Trabalhar melhor não é o mesmo que trabalhar mais horas

Portugal é um dos países europeus onde se passa mais horas no emprego, mas continuamos na cauda da produtividade. Algo de errado se passa.

A adoção da semana de trabalho de quatro dias divide opiniões. Há quem considere que conduz a uma menor produtividade das empresas. E há quem defenda precisamente o contrário, argumentando que o foco deve estar na eficiência, isto é, na forma como utilizamos o tempo de trabalho. E não o número de horas que passamos no local de trabalho.

Provavelmente ambas as correntes têm razão. Há empresas e indústrias onde a semana de quatro dias não fará sentido. E outras em que não só faz sentido como conduzirá a um aumento substancial da produtividade. Devemos pensar fora da caixa e sem generalizar. Cada pessoa é uma pessoa, cada empresa é uma empresa. É pena que a nossa legislação laboral não contribua para a adoção de soluções flexíveis e adequadas à realidade concreta de cada empresa.

Mas independentemente da adoção ou não de uma semana de quatro dias, parece evidente que em Portugal temos um problema de eficiência. Enquanto noutros países o funcionário eficiente e produtivo é aquele que realiza as suas tarefas em tempo útil e não precisa de passar mais tempo no trabalho que o necessário, por cá ainda temos a tendência para valorizar formas de trabalhar que, na verdade, são ineficientes e até destruidoras de valor. Basta lembrar que Portugal é um dos países europeus onde se passa mais horas no trabalho, mas continuamos na cauda da produtividade. Algo de errado se passa na forma como muitas empresas e as instituições públicas gerem os seus recursos humanos.

Esta tendência coloca em causa não só a produtividade do país mas também tem impacto em áreas como a demografia (nem todos querem ou podem ter filhos se tiverem de passar dez ou doze horas por dia a trabalhar) e o sistema de saúde. É um problema de que poucos falam, mas que tem consequências significativas para o país e que merece uma reflexão por parte dos políticos, das empresas, dos sindicatos e da sociedade civil em geral.

Precisamos de gerir melhor os nossos recursos humanos, exigindo mais em termos de resultados mas deixando tempo para as pessoas poderem viver. Como qualquer líder de equipas sabe, trabalhadores com vidas mais equilibradas e que gostam do que fazem são mais produtivos. Isso será fundamental para termos empresas mais produtivas e sermos capazes de atrair, enquanto país, os melhores profissionais.

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