Triângulo Universidade-Empresa-Doutorado do Futuro

Investir em educação é investir no singrar de futuras gerações no país, razão pela qual este triângulo Universidade-Empresa-Doutorado tem de ser mais reconhecido e valorizado. Nenhuma dessas partes se deve fechar em si.

O mundo académico e empresarial são distintos e devem ser distintos. Mas, mais do que distintos, devem ser complementares e cooperativos.

Quantos de nós já ouvimos dizer na Academia frases como “as empresas não entendem a necessidade de estruturar pensamento”, “nós somos doutores, eles …”, “só pensam no lucro e nem se preocupam com a investigação”, ou “nós formamos os profissionais que eles recrutam e nem nos agradecem”.

Mas também do lado da empresa há vários dogmas sobre a realidade da Academia, como “uma cambada de teóricos que não sabe o que é a realidade”, “só pensam em fazer papers que não servem para nada”, ou até “contratar doutorados ou trabalhar com os centros de I&D é esquecer quando temos algum resultado prático”.

Estas duas visões antagónicas são, naturalmente, contrapostas por honrosas exceções e evoluções de cooperação nos últimos anos, algumas forçadas por candidaturas a projetos financiados e pela criação de programas executivos, outras por alguns “D. Quixotes” de ambos os lados.

Contudo, e conforme dados de 2021, publicados pela DGEEC – Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, apenas 8% dos doutorados estão integrados em empresas, traduzindo de alguma forma o tal sentimento de distanciamento entre o valor acrescentado de um doutorado e a realidade da sua integração no mercado. Ou seja, ainda existe uma ideia subjacente de que um doutorado é alguém que tem de estar na universidade, num laboratório ou a dar aulas.

Já se sabe que o investimento na educação é um investimento de longo prazo, contraproducente com ciclos políticos de curto prazo, mas é um dos vetores essenciais de crescimento de um país. Investir em educação é investir no singrar de futuras gerações no país, razão pela qual este triângulo Universidade-Empresa-Doutorado tem de ser mais reconhecido e valorizado. Nenhuma dessas partes se deve fechar em si. Combater os vários corporativismos em cada uma dessas pontas do triângulo, sentidas em quem quer alargar as oportunidades e aumentar a dimensão do triângulo, será fundamental.

Uma Universidade do Futuro tem de reconhecer a importância de trazer a realidade prática das empresas para os seus desafios, não se colocando em superioridade de conhecimento, por interagir com licenciados, mestres ou especialistas do mundo empresarial.

Uma Empresa do Futuro tem de reconhecer a importância de trazer o pensamento estruturado, científico e de investigação para os seus processos de inovação, essenciais para a sua sustentabilidade.

Um Doutorado do Futuro tem várias competências essenciais, em particular capacidade de socialização, humildade de conhecimento, abertura à prática, para além de pedagogo, que não exclusivo de âmbito académico.

Naturalmente que o Ministério da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior tem várias políticas de ação, mas esta análise estratégica e de cooperação com o mundo empresarial, e de incentivo reforçado para uma estratégia definida de investimento em doutorados integrados no mercado empresarial, é essencial. A razão é simples: garantir mais competências e estruturas científicas e de investigação para um Portugal competitivo economicamente daqui a 20 anos.

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