Tudo é relativo: a guerra “acabou” com a pandemia

A guerra e a pandemia trouxeram consigo a evidência que a estabilidade é instável e que nunca poderemos dar nada por garantido, e que somos mais influenciáveis quando confrontados por instintos e necessidades de sobrevivência.

As ondas de comunicação ou a importância dos factos para a sobrevivência individual ou coletiva demonstra que tudo na vida é relativo. Dependendo das circunstâncias em que vivemos, há influenciadores e influenciados, sejam eles por factos tangíveis ou intangíveis, com pessoas ou animais, em tecnologias ou sistemas.

E as influências trabalham aquilo que reconhecemos facilmente na teoria definida pela pirâmide das necessidades de Maslow. Numa análise ao que vivemos mais recentemente, em termos mundiais, as necessidades básicas dos humanos foram colocadas em causa pela pandemia e pela atual guerra na Ucrânia, em particular pelo facto de ambas colocarem em risco a nossa segurança e a fisiologia.

Ou seja, o pilar da segurança que tínhamos até 2019, foi comprometido pela pandemia, mas em 2022 a guerra somou-lhe o risco da base fisiológica, em particular o risco da alimentação. Esta foi a razão principal pela qual tivemos a população estridentemente sensível e, consequentemente, influenciável, em busca de uma nova estabilidade.

A pandemia trouxe-nos a evidência de que o tempo cria hábitos, onde o incerto e assustador sobre algo passa com o tempo a ser conhecido e relativizado. Se analisarmos os números de infetados, de internados ou de óbitos na última semana, estamos ao nível da segunda maior vaga ocorrida no início de 2021, mas o assustador deixou de assustar, pois já convive connosco no dia a dia.

Um ano depois, a pandemia trouxe a habituação, a perceção de que algumas mensagens inicialmente passadas não eram mais que caminhos de esperança para a resolução das tais necessidades básicas, que o tempo fez esquecer. Se não, e assumindo a necessidade de garantir o controlo da pandemia, revejam-se as mensagens pré e pós vacinas a adultos e depois a crianças. A pouco e pouco, o alarme deu lugar ao “já nos habituámos”, os relatórios diários deram lugar a relatórios semanais, as aberturas de telejornais passaram a notas de rodapé.

E tudo quase que desapareceu, porque… tudo é relativo.

Um novo evento que coloca em causa as necessidades básicas surgiu: a guerra na Ucrânia!

O tempo trouxe a habituação sobre um evento mau, que foi ultrapassado e até esquecido, ‘substituído’ por um evento (quiçá) pior. A pandemia não desapareceu, continua por aí, logo ainda há a necessidade de a controlar. Mas a guerra existe e traz um novo futuro desconhecido e, neste caso, eventualmente mais profundo na forma conhecida da organização mundial.

A guerra e a pandemia trouxeram consigo a evidência que a estabilidade é instável e que nunca poderemos dar nada por garantido, e que somos mais influenciáveis quando confrontados por instintos e necessidades de sobrevivência. Razão pela qual muitos dos líderes políticos dos extremos, sejam eles de esquerda ou de direita, procuram fazer discursos apelando ao medo, uma vez que a arte de comunicar o medo é uma técnica mais fácil de pôr em prática do que comunicar a seriedade de caminhos estruturados.

A guerra e a pandemia trouxeram uma clareza de que tudo é relativo na vida. Saibamos aproveitá-la, construtiva e positivamente. Saibamos ter pensamento crítico sobre a vida e o que nos rodeia.

Recomendadas

Preços da energia e resiliência da economia

Vivemos um debate sobre os lucros excessivos. E o que penso sobre isso? Mesmo que a função principal de uma empresa se centre na maximização do lucro, as empresas apresentam grandes responsabilidades na sociedade.

Reestruturar a “máquina” do Estado central

No conjunto da Administração Publica, e até pelos problemas estruturais cujo agravamento se antevê em diversos sectores, torna-se urgente uma redefinição estratégica do seu âmbito, fins e modos de gestão.

Pode Portugal ser um líder no Empreendedorismo Social?

Embora este continue a ser um tema complexo, foram os esforços da sociedade civil que abriram caminho para uma ação política concessiva, mas ainda longe de encorajadora, do lançamento de novos tipos de organizações.
Comentários