O tempo dos palhaços

Não lembra a nenhum político avisado sujeitar a referendo numerosas e incompreensíveis alterações da Constituição. No caso italiano, o resultado de domingo poderá ter um efeito que nos envergonhará a todos: colocar no poder um palhaço.

Eu não sei se sabem quem verdadeiramente é Peppe Grillo? É normal que poucos saibam. É normal que nem sequer liguem alguma coisa a Itália (agora que o futebol transalpino desapareceu), para além da vaga ideia de ser um país bonito, cheio de gente simpática permanentemente à beira do colapso.

Verdadeiramente, o colapso nunca se dá: a sociedade civil – expressão onde cabe tudo o que não seja Estado – supera-se  e qualquer que seja o governo, e até mesmo sem governo (o que acontecerá nos próximos tempos), o país sobrevive. Acontece, porém, que após a estrondosa derrota no referendo de domingo quem ficou a rir-se, fazendo justiça à sua profissão, foi justamente o tal Peppe Grilo.

É claro que não lembra a nenhum político avisado (quo vadis Renzi?) sujeitar a referendo numerosas e incompreensíveis alterações da Constituição. Tirando três ou quatro casos históricos em que estavam em causa questões simples (monarquia versus república) e ainda assim associadas a contextos históricos dramáticos (pós Segunda Guerra Mundial ou pós queda do muro de Berlim), os referendos constitucionais envergonharam sempre quem os convocou. Mas, no caso italiano, o resultado do referendo terá ainda outro efeito que nos envergonhará a todos: colocar no poder um palhaço!

Dir-se-á que tal ocorrência é o destino das democracias, cumprindo a  sábia sucessão de regimes políticos profetizada por Políbio: monarquia, tirania, aristocracia, oligarquia, democracia e oclocracia. Esta última é verdadeiramente o regime da multidão ou seja, da palhaçada! Destino triste, sem dúvida.

O tal de Grillo começou como actor de revista, frequentou “cabarets” e estrelas porno, participou em concursos televisivos,  fez publicidade a iogurtes, gravou discos e filmes, passeia-se de Ferrari e insulta meio mundo. Ideias políticas? Zero. A menos que se considerem “políticas” as seguintes: supressão dos sindicatos, a semana salarial de 20 horas e a recusa em aceitar que a SIDA seja causada pelo vírus VIH. Para além disto é amigo de Farage, o campeão do Brexit, e felicitou Trump pela sua “extraordinária vitória”.

Eis pois o que nos espera. Depois do “clown” norte-americano que é uma espécie de Bruno Aleixo instalado na Casa Branca a brincar com a “bomba antónia”, temos agora o comediante italiano. Poderíamos ao menos sossegar a vista e os corações olhando para o friso de políticos que, aqui no velho rectângulo, insiste em dizer que nos governa (admitindo que nos deixemos governar). Mas aí também não saímos do domínio da pantomina. Valha-nos ao menos o “Batatinha e companhia”. Os verdadeiros!

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