“Trussenomics”

A revista The Economist de 22/9 inclui um artigo* que apresenta argumentos muito claros para explicar porque é que uma tentativa Truss de copiar a política de Ronald Reagan, no início da década de 80, de cortes nos impostos dos mais ricos, não irá funcionar.

A revista The Economist de 22/9 inclui um artigo* que apresenta argumentos muito claros para explicar porque é que uma tentativa Truss de copiar a política de Ronald Reagan, no início da década de 80, de cortes nos impostos dos mais ricos, não irá funcionar. Esta tentativa de cópia corresponde àquilo a que Paul Krugman chama ideias zombie, ideias que falharam repetidamente e que teimam em continuar a aparecer. Truss é aparentemente uma crente convicta em algumas destas ideias zombie do período Thacher/Reagan.

De acordo com o referido artigo, em 1981 a administração Reagan, num contexto de elevada inflação e com uma política monetária contracionista, por parte da FED, decidiu cortar impostos com o objetivo de aumentar a produtividade e de potenciar o crescimento. Hoje, com uma inflação de quase 10% e com o Banco de Inglaterra a aumentar as taxas de juro de forma bem mais agressiva do que o BCE, o plano do governo britânico é precisamente levar a cabo um corte de impostos de cerca de 1,2% do PIB por ano, afetando sobretudo os rendimentos mais elevados. Como refere Krugman no New York Times, na sua crónica de 23/9, não há nenhuma evidência de que o corte de impostos dos ricos leve a um acelerar do crescimento económico.

Voltando ao The Economist, a revista nota que, nos EUA, a política fiscal expansionista, sobretudo para os rendimentos mais elevados, teve resultados iniciais ambíguos. Ainda assim, em pouco mais de 3 anos a inflação voltou a subir para quase 5% e a taxa de juro das obrigações a 10 anos ficou acima dos 12%. Para os resultados iniciais menos negativos contribuíram dois fatores muito específicos da economia norte americana daquela época: uma moeda que se manteve extremamente forte, e uma força laboral em expansão, devido, sobretudo, à entrada em força de mulheres no mercado de trabalho. O valor do dólar contribuiu para importações baratas, o alargamento da população ativa permitiu uma expansão da oferta e ambos os fatores contribuíram para um controlo da inflação.

No Reino Unido temos precisamente o oposto. A perceção de risco, pelos mercados é tal, que depois do anúncio as taxas de juro subiram e a Libra caiu. tendo depreciado, em 2022, cerca de 16% face ao dólar 1,4%, em relação ao euro. Sendo os EUA a segundo maior fonte das importações britânicas (logo atrás da Alemanha), a depreciação terá um impacto significativo na subida generalizada dos preços. Por outro lado, existem problemas complicados no mercado de trabalho com uma população envelhecida e o impacto (ainda longe de estar absorvido) do Brexit na composição e dimensão da população ativa. A oferta está estagnada e não há soluções fáceis para contrariar esta estagnação. Segundo Krugman, num contexto destes, num país desenvolvido, seria de esperar uma apreciação da Libra, já que a subida dos juros para fazer face à inflação deveria levar a uma entrada de capitais. O facto de estar a acontecer o oposto mostra bem a falta de confiança que os mercados têm neste Governo e neste pacote.

Com as sondagens a revelarem que, numa eleição geral, 44% dos eleitores votariam nos Trabalhistas face a 29% nos Conservadores, a primeira-ministra britânica tem que ter muito cuidado para que a sua “Zombie Trussenomics’ Policy” não seja uma machadada na economia do Reino Unido e o fim da sua carreira política.

* Liz Truss’s selective Reaganomics Won’t Work

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