Tricolores, mas pouco

Os resultados das eleições em França fazem da Frente Nacional uma vencedora. Mas de que modo os discursos do medo conduzem a uma vitória?

No passado domingo, a Frente Nacional surpreendeu os mais distraídos com mais uma vitória em eleições francesas. Digo mais uma vitória porque foi a terceira vez que a Frente Nacional viu aumentar a sua representação de forma continuada. Depois do reforço nas eleições europeias de 2014 e nas eleições departamentais em março de 2015, eis que volta a afirmar-se nas eleições regionais, as últimas antes das presidenciais. Trata–se de uma captação de votos contínua e que não pode ser tomada como um fenómeno isolado. A Frente Nacional está a afirmar-se em todos os planos de representatividade proporcionada pela democracia francesa.

Apesar da turbulência vivida nos últimos tempos, viu-se que o eleitorado não se mobilizou e a abstenção voltou a rondar os quase 50%. Os partidos mais centrais e com participação no governo (em Portugal, dir-se-ia do “arco da governação”) têm vindo a perder eleitorado, apesar de o Partido Socialista Francês ter agora superado aquilo que os piores augúrios anunciavam. Mas, na verdade, nem Hollande, nem Sarkozy conseguiram reverter esta tendência de um partido nacionalista e da extrema-direita continuar a captar votos.

Apesar de pouco tricolor, por não conseguir respeitar esses valores inscritos na bandeira francesa de liberdade, igualdade e fraternidade, a Frente Nacional continua a conseguir as simpatias dos franceses. Atribuir esta tendência apenas aos atentados e ao terrorismo é redutor pois, antes dos atentados, já este partido conquistava, paulatinamente, cada vez mais votos. Para além disso, na zona onde os atentados tiveram mais impacto, Paris – Île de France, a Frente Nacional ficou-se pelo terceiro lugar.

A França, tal como outros países europeus, vê o centro esvaziar-se à medida que a desconfiança face às políticas praticadas até aqui aumenta. A abstenção e os partidos ligados aos extremos tendem a avançar. Em quadros de crise ou austeridade, esse avanço aliado à descrença nos regimes democráticos, fragiliza ainda mais uma aproximação dos partidos tradicionais ao seu eleitorado. É entre a desconfiança e o medo que a Frente Nacional conquista votos. A desconfiança de soluções antigas que parecem não corresponder aos desafios de hoje e o medo da perda de estabilidade e dos direitos adquiridos.

O mais grave é que estes discursos do medo proliferam na Europa. O crescimento da extrema-direita não se circunscreve a França. Torna-se apenas mais assustador porque se trata de um país de tradição republicana e democrática, porque foi o país que inaugurou os direitos de cidadania. Será que os franceses ou os europeus estão a renegar os valores em que se fundam as suas próprias democracias ou estão apenas alienados da “coisa” política? A segunda hipótese parece mais plausível que a primeira. Contudo, ambas são assustadoras, porque, antes de mais, a democracia tem de construir-se diária e continuamente.

Fenómenos como o da Frente Nacional só surpreendem quem pense que a democracia já está construída e que o medo deixou de estar na mente das pessoas. Para se ser tricolor, tem de se rejeitar o pensamento único e construir o debate crítico incessantemente. Só assim teremos países democráticos. Só assim a Europa estará livre de extremismos.

Cátia Miriam Costa
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

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