Tendências e desafios na indústria têxtil: breves anotações

Apesar do crescimento, a indústria mundial continua com problemas na criação de valor económico, com o montante total das perdas de 80% das empresas a superar os ganhos das 20% mais rentáveis.

A APLOG – Associação Portuguesa de Logística organizou, recentemente, evento com o título “Têxtil do Futuro – Desafios para o Crescimento Sustentável”. Motivado por uma associação com elevado contributo no pensamento nacional sobre a logística, o evento resultou numa reflexão informada sobre a indústria têxtil na sua globalidade, cujas lições aprendidas merecem ser aqui apresentadas.

A indústria têxtil portuguesa registou em 2021, exportações de 5,42 mil milhões de euros, número recorde e que representou um crescimento de 4% face a 2019. Apesar do crescimento generalizado, no contexto mundial alguns produtos e geografias apresentaram crescimentos supranormais, como foram os casos do vestuário de desporto, do vestuário de luxo e das empresas locais na China. Apesar do crescimento, a indústria mundial continua com problemas na criação de valor económico, com o montante total das perdas de 80% das empresas a superar os ganhos das 20% mais rentáveis.

São vários e diversos os desafios da indústria: a disrupção das cadeias de abastecimento, com cadeias mais longas; o aumento dos custos, com destaque para os custos energéticos e de transporte; a escassez de matérias-primas; a sustentabilidade, com relevo para o reaproveitamento dos produtos e para a descarbonização; a verticalização, numa perspetiva inovadora da colaboração entre empresas na cadeia de valor; a reindustrialização, muito incentivada pelos fenómenos mais recentes de dependência de fontes únicas de fornecimento; a automação e sua robótica; as novas tecnologias, incluindo o metaverso; os sistemas de informação, com a comunicação direta do consumidor com o equipamento de produção; e os novos modelos de negócio, incluindo o super-fast-fashion.

Para todos estes desafios foram identificadas soluções, algumas já em prática e outras em conceção. Todos são relevantes, sendo a sustentabilidade aquele que selecionámos para desenvolvimento.

Na sustentabilidade a montante, a procura de novos materiais, em regime preferencial de economia-circular, é o mote. Do ponto de partida da não reciclagem do vestuário com os materiais predominantes, identificam-se novos materiais, alguns como o caso dos promovidos pela iniciativa fibrenamics e da pasta de papel já com investimentos produtivos em curso.

Mas a sustentabilidade não depende apenas de novos materiais na produção. A jusante, no retalho e no consumo, os desafios nas práticas de venda e nos hábitos de compra são também determinantes para um futuro mais sustentável. O incentivo do e-commerce à alavancagem da compra com entrega rápida, conhece em algumas peças de vestuário uma taxa de devolução de cerca de 70% cuja sustentabilidade é questionável.

O destino das sobras de coleções, sendo intrínseco a alguns modelos de negócio na indústria, parece ganhar a atenção de reguladores. Em especial, a sua potencial proibição a partir de 2023, coloca um desafio relevante aos grandes retalhistas e às marcas de luxo.

Outras soluções como a circularidade de produtos pre-owned, a gestão da produção com maior proximidade geográfica ao seu consumo, ou o desenho da cadeia de valor desde o início do processo também estão a ser exploradas. Comum a todas, a visão end-to-end da cadeia de valor da indústria têxtil – não restringida à rastreabilidade do produto – parece contribuir para uma maior transparência da informação para os seus intervenientes, incluindo para o consumidor final.

A sustentabilidade é irreversível, sendo a velocidade da sua implementação determinada pelo valor que os consumidores lhe atribuem no momento da sua decisão de compra e as soluções de novos materiais, processos ou tecnológicas disponíveis. A indústria têxtil apresenta múltiplas soluções cuja oportunidade irá transformar a atual estatística de destruição global de valor económico.

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