Turquia prepara forte investida contra os curdos

Desde os atentados de Istambul ficou claro que a Turquia iria preparar uma ação punitiva contra os curdos, acusados de serem os seus autores. O equilíbrio da região é precário, mas a Rússia não se opõe.

Orçamento da defesa: 36 mil milhões de dólares

O presidente da Turquia, Recep Erdogan disse que Ancara está a planear enviar o exército para atacar as forças curdas baseadas na fronteira com a Síria e com o Iraque – na sequência do atentado que, a 13 de novembro matou seis pessoas e feriu mais de 80 no centro de Istambul. Isso sucederá “o mais rapidamente possível” e, segundo o executivo deu a entender, não haverá qualquer oposição da Rússia – a potência com maior influência na Síria: Moscovo não tem interesse em ver o reinício de um confronto bélico de larga escala no país, mas compreende as necessidades de segurança da Turquia e não parece opor-se à intervenção.

“Estamos a atacar terroristas há alguns dias com os nossos aviões, canhões e armas”, disse Erdogan num discurso esta terça-feira. “Vamos erradicar todos esses terroristas o mais rapidamente possível. ”Erdogan fez ameaças semelhantes nos últimos seis meses, mas os ataques aéreos transfronteiriços aumentam a possibilidade de que uma operação militar em larga escala possa ocorrer em breve.

O Kremlin disse que a Rússia respeita as preocupações de segurança “legítimas” da Turquia em relação à questão curda, mas afirmou que todas as partes devem evitar medidas que possam piorar a situação.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse na habitual conferência de imprensa desta terça-feira que, embora houvesse divergências entre a Rússia e a Turquia relativas à abordagem à Síria, Moscovo entende as preocupações de segurança da Turquia.

“Entendemos e respeitamos as preocupações da Turquia em garantir a sua própria segurança. Acreditamos que este é um direito legítimo da Turquia. Ao mesmo tempo, pedimos a todas as partes que se abstenham de medidas que possam levar à desestabilização da situação geral”, afirmou.

Ancara culpou o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e grupos curdos sírios seus filiados pelo ataque em Istambul. Os combatentes curdos negaram qualquer envolvimento. O quadro repete-se: o governo de Ancara acusa o PKK e os curdos recusam qualquer envolvimento, o que coloca sempre um dilema à comunidade internacional.

O Ministério da Defesa turco disse que a chamada operação Claw Sword – que também incluiu armas disparadas por terra – matou 184 combatentes e destruiu 89 alvos, incluindo abrigos, bunkers, cavernas e túneis dos curdos.

Segundo os jornais turcos, os Estados Unidos também pediram moderação, mas mais nada.

A Rússia apoia o presidente sírio, Bashar al-Assad, na guerra de 11 anos do país, enquanto Ancara apoiou os rebeldes que lutam contra ele. Esta é, aliás, uma das idiossincrasias de todo o processo: os curdos estiveram sempre do lado dos turcos e segundo todos os relatos foram dos exércitos mais aguerridos – nomeadamente quando a prioridades era desfazer o Estado Islâmico. Foi nesse quadro que o Ocidente apoiou logística e financeiramente os curdos – o que acabaria por deixar a Turquia furiosa.

Recorde-se que a Turquia é o principal responsável pela impossibilidade de formação de um país que se viria a chamar Curdistão – e que, na sequência do fim da Primeiro Grande Guerra e do colapso do Império Otomano, chegou a estar decido pelas potências vencedoras. Agregaria uma parte da Turquia, da Síria e do Iraque – mas em 1923, num movimento que os curdos consideram uma traição, França, Inglaterra e outras potências europeias acabaram por deixar cair a ideia, ‘trocada’ pela aceitação de uma nova Turquia, moderna e laica, liderada por Ataturk.

Recomendadas

Cimeira da NATO: o Ártico é a próxima fronteira

A entrada da Suécia e da Finlândia na NATO, um dos temas centrais da agenda da cimeira da Roménia, transforma o Ártico numa nova zona de conflito potencial. A Rússia lembrou esse perigo, que Jens Stoltenberg conhece bem.

JE Podcast: Ouça aqui as notícias mais importantes desta quarta-feira

Da economia à política, das empresas aos mercados, ouça aqui as principais notícias que marcam o dia informativo desta quarta-feira.

Morreu Jiang Zemin, ex-presidente e um dos construtores da China moderna

Foi um dos obreiros do crescimento económico da China e pretendeu construir um relacionamento estável com os Estados Unidos. Queria uma China a “entrar no mundo”.
Comentários