Transição energética não pode ser feita sem as pessoas

Empresas do sector energético destacam a importância das pessoas nos seus projetos. A transição não pode ser feita sem o envolvimento das populações locais e sem a conversão de postos de trabalho.

Portugal, tal como a União Europeia no seu todo, tem metas ambiciosas nos próximos anos, para alcançar a neutralidade carbónica no longo prazo, em 2050. O país tem de atingir uma meta de energias renováveis de 47%, reduzir as emissões de gases de efeitos estufa entre os 45% a 55% ou de atingir os 35% na eficiência energética.

Várias empresas do sector energético já começaram a fazer o seu caminho para a transição energética e partilham com o Jornal Económico a sua visão.

A Finerge começa por elogiar o caminho que tem sido feito nas últimas décadas no país. “Portugal tem sido, justiça seja feita, dos países mais ambiciosos no contexto europeu no que toca ao estabelecimento de metas de descarbonização. E o resultado disso é que o mix energético português sofreu uma mudança de paradigma muito significativa nas últimas duas décadas, permitindo uma importante incorporação de renováveis no sistema elétrico e uma maior independência energética que, como se percebe no atual contexto, é absolutamente crítica para o país”, segundo fonte oficial.

Mas a elétrica liderada por Pedro Norton defende que o ritmo deve ser mais elevado. “Mas a verdade é que isto não é suficiente: a velocidade a que decorre esta transição está longe de ser a que nos permite chegar às tão importantes metas do acordo de Paris. Aliás, para dar respostas às metas do PNEC 2030, do FiT for 55 e do REPowerEU, Portugal precisa de instalar até 2026 cerca do dobro da potência renovável que foi instalada entre 2000 e 2022. É uma tarefa ciclópica”.

Também no campo da transição energética, a companhia defende que é “preciso acelerar os projetos de gases renováveis, em particular o hidrogénio verde, dado que têm um indiscutível potencial para desempenhar um papel muito importante para potenciar a descarbonização de setores da economia que são dificilmente eletrificáveis”, sublinha.

A produtora de energias renováveis defende que é preciso ultrapassar quatro grandes desafios: “O primeiro é garantir que há uma mais rápida expansão da rede de transporte e distribuição, que é o maior constrangimento existente, até porque os problemas de infraestruturas não podem ser resolvidos individualmente pelos promotores”.

Depois, a “complexidade e morosidade dos processos de licenciamento. O Governo parece estar seriamente empenhado em melhorar a situação (o Simplex para as renováveis é um sinal disso mesmo) mas ainda temos de perceber se, no terreno, os processos efetivamente melhoram”.

Em terceiro, a companhia também destaca a “estabilidade regulatória. Este é um sector capital intensivo onde os investimentos se fazem a muito longo prazo. Em termos de energia não podemos viver em ciclos políticos de 4 anos e muito menos em ciclos orçamentais anuais. O poder político tem naturalmente toda a legitimidade para fixar regras, mas uma vez fixadas tem a obrigação de as manter. Esta tem sido uma área onde as políticas públicas têm tido alguma constância e esse é um património que não podemos desbaratar”.

Por último, o “desafio social. Não faremos a transição energética sem o apoio das pessoas e das populações onde estes projetos serão instalados. Temos de compreender e endereçar os seus anseios e os seus receios se não queremos que se desfaça o consenso que, apesar de tudo, tem existido em torno das renováveis”.

A elétrica também defende que Portugal, um país com fortes recursos solares e eólicos, deve-se bater pelas “interligações elétricas entre Espanha e França que nos isolam do resto da Europa”.
Já a Endesa Portugal também tem vindo a desenvolver vários projetos que a colocam no caminho da transição energética.

“A evolução do quadro legal e regulamentar, combinada com a dinâmica tecnológica do sector energético, convida à “hibridização” de múltiplas tecnologias renováveis para alcançar soluções 100% renováveis, que sejam simultaneamente sustentáveis e seguras. Ao hibridizar tecnologias, aumentamos decisivamente a disponibilidade e fiabilidade no despacho da rede, bem como optimizar a utilização das redes e a ligação ao sistema eléctrico, o que enfrenta grandes dificuldades na resposta aos pedidos dos investidores”, segundo Pedro Almeida Fernandes, responsável pela produção na Endesa Portugal.

O responsável dá o exemplo do projeto Pego que nasceu do encerramento da central a carvão. Na nova versão, a Endesa vai combinar “365 MWp (megawatts pico) de energia solar fotovoltaica com 264 MW (megawatts) de energia eólica, em apenas 224 MW de ligação à rede, aos quais acrescentamos também 168 MW de baterias, bem como um electrolisador com uma capacidade inicial de 0,5 MW, o que nos permitirá atingir cerca de 6000 horas de produção, superiores ao funcionamento de qualquer central térmica convencional nos últimos anos”.

Em relação à componente de produção de hidrogénio verde, esta “trará novas opções de descarbonização aos nossos clientes, com particular importância para os usos industriais mais difíceis de electrificar, tais como processos térmicos a alta temperatura. A produção de hidrogénio verde por electrólise será, dentro de alguns anos, a forma mais competitiva de produção deste gás renovável, com a vantagem adicional de que, ao produzi-lo juntamente com activos renováveis, de uma forma distribuída por todo o território, será mais fácil atingir a procura final. E, por sua vez, reduzindo os custos logísticos e de transporte associados a este combustível”.

Pedro Almeida Fernandes sublinha a importância de uma “transição energética justa, não deixando ninguém para trás. De facto, uma transição justa para todos tem em conta, em particular, as necessidades das categorias sociais mais expostas à mudança, tais como as comunidades que baseiam a sua economia na extracção de carvão. Estamos conscientes de que a transição energética não deve esquecer as comunidades que dependem dos combustíveis fósseis e estão em risco de pobreza energética”.

A Endesa Portugal destaca o “enorme impacto económico e social na região de Abrantes”: “envolvemos directamente todas as autoridades locais, criaremos 75 postos de trabalho, forneceremos cerca de 12.000 horas de formação com financiamento de 1 milhão de euros, desenvolveremos iniciativas agro-solares e ofereceremos apoio às PMEs locais e regionais”.

Este projeto irá “substituir os postos de trabalho perdidos na região devido ao encerramento da indústria do carvão. Simultaneamente, oferecendo uma possibilidade de requalificação profissional a todos os trabalhadores afectados pelo encerramento e também formando novos profissionais para o futuro do sector renovável”.

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