TINA

A Europa, até tempos recentes um farol do desenvolvimento económico-social, das políticas ambientais, e do primado da pessoa humana, comporta-se hoje como a assembleia de acionistas de uma empresa abutre.

Centeno será em Janeiro presidente do Eurogrupo. Colocando de parte a euforia que mais se assemelha às recentes vitórias no festival da canção ou no Euro 2016, até porque sabemos por experiências passadas que o país não recolhe qualquer benefício direto com a eleição de um seu natural para altos cargos internacionais (allô Freitas, Durão, Constâncio, Guterres..), e sabendo que, por força dos equilíbrios entre as duas grandes famílias políticas, este cargo teria de ser ocupado por um “socialista” (com muitas aspas, já lá vamos), o que reduzia imensamente universo de candidatos, esta eleição deixa-nos pistas preciosas que devemos refletir. Centeno é o primeiro ministro (poderia ter um hífen) de um país intervencionado a liderar o grupo de responsáveis das finanças da zona euro. É igualmente o único ministro (agora sem hífen, seria um exagero) de um governo suportado pela esquerda Trotskista (como na reeducada Grécia) e Estalinista (absolutamente inédito). E a verdade é que mesmo assim não foge um milímetro daquilo que é o espartilho europeu, elencado em Maastricht e consagrado no Tratado Orçamental. Pior. Os avanços políticos que consagravam um projeto de bloco civilizacional– porque não dizê-lo, estão a ser colocados em segundo plano. Isto porque Centeno aparece como o homem que consegue défices baixíssimos, não porque “devolve” rendimentos aos trabalhadores e pensionistas, como a máquina socialista propagandeia mas, porque o consegue apesar de ter partidos de extrema esquerda a apoiá-lo.

E não interessa à Europa, e essa é a novidade a lamentar, que consiga essas metas através da quase inexistência de investimento público ou, mais grave, colocando em causa as funções elementares do Estado, como é exemplo a falta de material de vigilância em Tancos, as falhas nos sistemas de comunicação de Pedrogão, Leiria e outros, os focos de contágio de legionella em equipamentos hospitalares, ou a não inoperacionalidade na rede de transportes públicos, principalmente o Metro, tudo por falta de manutenção.

O cumprimento ortodoxo das metas, ao arrepio do que PS, Bloco e PC apregoaram nas eleições, faz-se cativando verbas orçamentadas, colocando em causa a concretização das funções do Estado. A Europa, até tempos recentes um farol do desenvolvimento económico-social, das políticas ambientais, e do primado da pessoa humana, comporta-se hoje como a assembleia de acionistas de uma empresa abutre. Se um tipo dá lucro, ou cumpre as metas, pouco importam os meios como lá chega. Importa é utiliza-lo como exemplo. Se tiver más companhias (leia-se BE e PCP) e ainda assim cumpre, ainda melhor. Deixá-lo apregoar que é pela devolução de rendimentos, mesmo sem referir os impostos e taxas indiretas como acontece com o imposto automóvel que já deveria ter sido revisto há ano e meio.

Deixá-lo propagandear que é um case study, mesmo que o aumento do consumo interno venha em decrescendo, o que desmente cabalmente essa teoria. Além disso, como já alguém referiu, a presença de Centeno
na liderança do Eurogrupo é o garante que o mesmo se tornará num ultra ortodoxo do défice e do controlo da inflação (aqui em complemento ao BCE). E que não mais o país embarcará em aventuras despesistas, como no tempo de Sócrates e como agradaria aos parceiros mais à esquerda do Governo. Aconteceu isso com o também socialista, apenas de nome, Dijsselbloem que se mostrou mais ortodoxo que a própria direita alemã. Nada que custe muito a um Centeno que em 2011 assumia que o aumento do salário mínimo teria“um impacto perverso” na economia e nas empresas, e fomentaria o desemprego.

A Europa não é um projeto político ideologicamente neutro, em termos económicos. Pelo menos. E nem poderia ser de outra forma. Um bloco, seja ele unipolar, multipolar ou desequilibrado nas suas polaridades, tem sempre de ter uma matriz. O Estados Unidos, e a sua zona de influência, têm uma matriz ideológica clara, por exemplo. Muito à direita do contexto mundial, Europa incluída. Alguém dizia, há alguns anos e por analogia, que o Partido Democrata Americano correspondia à fação mais liberal do PSD, em Portugal, e o Partido Republicano ao CDS , ou mesmo ao extinto PND. E com razão. Não há esquerda. Por isso é sempre risível ver a esquerda portuguesa a ensaiar exercícios de paridade com a realidade americana, como quando a eurodeputada Edite Estrela intitulou-se da mesma família política de Obama. Na Europa o caminho também é estreito, e mais ficou após a crise das dívidas soberanas.

Podem fazer-se umas manobras de diversão, umas manifestações, ou umas experiências apalhaçadas como os primeiros meses de Hollande ou o Syriza de Tsipras e do entretanto exilado Varoufakis. É evidente que existem, sempre existirão, e sempre deverão existir, opções políticas e diferentes meios de chegar a um fim. Mas não restam dúvidas que esse fim, neste bloco e enquanto ele durar, é aquele que conhecemos e deve ser cumprido, e que não há muito que inventar em termos de caminho. Se isso é o famoso “There Is No Alternative, então podemos afirmar que “venceu a TINA”.

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