Taxas a subir e porque é que devemos estar calmos

Neste artigo deixamos uma visão complementar que acreditamos possa trazer alguma tranquilidade na gestão dos orçamentos das famílias em Portugal.

Muito se tem falado e escrito sobre as subidas das taxas de juro nos últimos meses. De visões catastrofistas a visões mais moderadas, embora com a tónica constante de incerteza. Neste artigo deixamos uma visão complementar que acreditamos possa trazer alguma tranquilidade na gestão dos orçamentos das famílias em Portugal.

Porque sobem as taxas de juro?

Não entrando em detalhes técnicos e em economês, é importante que fique claro que as taxas de juro são muito influenciadas pelas políticas monetárias dos Bancos Centrais. No caso europeu, temos o Banco Central Europeu (BCE), cujo objetivo de política consiste em controlar a subida do nível geral de preços, fenómeno conhecido como inflação.

O BCE pretende que a taxa de inflação de médio prazo se situe perto de 2% ao ano, de modo a manter um nível de crescimento económico sustentado. Para o fazer, dispõe de um conjunto de medidas, sendo a mais conhecida a gestão das taxas de juro e a cada vez mais importante formação de expetativas. Sinais de inflação podem levar o BCE a subidas de taxas de juro e a discursos mais duros que sinalizem novas medidas.

Se já existia alguma expetativa de que não poderíamos manter os níveis de taxas historicamente baixos por muito mais tempo (aliás, é surreal que quem empresta não seja remunerado ou mesmo que tenha de pagar por isso), a guerra veio complicar o problema. De um momento para o outro, temos o disparar do preço dos combustíveis e do preço dos bens alimentares que, como sabemos, têm-se traduzido num aumento conjuntural de preços (pelo menos era este o discurso do BCE até há bem pouco tempo). Acontece que estas pressões inflacionistas se podem tornar estruturais quando induzem, entre outros, pressões nos salários, provocando um duplo efeito na competitividade das empresas: aumento de custos de produção e do custo de mão-de-obra (facilmente percebemos que o aumento de salários tem de andar de mãos dadas com o aumento da produtividade e que os salários não podem ser aumentados por decreto ou por pedidos aos empresários).

Para contrariar estas subidas de preços, o Banco Central tem sinalizado que irá retirar os estímulos à economia, tornando o dinheiro mais caro e com isso o consumo e o investimento. Por outro lado, tem outros fatores positivos, como veremos mais adiante.

A realidade e o contexto nacional

É fundamental que tenhamos em mente que esta redução de estímulos e subida de taxas de juro vem de um contexto em que vivemos demasiados anos com taxas de juro muito próximas de zero. Um período em que pudemos investir e criar riqueza e aproveitar a poupança com os juros para reduzir o endividamento público e familiar. Infelizmente, fizemos exatamente o contrário…

Recordemo-nos ainda de que já vivemos (não há muito tempo) com taxas de juro elevadas e nessa altura pagávamos os nossos créditos. É certo que vemos agora um aumento das prestações bancárias acompanhado pelo aumento dos custos nos supermercados e nos postos de abastecimento. Mas também é certo que os níveis de poupança das famílias são agora muito mais elevados, o que representa uma importante almofada em altura de necessidade. Por outro lado, o aumento das taxas de juro representará, em breve, o aumento da rentabilidade da poupança das famílias que conseguiram ou que optaram por assumir maior prudência nas suas decisões financeiras. Uns pagarão mais mas outros terão alguma recompensa pelo seu esforço de poupança.

As contas

Coloquemos o aumento das taxas de juro em contexto com um simulador de crédito. Imaginemos um empréstimo de 100.000€ a 30 anos. O aumento de 1 ponto percentual da taxa EURIBOR a 12 meses, a taxa de referência para muitos créditos habitação, representa um aumento de sensivelmente 50€ por mês. Passamos de uma prestação de 300€ para cerca 350€ mensais, um aumento importante especialmente para as casas de montantes mais elevados. Se assumirmos como rendimento médio de um agregado com duas pessoas de €1.800, falamos de cerca de 3% do seu rendimento disponível.

Quem vai comprar casa em breve, vai sentir uma maior dificuldade na aprovação do seu contrato pelo aumento da taxa de esforço. Quem comprou casa nos últimos anos, em breve terá de começar a pagar juros pelo dinheiro que pediu emprestado e terá pouca margem para reestruturar. Quem tem um crédito há vários anos, os montantes em dívida deverão ser mais reduzidos pelo que os impactos serão inferiores. Nestes casos, deverá ter margem para estender prazos, caso necessite.

Em qualquer dos casos, deveremos considerar que o custo com um crédito não se restringe ao pagamento de juros (nestes casos, poderá negociar com o banco uma descida no spread e, caso não o consiga, poderá sempre transferir o seu crédito para outro banco). Na realidade, muitos clientes pagam quase tanto no seguro de vida do que na prestação do crédito, podendo sempre negociar este encargo e com isso mitigar a subida da taxa de juro.

Finalmente, e não menos importante, a subida das taxas de juro irá ter uma consequência imediata na solidez do sistema financeiro. Ou seja, a banca estará mais preparada para fazer face a eventuais incumprimentos e o acréscimo de rentabilidade poderá ser usado para captação de novos clientes, reforçando a guerra de spreads que temos visto nos últimos anos.

Em conclusão, é certo que o aumento das taxas de juro vai ter impactos nos orçamentos das famílias portuguesas, aumento tanto maior quanto maior o nível de endividamento (felizmente que a maior parte dos créditos de curto prazo é a taxa fixa). Mas um aumento que deverá ser contido e passível de ser gerido (recorde-se das previsões para o fim das moratórias e o que aconteceu na realidade). O importante mesmo é entrar em campo e começar a preparar os orçamentos familiares para um novo contexto. E já agora… assumir uma postura de maior prudência nas decisões financeiras.

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