“Tipicamente, este Governo tende a adotar políticas de remendos”

Com os juros a subir e a inflação em níveis recorde na zona euro, Luís Campos e Cunha realça o impacto de decisões políticas nas perspetivas económicas globais e nacionais, em particular no capítulo da guerra. Para este ano, a expectativa continua num bom crescimento português.

Tem havido alertas quanto aos possíveis “efeitos dramáticos” do aumento da inflação. Está preocupado com a escalada do aumento dos preços?
Estou preocupado com o comportamento das instituições face a este aumento de preços. Na linguagem comum, fala-se de inflação cada vez que os preços sobem, mas às vezes há inflação sem preços subirem ou subidas de preços que não são inflação. E não é fácil distinguir na prática. Houve um conjunto de preços que subiram e têm que subir na consequência da pandemia. Houve circuitos internacionais de comercialização que foram afetados. Isso leva ao aumento dos preços. Houve subidas do preço da energia que também levam ao aumento da inflação. São choques do lado da oferta que levam a aumentos dos preços. Dói como se fosse inflação, mas não são inflação no sentido próprio do termo, e obviamente não exige nenhuma resposta do BCE, porque, não sendo inflação, não é uma questão se os bancos centrais controlam a procura agregada. Isto é do lado da oferta; por outro lado, o sistema está em excesso de liquidez há muito tempo, com taxas de curto prazo negativas. Isso é uma situação pouco saudável e pode ser admitida num curto intervalo de tempo. Alguns anos, talvez, mas temos que voltar a uma certa normalidade, que significa aumentos de taxas de juro e significa também retirar o excesso de liquidez do sistema. O BCE tem que reagir a essa segunda parte, mas não à primeira. Esse mix de políticas é um dilema. A comunicação nem sempre tem sido clara. Tem havido vozes um pouco divergentes quanto à evolução das taxas de juro. Até ao final do ano deve haver várias subidas da taxa de juro de curto prazo. O BCE, dado o balanço que tem, consegue controlar uma boa parte da curva de rendimentos. Pode fazer isso sem que as taxas de juro de longo prazo aumentem, ou pelo menos não tanto. Mas as de curto prazo têm que aumentar necessariamente. Uma ação coerente por parte do BCE é importante para que as expectativas de inflação até agora não tenham subido muito. Era importante que mostrasse que está atento e que tomará de uma forma consistente medidas para controlar a procura agregada e, por essa via, o impacto da inflação.

Há risco da inflação ficar fora de controlo? Antecipa que vai continuar alta até ao fim do ano?
Os riscos existem sempre, mas não. Primeiro, hoje em dia, o conhecimento da teoria económica e da política económica monetária, em particular, é muito diferente do que era há 40 ou 50 anos. E segundo, porque todos os bancos centrais, em particular o BCE, têm uma panóplia de instrumentos que permite facilmente reduzir as pressões inflacionistas no sentido próprio do termo.

O BCE deve ter um papel mais firme ?
O BCE é, neste momento, mais político do que era no passado. Antes os governadores, os presidentes e o vice-presidente eram pessoas que vinham de outros bancos centrais ou da academia; neste momento, quem está à frente do BCE são pessoas que tiveram uma frente essencialmente política. Portanto, o BCE tem que mostrar que é capaz de ter essa postura perante os mercados e perante a evolução dos preços. O perigo existe sempre, mas sabemos que o controlo da inflação é muito e o BCE tem os instrumentos necessários.

A verdade é que a mensagem durante largos meses foi de que a normalização não arrancaria até 2023…
As taxas de juro negativas já não faziam sentido. Podem ser compreendidas na altura, foi uma política certa de Mario Draghi para salvar o euro, mas todos esses problemas estão ultrapassados e acho que rapidamente se deveria voltar a uma situação de normalidade em termos de juros. Isso significa que já deviam ter subido as taxas de curto prazo, não tanto por causa do problema da inflação, mas apenas por uma normalização da política monetária. Excesso de liquidez não cria bom presságio sobre a evolução dos preços.

Qual o impacto deste aumento de preços nas famílias e no Estado?
É evidente que os rendimentos no curto e médio prazo vão cair significativamente. Os aumentos de salários da função pública são ridículos face à evolução da inflação do ponto de vista orçamental e para o Estado a situação é muito simétrica. Primeiro vamos ter um aumento de receitas de impostos pura e simplesmente decorrente da subida de preços. Nomeadamente no IVA – portanto, vai haver um aumento de receitas que permite cumprir objetivos orçamentais e isso é muito bom. Segundo, uma inflação que, em certo sentido, não foi esperada significa que as taxas estão muito baixas face ao nível de inflação que temos, com taxas de juro reais negativas e com um bom crescimento da economia. Isso significa que o peso da dívida pública no PIB vai cair fortemente, o que são boas notícias para Portugal dentro da sua credibilidade internacional. É urgente que isso aconteça, é importante aproveitar este momento de baixas taxas para reduzir a dívida pública para níveis mais geríveis e abaixo, por exemplo, de Espanha.

O impacto no consumo pode colocar em causa o crescimento nos próximos meses?
O consumo subiu bastante no último trimestre, de acordo com os dados do INE, mas foi centrado no consumo de bens duradouros da compra de casa, eletrodomésticos. Este pode aguentar um, dois, três trimestres, mas não mais do que isso. Isso foi também fruto de uma certa poupança não esperada durante o período da pandemia. É provável que a economia continue muito aquecida, o que vai significar baixas taxas de desemprego, o que também significa que podemos esperar a curto/médio prazo alguns aumentos significativos de salários. Evidentemente, tudo está ensombrado por uma guerra na Europa e que nós não sabemos exatamente quais as consequências para a economia europeia e para Portugal em particular.

