Uberização do mercado das entregas deverá continuar a crescer

Empresas que trabalham para o sector da logística e transporte acreditam que a concorrência das plataformas digitais veio para ficar.

Enquanto ainda não nos chegam drones à porta com as encomendas que fazemos na internet, o mercado dos transportes e da logística depara-se com uma uberização de serviços e continua a investir em digitalização. A indústria da logística digital deverá crescer dos 17,4 mil milhões de dólares (16,3 mil milhões de euros) no primeiro ano da pandemia para os 46,5 mil milhões de dólares (43,4 mil milhões de euros) até 2025, segundo um relatório da Markets and Markets divulgado pela revista “Forbes”. Porém, ainda há espaço para melhorias, tendo em conta que é um sector que vale biliões e nem 1% do investimento em tecnologia no mundo representa.

Mónica Oliveira, líder de Transportes na Esri Portugal, considera que as encomendas estão mais rastreáveis do que nunca e que a otimização da cadeia logística (entregar o produto certo no local certo à hora certa) implica ter dados bem cartografados, caracterizados geograficamente e relacionados entre si para permitir às empresas atingirem bons resultados. “A inteligência geográfica é cada vez mais importante para que alguma ineficiência que se introduza com o aumento do e-commerce seja colmatada”, disse ao Jornal Económico (JE).

É o que tem feito a norte-americana UPS, que poupa entre 350 a 400 milhões de dólares (entre 328 a 375 milhões de euros) por ano devido a um processo de transformação digital contínuo.

“Internamente, desenvolveram sistema (modelo preditivo), onde entra a Esri na componente geográfica, com location intelligence. É a expressão que descreve a inteligência, a informação, que a geografia pode introduzir através da qualidade dos dados”, conta Mónica Oliveira, que acredita que a componente de dados ajuda à eficácia da operação e à análise preditiva, para uma melhor tomada de decisões. “Não é só perceber onde estão os ativos e como é que eles se movem, mas também ter associada toda uma componente de informações geográficas: o quê, onde e quando”, esclarece.

Na opinião de Luís Bravo, CEO da empresa de gestão documental Papiro, o e-commerce obrigou as empresas de transporte e logística a estar em maior contacto com o cliente (motoristas e consumidores finais) e a tornarem-se mais ágeis. O cliente agora tem mais opções do que antes e pode escolher quando, onde e a que horas quer que lhe chegue a caixa. “Há uma ótica Agile em relação ao cliente e investimento na sua experiência”, afirma ao JE.

Nessa perspetiva, a Bloq.it criou cacifos inteligentes que começaram por estar nas praias e hoje são um ativo das empresas. A startup investiu mais de 400 mil euros em I&D no ano passado e prevê que em 2022 o montante atinja um milhão de euros. “O futuro da logística passa por alavancar as soluções tecnológicos que apareceram (para ficar) e ter a capacidade de acompanhar a transformação digital do sector. Destaco as entregas OOH (Out Of Home), onde se inserem soluções como os cacifos inteligentes. Este é, atualmente, um dos segmentos que mais cresce no sector e que mostra como há cada vez mais alternativas a serem exploradas”, refere João Lopes, cofundador e diretor de vendas a Bloq.it “Os modelos mais tradicionais, como os pontos PUDO (Pick-Up e Drop-Off) em lojas, tabacarias, e outros estabelecimentos comerciais, não vão deixar de existir e são essenciais para que exista uma rede completa de alternativas”, salvaguarda.

A procura é sentida em várias empresas do sector. A DPD, por exemplo, anunciou esta quinta-feira que instalou um cacifo de grandes dimensões na nova loja da Auchan em Cascais, no seguimento da expansão da rede de cacifos, que conta com 200 unidades em Portugal, das quais cerca de 20 nas instalações da retalhista por todo o país.

O empreendedor espanhol Eric Daniel Fernández acha que a logística é a chave para qualquer marca de comércio eletrónico. “Este processo é complexo de otimizar e é muito importante que possa ser escalado eficientemente, pois quanto maior o volume de vendas maior a complexidade operacional. Para tal, as marcas precisam de ter a infraestrutura de preparação e entrega de pedidos, os processos e a tecnologia, bem como pessoas que possam liderar as operações”, alerta ao JE o CEO e cofundador da startup de logística para e-commerce Kubbo, que hoje trabalha com 100 marcas nativas digitais e estima duplicar o número até ao final do ano.

A Esri espera que no futuro os concorrentes cooperem mais entre si para haver maior capacidade de reduzir viagens desnecessárias. Já Luís Bravo crê que a concorrência nos transportes e estafetagem é alta e pode aumentar mais, bem como as fusões e aquisições no mercado, quer em Portugal continental quer nos Açores e na Madeira – caminho por onde a Papiro não seguirá. “Dizem que a globalização terminou com a guerra na Ucrânia. Ainda estamos todos a tentar perceber como é que o mercado vai reagir e os produtos vão chegar a casa das pessoas. Ainda vejo a entrega direta, por motoristas, como a mais fácil”, declara o CEO da Papiro, que detém a marca Papiro Expresso, de venda de serviços de entrega de documentação.

O country manager da Shopopop – uma aplicação de entregas na qual os utilizadores podem ser estafetas a caminho do seu verdadeiro trabalho – também antecipa mais concorrentes. “O negócio da das entregas de proximidade está a crescer de forma muito acelerada. Veremos novos players nos próximos anos (e meses) a emergir por toda a Europa e também em Portugal. Acredito que a maioria será assente em tecnologia, de forma a dar resposta às várias mudanças do mercado, de que são exemplo a necessidade de rapidez, a disponibilização de slot-based delivery [entrega no mesmo dia] e o aumento da competitividade entre negócios locais e plataformas multimarcas”, prevê João Sanches.

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