Trump, Síria e o desconsolo dos aliados europeus

A inesperada decisão de Trump retirar os militares americanos da Síria provocou a demissão do Secretário de Defesa Jim Mattis e foi amplamente criticada por figuras gradas do ‘establishment’ norte-americano, assim como por vários dirigentes europeus.

Mas será assim tão difícil perceber a decisão – racional – de Trump?

Desde Obama, nunca foi claro o objetivo estratégico a atingir pelos EUA na Síria (combater o Daesh, remover Assad do poder, contrabalançar a influência russa na região?), muito menos como é que o seu contingente militar poderia contribuir para atingir esse objetivo, fosse ele qual fosse. Recorda-se que a presença na Síria das forças militares da coligação liderada por Washington não é compaginável com o direito internacional. Não foram convidadas pelas autoridades legítimas de Damasco. Uma atuação de maior dimensão e envergadura, e objetivos mais ambiciosos exigiria uma Resolução do Conselho de segurança, que os EUA não procuraram obter.

Mais intrigante e incompreensível foi o apoio norte-americano aos curdos sírios, sabendo-se de antemão ser essa decisão hostil aos interesses da Turquia, um aliado crucial e membro da OTAN. O afastamento de Ancara relativamente a Washington agravou-se com o golpe de estado gorado, alegadamente apoiado pelos EUA, e a não extradição do íman Fethullah Gulen, o alegado mentor do atentado, insistentemente reclamada por Erdogan.

O afastamento de Ancara relativamente a Washington foi compensado pela aproximação a Moscovo. A Rússia informou antecipadamente Erdogan do golpe de Estado em preparação, Erdogan fez um contrato com Moscovo para comprar misseis S-400 e reiterou a intenção de construir um pipeline de gás natural (TurkStream) que, evitando a Ucrânia, abastecerá de gás natural o sul da Europa e consequentemente aumentará a importância geoestratégica da Turquia. O objetivo de Washington de substituir a Rússia como fornecedor de gás natural à Europa (mais caro do que o russo) foi, para já, gorado.

Ancara sempre considerou a existência de uma entidade política curda independente nas suas fronteiras uma ameaça existencialista. Por isso, a Turquia nunca permitirá a sua criação, dado o contágio que provocará na comunidade curda turca igualmente com aspirações separatistas, e que Ancara se esforça por aniquilar.

Parece que a decisão de abandonar a Síria terá resultado de um acordo entre Trump e Erdogan, cujos contornos desconhecemos. Se é verdade os EUA poderão ter sacrificado os curdos sírios, empenhados combatentes contra o Daesh, também é verdade que Washington não pode prescindir nem hostilizar um aliado tão importante e valioso como a Turquia, quando comparado com os curdos sírios. Nesta matéria de lealdades convém avivar a memória dos responsáveis franceses e britânicos do comportamento dos EUA durante a crise do Suez, em 1956. A ter que escolher entre turcos e curdos, Trump optou pela Turquia, como teriam feito os seus críticos europeus. É a geoestratégia, estúpido!

Recomendadas

Combater a inflacção: um tempo de algum sacrifício e perseverança

É inegável que nos deparamos globalmente com um atípico surto inflaccionista, em muito determinado  por circunstâncias disruptivas que a guerra na Ucrânia fez explodir, nomeadamente na questão central do fornecimento e do preço dos bens energéticos e também dos bens alimentares de base.

Agressão ginecológica: um episódio, apenas

Não será tempo de expormos mais abertamente a violência ginecológica a que nós mulheres somos expostas? Sim. E nada desculpa este cenário, nem a luta entre médicos ginecologistas e Governo. A cada agressão deve corresponder uma queixa formal. Só assim podemos dizer com propriedade: “Sou dona do meu corpo. Exijo respeito, seja em que circunstâncias for”.

Winter is coming

Já repeti este título em crónicas anteriores, mas este inverno provavelmente vai ser o mais difícil que atravessei.
Comentários