Teletrabalho: criámos um mundo de solteirões

Nos anos da pandemia criaram-se hábitos. O conceito da “Grande Resignação” ganhou também muito mais visibilidade, uma vez que as pessoas entenderam melhor o quanto devem dar mais valor às suas vidas e como a aproveitam, dado que ela é sempre fugaz e nunca um dado adquirido.

Na sequência de várias conversas tidas ultimamente com alguns gestores e líderes de equipas em empresas, ouvi alguns factos comuns e transversais a todos: “Perdemos a comunicação e muito do espírito de equipa” e “as pessoas estão muito mais agressivas umas com as outras desde a pandemia, em particular agora que regressámos a modelos mais presenciais.”

Em paralelo, fui falando com alguns profissionais de mercado que me confirmaram efetivamente esses sentimentos, ou seja, sentiam “no ar” ambientes mais tensos e que eles próprios já “não estão para aturar certas coisas”.

A realidade é que se no primeiro ano de pandemia houve uma solidariedade de entreajuda das pessoas, empresas e sociedade em geral, com o objetivo de procurar manter o funcionamento o mais próximo possível do período pré-pandemia, no segundo e nos seguintes anos criaram-se hábitos. O conceito da “Grande Resignação” ganhou também muito mais visibilidade, uma vez que as pessoas entenderam melhor o quanto devem dar mais valor às suas vidas e como a aproveitam, dado que ela é sempre fugaz e nunca um dado adquirido.

É sabido que o ser humano é um animal de hábitos. Neste caso, habituou-se ao teletrabalho, habituou-se a estar mais isolado, habituou-se a comunicar “para si lá em casa”, habituou-se a fazer reuniões em modelos online, habituou-se a não apanhar trânsito para ir para o trabalho, entre outros hábitos que, na sua perspetiva, lhe trouxe ganhos imediatos na sua qualidade de vida.

Com isso, intrinsecamente esteve-se a dar prioridade aos hábitos latentes antissociais e de isolamento das pessoas, estando por isso muito mais visíveis na sociedade, em geral, e nas relações laborais, em particular. Por outras palavras, se colocássemos e generalizássemos, poder-se-ia dizer que o extremo da socialização pré-pandemia passou para o polo oposto da anti socialização.

Este é para mim o aparecimento de um fenómeno global, que catalogo como “o Mundo dos Solteirões”. Este é um mundo que se caracteriza por uma população que nunca se casou ou divorciou, mas onde os seus indivíduos vivem há alguns anos sozinhos nas suas habitações. Estes Solteirões criam hábitos que vão desde o “arrumo amanhã” ao ter o silêncio como política constante, ou ao não apreciar dividir o espaço da casa de banho. Por estas razões, acabam por gostar tanto destes hábitos que qualquer aproximação de outro ser humano para partilhar momentos de vida em conjunto, se torna uma aventura cada vez mais do seu imaginário.

Desta forma, “o Mundo dos Solteirões” entrou no seio empresarial. Após dois anos de teletrabalho, a anti socialização imperou. Aquilo que eram casos esporádicos, tornaram-se casos recorrentes e, em certa medida, com peso na própria produtividade direta das empresas, pelo impacto crescente nas falhas de comunicação, pelas reuniões internas de empresa que continuaram a ser integralmente online (mesmo todos estando no mesmo edifício), ou pela falta de paciência de se ser constantemente interrompido nas suas tarefas, entre outras situações de grau elevado de conflitos latentes entre pessoas da mesma equipa, de equipas diferentes ou, mesmo, de empresas diferentes.

Como minimizar isto? Trazer “o regressar à base” com flexibilidade produtiva, garantindo que as reuniões internas passam a ser mais “humanamente” presenciais, “olhos nos olhos”, sendo o online a exceção, ou que o trabalho é híbrido q.b., de forma a garantir a existência de uma cultura própria e que reuniões de partilha e de convívio são habituais.

Em termos práticos, e apesar de ser um adepto do mundo digital, pelas eficiências e eficácias que nos traz, há que procurar maximizar o potencial a médio e longo prazo do equilíbrio dessa produtividade digital com a produtividade da sanidade mental coletiva. Em consequência, há que fazer calçar ténis aos Solteirões e trazê-los para a rua jogar em coletivos e não apenas em jogos individuais.

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