‘Trumponomics’ e a nova “nova ordem mundial”

Enquanto o dólar for a moeda mundial, a China ficará em segundo lugar. Ora, ninguém ambiciona esta posição. E com a retirada dos EUA de acordos de comércio internacionais, a China estará desejosa de ocupar o seu lugar.

Com a exeção do “efeito Twitter” sofrido por algumas empresas atingidas pela ira Trumpista, o verdadeiro impacto económico que as políticas de “the Donald” terão nos EUA será sentido apenas quando este já não estiver na Casa Branca. No passado, houve presidentes americanos que foram reeleitos, ou não, com base nas políticas económicas das presidências anteriores. O pior é que o que poderá estar em causa, desta vez, não é apenas o destino do seu sucessor na sala oval. Hoje estamos perante a possibilidade de tudo o resto se manter (…) inconstante.

O exemplo mais flagrante foi o de George Bush (pai), cuja campanha eleitoral ficou marcada pelo slogan “read my lips, no new taxes”. Na altura, Bush quis seguir a política do seu antecessor, a do Reaganomics, que consistia na redução de impostos a par de um aumento da despesa pública. É certo que essa despesa foi na sua maior parte militar, mas não deixou de gerar emprego e de criar riqueza. Eis a lógica que prevaleceu: o investimento público gera riqueza, a redução de impostos investimento, logo, o resultado seria maior receita pública. E a dívida?

O problema para o sucessor do Reaganomics foi que a dívida pública dos EUA começava a assustar a sua base de apoio político e coincidiu com o momento em que a dívida pública entrou no debate público. Consequentemente, subiu os impostos. Porém, o sound bite do “read my lips” ecoou entre o eleitorado e o resultado foi Bush ter-se tornado o primeiro presidente americano a perder eleições, apesar de ter saído vitorioso de uma guerra, a “Desert Storm”. Donald Trump parece estar pronto para aplicar uma solução semelhante, com os esperados cortes nos impostos e uma política anunciada de obras públicas que soa a “new deal. Existem, no entanto, duas grandes diferenças que alteram totalmente o cenário e que agravam as possíveis consequências, alastrando-as. A próxima vítima não será apenas o presidente eleito, será acima de tudo a economia e a “nova ordem mundial”, em vigor desde a queda do muro de Berlim.

A primeira diferença é o nível de dívida pública dos EUA: tendo passado de 26% em 1980 para 41% em 1988, situa-se hoje nos 104%. Se assustava em 1988, hoje aterroriza. Por enquanto, porém, os chineses parecem não sentir-se incomodados, dado que são eles que sustentam essa dívida.

A segunda grande diferença remete precisamente para a China. Hoje, os EUA dependem da China e do seu interesse pela compra de dólares. Esta relação parece ser simbiótica mas, como pano de fundo, devemos considerar que quanto mais a China se desenvolver, mais se voltará para o consumo interno e para o desenvolvimento do seu mercado financeiro, e menos para a compra de dólares. Trump conseguiu hostilizar os chineses antes de tomar posse (Taiwan); os chineses já reagiram com a introdução de armamento nas ilhas artificiais por si criadas no Mar do Sul da China. Fica a pergunta: o que poderá Trump desencadear enquanto Presidente?

Esta relação entre o dólar e o renminbi, entre o deficit americano e o superavit chinês, representa um grande desequilíbrio na economia mundial. Há muito que os desequilíbrios económicos mundiais preocupam os economistas e levantam a seguinte questão: poderá um país alimentar eternamente uma dívida crescente? Sabe-se, todavia, que a China poderá não querer assumir este papel permanentemente. Enquanto o dólar for a moeda mundial, a China ficará em segundo lugar e ninguém ambiciona esta posição. Com a retirada dos EUA de acordos de comércio internacionais, como a Parceria Transatlântica, a China estará desejosa de ocupar o seu lugar. As visitas à base das Lajes são outro exemplo que revela a vontade chinesa de ocupar os espaços deixados pelos americanos. É natural. Com as ameaças e provocações de Trump, Pequim sentir-se-á mais apressada em abandonar a sua dependência do dólar.

Trump e a sua política económica poderão despertar e apressar uma tentativa chinesa de acerto no desequilíbrio económico mundial. Até soa bem, mas quem irá sofrer mais com este desenvolvimento é a velha e decadente Europa, que hoje em dia é apenas uma espetadora da relação EUA-China, relação essa que determina o seu destino: se hoje a questão orçamental e das dívidas soberanas já está a dividir a UE, o que poderá acontecer se o tal “equilíbrio do desequilíbrio” se esvanecer? Será uma nova “nova ordem mundial”, mais fragmentada e perigosa, assente não em relações comerciais mas na hostilidade, hoje muito mais tecnológica e invasiva.

Recomendadas

O ‘bypass’ ao trabalho

Seja através da robotização, digitalização ou alteração dos modelos de negócio, evita-se a todo o custo ter de depender das pessoas.

As alterações climáticas têm as costas largas

O atraso na construção de canais de drenagem e outras estruturas para prevenir situações como a desta semana é incompreensível.

De regresso ao futuro em 2023?

Não é de negligenciar a possibilidade de um foco maior em questões sociais, incluindo gestão de capital humano, direitos humanos e diversidade e inclusão, durante o próximo ano. Sem esquecer que a China, provavelmente, estará de volta ao caminho do crescimento.
Comentários