Ucrânia. Aumentam os relatos de violações por soldados russos e os pedidos de contraceção de emergência

Só em quinze dias, houve mais de 400 denúncias de violações, mas existem problemas logísticos que atrasam as entregas da medicação essencial, tais como a falta de segurança para o transporte e o controlo rigoroso em alguns países ao longo da fronteira que tornam a aquisição dos medicamentos mais cara, desafiadora e demorada.

Bucha, Ucrânia

Na Ucrânia têm aumentado nas últimas semanas os relatos de violações por soldados russos, e com eles, a urgência para obter contraceção de emergência, sobretudo a leste, em zonas ocupadas pela Rússia. Embora esse tipo de fármaco estivesse amplamente disponível na Ucrânia, a guerra destruiu as cadeias de suprimentos locais, causou o deslocamento de pacientes e profissionais de saúde e aumentou a taxa de agressões sexuais.

Segundo o “The Guardian”, cerca de 2.880 pacotes do medicamento, também conhecido como pílula do dia seguinte, foram enviados pela Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF) para a Ucrânia , enquanto uma rede de voluntários pela Europa fora tem recolhido doações  para as entregar nos hospitais.

“O prazo para o tratamento das vítimas de violência sexual é realmente essencial”, disse Julie Taft, da IPPF. “Se uma mulher for atendida dentro de cinco dias após o evento, o medicamento deve-lhe ser administrado automaticamente”. Mas a Federação também está a enviar fármacos para interrupção medicamentosa da gravidez, que podem ser usados até às 24 semanas de gestação.

Não está claro quantos dos destinatários da medicação são vítimas de agressão sexual, mas Joel Mitchell, da Paracrew, uma organização de ajuda humanitária, disse que muito raramente há procura por contraceção de emergência por parte de hospitais no oeste. “São principalmente hospitais a leste, em Kharkiv, Mariupol, essas regiões”. “Assim que entramos em contato com eles, tivemos pedidos permanentes para esse medicamento.”

A ONU inclui a contraceção de emergência em “kits de violação” para centenas de mulheres e meninas em conflitos armados em todo o mundo. Além da pílula do dia seguinte, as sobreviventes recebem medicamentos para prevenir doenças sexualmente transmissíveis. Até agora, para a Ucrânia, as Nações Unidas enviaram 40 toneladas de suprimentos de saúde reprodutiva e 33 kits de gerenciamento clínico de violação e profilaxia pós-exposição para 19 hospitais em dez regiões.

Apesar da crescente urgência, existem vários problemas logísticos que atrasam as tentativas de levar a medicação tão necessária ao país, segundo reportaram voluntários ao jornal britânico, como a falta de segurança para o transporte, a destruição de unidades de saúde e centros de produção, o controlo rigoroso dos fármacos em alguns países ao longo da fronteira — como a Roménia, Hungria e Polónia  — que tornam a aquisição dos medicamentos mais cara, desafiadora e demorada, mas também obstáculos burocráticos à recolha de doações nos países europeus.

A comissária de direitos humanos da Ucrânia, Lyudmila Denisova, disse no início de abril que, oficialmente, havia nove casos de mulheres grávidas após terem sido violadas por soldados russos, e 25 de mulheres que foram mantidas numa cave e violadas sistematicamente em Bucha, cidade a norte de Kiev. Estes casos são provavelmente apenas a ponta do iceberg.

Denisova sustenta ao “El País” que “A Rússia usa o estupro como arma de guerra” — denúncia confirmada pela Humans Right Watch no início do mês — e indica que o central de atendimento psicológico do seu departamento recebeu, na primeira quinzena de abril, 400 chamadas com denúncias de violência sexual na sequência da retirada russa dos arredores de Kiev.

“Estamos a trabalhar para documentar todos os crimes. Mas o trauma pelo qual o meu povo está a passar é irreversível”, disse Denisova.

Ainda esta semana o “The Guardian” documentou que alguns exames post mortem em corpos encontrados em valas comuns em Bucha, Irpin e Borodiank, a norte de Kiev, revelaram evidências de que houve mulheres que foram violadas antes de serem mortas pelas forças russas.

O “Kyiv Independent” reportou que, nas mesmas zonas, as mulheres são avisadas, até pelos próprios soldados russos, para serem discretas e ficarem quietas para evitar serem violadas, com alguns ucranianos a afirmar terem ouvido “Não deixem a mais nova sair” e “Escondam as meninas”, quando outros soldados se aproximavam de zonas habitacionais.

A Procuradoria-Geral da República ucraniana tem recolhido provas de violação desde que os primeiros casos foram denunciados a 22 de março. O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) intercetou telefonemas e publicou o que eles dizem ser conversas entre soldados russos e as suas namoradas e esposas. Muitos compartilham histórias de crimes sexuais, segundo o jornal ucraninano.

“Aqui três soldados violaram uma garota”, um homem diz em russo numa das gravações. “Quem?” uma mulher pergunta. “Três soldados que estavam num tanque. Uma menina de 16 anos”, responde o soldado.

Noutra gravação, uma mulher incentiva o marido a perpetuar esse tipo de crimes. “Vá em frente, viole mulheres ucranianas e não me digas nada”, diz a rir. “Tudo bem”, responde o homem.

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Os russos retiraram-se dos arredores de Kiev, mas deixaram um rasto de destruição. “Cerca de 25 meninas e mulheres de 14 a 24 anos foram sistematicamente violadas” numa cave em Bucha. “Soldados russos disseram que iriam violá-las ao ponto de não quererem contacto sexual com nenhum homem, para impedi-los de ter filhos ucranianos”, conta procuradora-geral.
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