpra com as obrigações legais de uma forma automática e rápida.

A partir do momento em que temos tudo integrado na Contabilidade podemos de uma forma rápida responder às necessidades legais, como, por exemplo:

– Enviar a Declaração do IVA com os seus respetivos anexos automaticamente para a AT;

– Reembolso do IVA;

– A IES/ Declaração Anual;

– Balanços;

– Demostrações de Resultados.

Com a possibilidade de efetuarmos todos os procedimentos com um ERP online permite que em qualquer sitio, em qualquer hora possamos responder às necessidades.

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