Trânsito no Porto destrói três mil milhões de euros por ano

Há cada vez mais automóveis a cruzar o Grande Porto e os mesmos transportes públicos, mas cada vez mais vazios. A população passa 300 milhões de horas por ano enfiada nos carros a desesperar e a soltar imprecações contra o trânsito.

Por ano, a população do Grande Porto passa 300 milhões de horas dentro dos seus automóveis particulares para ir de casa para o trabalho e regressar. São três mil milhões de euros de desperdício por ao e um rombo não muito dificilmente quantificável em termos da produtividade regional.

Estes valores foram avançados por Carlos Oliveira Cruz, professor do Instituto Superior Técnico e investigador na área das infraestruturas de transportes e smart cities, na conferência ‘Como se move o Grande Porto no futuro?’, no âmbito d projeto Projetor 2030, uma iniciativa promovida pela Associação Comercial do Porto (ACP) para debater a execução do próximo quadro comunitário de apoio e de que o Jornal Económico é media partner.

Aquele responsável adiantou que “nos últimos 20 anos, o Grande Porto manteve uma população estável, mas o Porto perdeu 19% da população e perdeu emprego: assegurava 22% do emprego da região 1981 e apenas 12% em 2011”. O último ano quantificado.

Ora, entre outras razões, o facto de haver cada vez mais automóveis nas estradas que circundam o Porto resulta da inversão da lógica que presidiu à estratégia da mobilidade pública: já não é preciso trazer todos os dias gente para a cidade, mas precisamente o contrário.

Mesmo assim, disse Carlos Oliveira Cruz, os transportes públicos fizeram a sua parte: mantiveram a oferta e tornaram-na mais barata. O resultado é o aumento combinado dos custos: a população paga os combustíveis do seu bolso e a falta de passageiros nos transportes públicos exatamente com o mesmo bolso, por via do aumento das transferências do erário público para as empresas concessionárias.

Como se muda tudo isto? Simples: criando mais atrito para os automóveis particulares. Diminuindo o número de lugares disponíveis, aumentando as portagens em redor da cidade e o preço dos parqueamentos. E também, possivelmente – mas isto o académico não disse – aplicando uma conscienciosa política de multas.

Teresa Sá Marques, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, geógrafa e especialista em planeamento urbano, tende a concordar: é preciso afastar as pessoas dos automóveis particulares, mas “através de políticas públicas integradas”, dado que a realidade mostra que “o Investimento público não chega” se for mera forma de atirar dinheiro para cima do problema.

Para a investigadora, este é o momento certo para alterar qualquer coisa em termos estratégicos. É quem, recordou, “a mobilidade e o comportamento das populações vão mudar muito” no imediato. Não só por causa de alguns hábitos que ficaram da pandemia, mas também porque há uma nova dispersão dos pontos nevrálgicos do trânsito – desde as que têm a ver com o emprego, como com a morada, mas também das zonas de lazer, tudo envolvido por uma nuvem de turistas que também são um desafio em termos logísticos.

Pois que é de logística que (também) se trata: as cidades estão cheias de veículos que a toda a hora transportam, sem qualquer nexo de racionalidade, encomendas para os seus clientes. A estratégia tem de ser a mesma: introduzir racionalidade no sistema através de uma política de preços restritiva da balbúrdia urbana, disse Sandra Brito e Melo.

Professora da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, investigadora nos domínios do transporte de carga e da mobilidade urbana e representante do CEiiA, descongestionar o trânsito – afinal, indo buscar o tema da conferência: qual é o futuro da mobilidade?

“Há um novo paradigma”, isso é certo, mas a que é preciso descobrir as tendências, afirmou. O paradigma já é (mais ou menos) claro: o veículo de transporte pessoal está a deixar de fazer sentido e a perder a condição de ativo que manteve durante décadas. E é cada vez mais um instrumento de trabalho, o que implica que passará a ser partilhado até ao limite – “por várias empresas, por exemplo”.

Quanto às tendências, deixam pouca margem à ficção científica: veículos voadores para a logística (para já apenas nessa área), e a inteligência artificial a ditar as regras de uma utilização racional dos recursos. Até lá, os carros vão continuar a entupir as artérias da cidade, com os seus utilizadores a usarem toda a extensão do vernáculo local como forma de esgrimirem argumentos.

 

São as seguintes as conferências a organizar:

14 NOVEMBRO

REFORMA DO ESTADO – Temos ou não Estado a mais?

Oradores confirmados: Margarida Mano (FEUC) / Rafael Campos Pereira (AIMAPP) / Carlos Guimarães Pinto (IL, Deputado)

Moderação: Gonçalo Lobo Xavier

 

22 NOVEMBRO

AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE – Vamos vencer o desafio da transição climática?

Oradores confirmados: Aureliano Malheiro (UTAD) / Teresa Ponce de Leão (LNEG) / Nuno Moreira (Dourogás, CEO)

Moderação: Miguel Franco

 

13 DEZEMBRO

CULTURA – Que valor para a criatividade e património?

Oradores confirmados: Laura Castro (DRC Norte) / Carlos Martins (Opium) / Paulo Brandão (Theatro Circo)

Moderação: Rosário Gambôa

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