Tempos interessantes

A maioria das empresas industriais portuguesas são de pequena dimensão, e têm fraca capitalização e capacidade de investimento para se desenvolverem. E em vez de concorrer com bens alemães, franceses ou suecos, concorrem com importações do Vietname, do Laos ou do Bangladesh.

Tem-me vindo à memória aquela que é considerada uma ‘maldição’ chinesa que se aplica perfeitamente aos governos do Portugal do século XXI: “desejo-te que vivas em tempos interessantes”.

De facto, os últimos anos em Portugal não têm sido caracterizados por falta de motivos de interesse.

Vejamos: a crise do subprime provocou uma recessão nos mercados internacionais que afectou as exportações e criou dificuldades aos bancos para a obtenção de crédito. Isto causou um desequilíbrio no sistema financeiro português, muito dependente de financiamento externo. O Governo tentou então apoiar a capitalização dos bancos, mas teve mesmo de intervencionar o BPN, o BPP, o BANIF e mais tarde o BES para evitar uma crise sistémica. Esta instabilidade levou a que o investimento diminuísse e o desemprego aumentasse.

Para compensar estes efeitos, o governo lançou um programa de investimento público e aumento de salários da função pública que, conjugado com o esforço desenvolvido com o resgate dos bancos, resultou no aumento da dívida, situaҫão que se vivia também na Irlanda, Grécia, Itália e Espanha. Esta conjugação levou ao aumento das taxas de juro sobre as dívidas soberanas.

O governo tentou alterar o rumo para estabilizar a economia, reduzindo a despesa e aumentando os impostos, mas não conseguiu travar o aumento da dívida nem a recessão, que obrigou ao pedido de resgate e à intervenção da troika.

Seguiu-se um programa de austeridade para reequilibrar as finanças públicas. No quadro da recessão que se vivia na Europa as medidas restritivas aplicadas (redução do consumo e do investimento públicos, aumento dos impostos) agravaram a crise interna, levando a uma queda do consumo e do investimento privados e da produção industrial, com aumento de desemprego e quebra de rendimentos.

Creio que ninguém duvidará que tenham sido momentos interessantes.

Finalmente, as medidas adoptadas começaram a produzir efeito. Os programas do Banco Central Europeu (BCE) através da redução das taxas de juros e dos programas de compra de dívida pública, facilitaram. A situação começou a estabilizar e a inverter a tendência destrutiva. Portugal começou a recuperar, com os principais indicadores a apresentar um comportamento favorável. O desemprego caiu, os rendimentos e o consumo privados aumentaram, as exportações continuaram a manter um comportamento positivo, o turismo explodiu. E a dívida começou a tender para diminuir.

Quando as coisas pareciam estar a correr bem, surgiu a pandemia. Os confinamentos causaram uma enorme redução da actividade económica, que obrigou a um novo programa de apoio e estímulo às empresas, que voltou a pressionar a dívida.

Agora que esta nova crise parecia estar a passar, surge a guerra, com impacto imediato nos custos da energia, que induzem aumentos generalizados dos custos de produção e, indirectamente, dos preҫos dos bens de consumo geral. A inflação dispara e as expectativas de crescimento económico afundam. Os mercados reagem negativamente a esta nova situação de instabilidade.

Que deve então fazer o Governo? É, sem dúvida, mais uma questão interessante.

Fazer previsões num cenário de guerra que é impossível prever quando e como poderá terminar, é complicado. Se a guerra terminar rapidamente, é possível que os preços da energia estabilizem e os custos de procuҫão regressem a níveis mais moderados. Nesse caso, será possível adoptar medidas pontuais de apoio às empresas e às famílias, que podem ser retirados se a situação reverter, em vez de recorrer a medidas de efeito duradouro como correcções salariais para compensar a inflação, que todos esperam seja um fenómeno esporádico. O problema é que não sabemos se o será.

A acrescer temos o facto de algumas das questões que condicionam o crescimento económico em Portugal permanecerem por resolver. A maioria das empresas industriais portuguesas são de pequena dimensão, e têm fraca capitalização e capacidade de investimento para se desenvolverem.

Os seus produtos têm baixo valor acrescentado e, em vez de concorrer com bens alemães, franceses ou suecos, concorrem com importações do Vietname, do Laos ou do Bangladesh. E como esses concorrentes têm acesso a uma fonte quase inesgotável de mão-de-obra a preços extremamente baixos, não podem aumentar os custos salariais. Mais problemas que certamente constituem desafios interessantes para o Governo.

Ou seja, os recentes governos portugueses não se podem queixar de terem atravessado tempos pouco interessantes. Poderíamos mesmo dizer que a intensidade do interesse tende a ser directamente proporcional à dificuldade dos problemas a resolver.

Governar não é fácil. Aliás, se o fosse, certamente não seria interessante.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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