Trump, impostos e resultados formam mistura explosiva em Wall Street

Os índices norte-americanos não param de valorizar. Apesar do revés desta semana, as tecnológicas têm sido as estrelas da festa.

Reuters

Desde o início do ano, os principais índices acionistas em Wall Street têm renovado máximos consecutivos e não parecem próximos de abrandar a tendência.

“O pano de fundo para a subida das bolsas mundiais tem sido o bom ambiente económico global, com crescimento sincronizado em grande parte das geografias”, explica Filipe Garcia, economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros.

O contexto de taxas de juro baixas e as injeções monetárias por parte dos bancos centrais estão entre os principais fatores que justificam as subidas, num movimento que Garcia considera que se auto-alimenta. “Se os mercados estão a valorizar, atraem mais investimento, o que resulta em mais subidas”, diz o economista.

Apesar de nos EUA, a Reserva Federal (Fed) ter iniciado o processo de inversão da política monetária, que reduz o impulso dado às ações pelas políticas expansionistas, há outros fatores que têm mantido Wall Street longe de possíveis inversões. Salvador Alves, analista da Orey iTrade, lembra que “desde o dia em que Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, o mercado americano tornou-se muito bullish, suportado por promessas de políticas pro-empresariais”.

Duas das bandeiras de Trump são o aumento da despesa com infraestruturas e a redução de impostos, que parece cada vez mais próxima de se tornar realidade depois de o Senado ter aprovado a sua versão da reforma fiscal, no sábado passado. Apesar de sofrer alterações em relação ao documento proposto pela administração Trump e de ser ainda necessário que o Senado e a Câmara dos Representantes cheguem a uma lei concertada que possa ser aprovada por ambos, o corte nos impostos das empresas para 20%, dos anteriores 35%, parece assegurado, o que tem nos últimos dias dado um impulso adicional às ações.

“O principal índice que beneficiou destas medidas foi o Dow Jones que já leva uma valorização de 35% desde o dia das eleições, comparado com 26% do S&P 500, 34% do Nasdaq”, afirma o analista.

O economista da IMF considera que “o mercado está a subir devido aos bons resultados das empresas, mas sobretudo pela atratividade do mercado”. Sublinha que “em 2017, o S&P 500 ainda não teve um único mês negativo, o que atrai muitos investidores”.

Apesar do momento favorável para as ações, as valorizações não têm sido transversais a todos os setores. “Ao longo do ano, os ganhos têm sido concentrados nas empresas tecnológicas, nomeadamente nas FANG (Facebook, Apple, Netflix, Google) e Microsoft”, diz Garcia, sobre as gigantes tecnológicas que negoceiam no índice tecnológico Nasdaq.

Nas últimas semanas assistiu-se, no entanto, a alguma rotação, com estes títulos a corrigirem e a banca a avançar. A transição poderá ser explicada pelo aumento da expetativa sobre uma nova subida das taxas de juro de referência pela Fed ainda este mês. A terceira subida do ano iria beneficiar a banca, levando os investidores a focarem-se neste setor, em detrimento do tecnológico, que se tornou mais caro dada a valorização desde o início do ano.

Apesar do revés momentâneo, tanto Filipe Garcia como Salvador Alves concordam que a tendência de subida deverá continuar no próximo ano, mas alteram que poderão sugir fatores inesperados.

“A tendência irá continuar enquanto os fatores que a causaram forem de encontro às expectativas dos investidores. Qualquer obstáculo às promessas de Trump ou suspeita de sobre valorização das ações pode travar os ganhos”, afirmou o analista da Orey iTrade. “Os principais riscos do próximo ano passam pela tensão na Coreia do Norte, as investigações de Trump e as politicas comerciais que podem eventualmente assustar os mercados, assim como o Brexit. Por último, a Fed pode ser apanhada de surpresa por uma aceleração forte e repentina da inflação, difícil de conter devido ao action lag”.

O economista da IMF acrescenta que há alguns sinais de alerta: “métricas de avaliação já muito esticadas, uma série muito longa de subidas sem correções relevantes, o fim progressivo dos estímulos monetários por parte dos bancos centrais e a rotação setorial que aprece ter começado recentemente”. Por isso, considera provável que o mercado volte a uma filosofia value, que dá mais importância aos fundamentais económico-financeiros, relacionando-os com os preços dos títulos. “Mas, para já, não há sinais de uma inversão das tendências em vigor”, acrescenta.

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