Tempos de espera, degradação e trotinetes

Para lá dos encantos superficiais das ciclovias, dos “modos suaves de transporte” e do embaratecimento dos passes nas áreas metropolitanas, subsistem estruturas obsoletas e falta de visão sistémica para o país.

As agradáveis e raras “visitas” de dirigentes políticos aos transportes públicos destoam radicalmente daquilo que é testemunhado por quem deles faz uso regular. É particularmente grave presenciar tantas falhas – imprevisibilidade de horários, degradação dos equipamentos, insegurança, greves constantes – quando sabemos que o governo tem destinado largos milhões de euros aos transportes públicos nos últimos anos, especialmente com intenções de “descarbonização” e de combate às alterações climáticas.

Mas como em todos os sectores, mais importante do que saber que se investiu muito, é saber se se investiu bem. É mais importante saber se existem condições para promover concorrência de operadores e eficiência, ou se continuamos reféns de grupos com elevado poder negocial junto do governo. Para além de que não faltarão certamente, por esse país fora, ciclovias sem bicicletas, bicicletas sem ciclovias, e outras peripécias semelhantes.

As pessoas não precisam de campanhas de incentivo à utilização dos transportes públicos. Não vale a pena promover a divulgação dos benefícios dos transportes, se a realidade concreta expõe as suas inúmeras desvantagens e insuficiências.  Geralmente, aquilo que é bom não precisa de muita publicidade. Pelo contrário, o relato diário de contratempos por parte de amigos e conhecidos que dependem dos transportes públicos é suficiente para demover novos utentes que ponderem tal alternativa.

É inaceitável esperar 15 ou 20 minutos pelo metro numa capital europeia e é incompreensível que equipamentos como escadas e passadeiras rolantes ou elevadores estejam fora de serviço constantemente, prejudicando as deslocações dos utentes em geral e restringindo de forma fatal os planos de pessoas com mobilidade condicionada, de idosos ou até de pessoas com carrinhos de bebé.

Entre as várias debilidades que se evidenciam na mobilidade nas grandes cidades, as trotinetes são a mais recente praga urbana, sendo uma manobra de entretenimento político que ofende a inteligência dos cidadãos, para além de serem um empecilho na via pública. Já que justificam tanto investimento público, seria conveniente tentar perceber a quem são úteis estas trotinetes. Ainda que possam ser um recurso vantajoso para estudantes atrasados para as aulas ou para alguns turistas menos exigentes, não é possível levar a sério estes objectos que invadem estradas e passeios, que desenrascam uns trajectos apressados em terreno favorável e que comprometem a circulação de peões e de viaturas.

Ninguém utiliza tal meio para levar os filhos à escola, para ir fazer as compras da semana ou para atravessar concelhos, rumo a uma reunião importante. Para além disso, mesmo admitindo que possam existir alguns beneficiários desta opção, a falta de civismo de tantas pessoas na sua utilização faz com que se revele um desastre. Porém, na imaginação dos decisores que promovem estas peculiares alternativas de circulação, o cidadão deve corresponder a um tipo autónomo e solitário, sem família para transportar, sem obrigações para além daquelas a que responde no portal das finanças e que limita o seu dia ao trajecto entre o seu pequeno quarto numa casa partilhada e o local de trabalho numa avenida qualquer a poucos quarteirões de distância.

Assim, completamente livre de bens e de ligações sociais, de mochila às costas e sem dinheiro para abastecer um veículo em segunda mão com mais de 20 anos, pode deixar-se levar perigosamente em cima de duas rodas, sem filhos, ou com um cão à trela. Parece que é esta a ambição de quem quer repensar o paradigma dos transportes em Portugal e redesenhar a vida dos portugueses.

Referir problemas relativamente aos transportes públicos na capital pode suscitar alguma admiração ou indignação entre os portugueses que vivem em outros distritos e que sofrem de um isolamento incomparavelmente mais constrangedor. Essa eventual indignação é legítima, no entanto, são realidades distintas que devem ser avaliadas na sua especificidade.

Preconizar um aumento da oferta de transportes, em qualidade e regularidade, nas grandes cidades, não impede que se defenda também, por exemplo, a necessidade de investimento na extensão, reabilitação e modernização dos meios ferroviários de forma a aproximar os principais centros urbanos do país e garantir uma efectiva coesão territorial. Ou, ainda, que se insista na descida da carga fiscal aplicada aos combustíveis, de forma a aliviar o esforço financeiro de empresas e de famílias de todo o país. Só por meio dessa visão sistémica é que será possível dinamizar a economia local, reduzir a susceptibilidade da economia ao custo dos combustíveis e favorecer a fixação da população fora das zonas metropolitanas.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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