O Governo tem defendido que o aumento da inflação é conjuntural e não estrutural. Partilha desta opinião?
Há uma componente que tem a ver com o lado da oferta e não tanto com o lado procura. Essa componente não vai crescer toda a vida; a dúvida é quanto tempo é que vai durar. Mais uma vez, isso prende-se, por exemplo, com preços da energia que não sabemos quais vão ser e com fatores que não têm nada a ver com economia, mas sim com política e com a guerra, com as sanções à Rússia. Evidentemente que esses fatores podem causar ainda uma subida de preços do lado da oferta durante mais algum tempo. Mas há uma componente desta subida de preços que é, sem dúvida, transitória, sem menosprezar o facto que, como já disse, o sistema está em excesso de liquidez.

A proposta do OE2022 reflete a preocupação pelo aumento dos preços ou as medidas pecam por defeito ao não ajudar as famílias e as empresas?
Devemos deixar que a economia funcione e, portanto, e as soluções devem ser gerais e não particulares. Tipicamente, este governo, e os do passado recente, tende a adotar políticas de remendos em certo sentido. Há um aumento dos preços de energia, depois subsidia-se; as pessoas mais pobres têm dificuldades, dá-se um pequeno subsídio. Isto acarreta uma burocracia gigantesca que custa para acautelar os oportunismos e fenómenos que sempre acontecem. Era preferível ter uma política mais horizontal, no sentido de não ter remendos, mas resolver a questão. Acho, de facto, que uma subida de 0,9% nos salários da função pública é pobre. Mas o grande objetivo nacional é controlar o endividamento público e isso só se faz com contenção orçamental, que também é necessária. Há aqui um compromisso entre responsabilidade orçamental e aumentos salariais, que jogam em sentidos contrários.

Quais as medidas que deviam ter sido tomadas para atenuar a perda de poder de compra das famílias?
Se os escalões não são atualizados à nova taxa de inflação é equivalente a termos um aumento no IRS. Estamos a falar de impactos de 50 euros no final do ano. Isso não é nada. Sejam de esquerda ou de direita, os governos vão ter de enfrentar – como já deviam estar a enfrentar – uma questão fundamental: o nível de impostos em Portugal é muito alto. A carga fiscal é brutal. Nas empresas, nas famílias, nos consumidores. Mais tarde ou mais cedo – é bom que seja mais cedo – tem de haver um programa de redução de impostos de IRS, IRC, tributação direta e indireta.

O Governo tem defendido que a política de contas certas é o “melhor seguro”. Partilha desta opinião?
A redução do endividamento público é crucial e a única maneira é ter as contas certas, equilibradas. É preciso consolidação orçamental com mais ou menos austeridade. Só há uma solução: ter as contas certas e ter o orçamento equilibrado para podermos crescer. Mas isto com um programa de redução de impostos claro e cumprido, porque houve distorções no passado e promessas que não foram cumpridas. Não é preciso ser da Iniciativa Liberal para perceber que o nível de impostos é asfixiante para a economia.

A proposta do OE2022 vai no sentido da recuperação económica? O que pode ameaçar a previsão mais otimista de crescimento do PIB ao nível de pressões internas e externas?
Vamos ter certamente um bom crescimento este ano. Tanto quanto conseguimos perceber, o primeiro trimestre foi surpreendentemente bom. É, de facto, um crescimento em cadeia e homólogo surpreendente, foi muito positivo. Já estamos acima do que se passava em 2019 e, portanto, todo este choque negativo da pandemia já desapareceu. Qual é o impacto da guerra? Nós estamos particularmente longe, o que nos torna mais imunes a esse fenómeno. Além disso, há indicadores de que este ano vai ser excelente no turismo. Para nós é particularmente importante, até porque alguns destinos de turísticos são psicologicamente mais exigentes, como a Grécia ou a Turquia. É natural que haja aqui algum efeito de substituição.

Como projeta que se vá materializar o impacto do embargo ao petróleo russo?
O preço dos produtos petrolíferos é o efeito mais negativo que Portugal tem. Como não produz, tem de importar todos os preços. Quando sobem os preços, o nível de vida em Portugal cai. A evolução do preço do petróleo é relativamente difícil de prever, porque depende não só da procura, mas também da oferta. O embargo à Rússia vai aumentar a escassez, mas, por outro lado, espera-se que outros países entrem nesse mercado e aumente a sua oferta. Estou a pensar na Arábia Saudita, mas os Estados Unidos são o maior produtor do mundo e podem aumentar significativamente a sua oferta através do shale gas, por exemplo. É provável que haja uma reação do lado da oferta que permita que os preços não subam dramaticamente. Os riscos polítivos são grandes e têm consequências económicas. A Arábia Saudita aumentar a produção de petróleo é uma decisão política que tem mais a ver com a relação com a administração americana e a monarquia saudita.

As empresas portuguesas com problemas crónicos de capitalização e as famílias habituadas a prestações de crédito baixas estão preparadas para a subida das taxas de juro na zona euro?
É bom que as empresas estejam preparadas porque era previsível uma subida das taxas de juro e, portanto, tiveram tempo suficiente para preparar. As famílias deviam ter também consciência disso, que as taxas tão baixas não iam durar muito tempo. Há obrigação dos bancos de prestar informação no momento dos endividamentos, de cenários, evolução dos compromissos das famílias para, em caso de subidas, as famílias terem a informação necessária. Basta ler os jornais para se perceber que as taxas de juro estavam anormalmente baixas. Sem dúvida que algumas empresas e famílias, infelizmente, não estão preparadas para isso, mas espero que a maior parte esteja.

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