Um ex-catequista revolucionário para ultrapassar a crise italiana

Eclético e consensual, o novo primeiro-ministro italiano quer ao menos acabar a legislatura. Mas Paolo Gentiloni não tem nenhuma garantia de o conseguir.

O homem que a Europa quer ver a liderar Itália até fevereiro de 2018 – altura em que devem ocorrer as próximas eleições legislativas – tem um percurso pessoal que dificilmente podia ser mais eclético. Descendente do Conde Gentiloni Silveri – que teve um papel importante na disseminação da democracia-cristã como força política ‘patrocinada’ pelo Papa Leão XIII –, o atual primeiro-ministro, Paolo Gentiloni, cedo se deixou encantar pela aura de romantismo que a extrema-esquerda ganhou em toda a Europa a partir de Maio de 1968.

E nem o facto de ter chegado a ser catequista – circunstância em que conheceu Agnese Moro, filha de Aldo Moro (cinco vezes primeiro-ministro, morto pelas Brigadas Vermelhas em Maio de 1978) – o impediu de fugir de casa para se radicar num grupo maoista. O desencanto saiu-lhe cedo ao caminho, mas ao contrário de muitos outros – que, como Durão Barroso, se precipitaram para os braços da social-democracia – manteve-se nas áreas mais ‘mornas’ mas ainda esquerdistas do ecologismo (Daniel Cohn-Bendit, a face mais visível de Maio de 68, havia feito a mesma opção).

De jornalista a deputado
Foi nesse campo que passou a editor da revista ‘Nova Ecologia’, sendo jornalista desde 1990 – apesar de ter um curso superior em Ciências Políticas.
Gentiloni manteve, mesmo assim, o gosto pela política: em 1993 era porta-voz do presidente da Câmara de Roma, Francesco Rutelli, e em 2001 chegava pela primeira vez ao Parlamento italiano como deputado da La Margherita, uma experiência de fusão entre várias correntes do centro-esquerda, que mais tarde passaria por várias metamorfoses até chegar ao Partido Democrático (PD) – de que seria um dos fundadores (2007), juntamente com o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi.
Nessa altura, Paolo Gentiloni já havia ‘debutado’ como ministro: era responsável pela pasta das Comunicações no chamado governo Prodi II (2006/08). Ganhou pouca notoriedade, como ficou provado pelo facto de ter ficado em terceiro lugar numa espécie de primárias da esquerda para as eleições municipais de 2012: nenhum dos seus caminhos o levou a Roma.

O ministro dos consensos
Mesmo assim, Renzi lembrou-se dele dois anos mais tarde, quando precisou de substituir Federica Mogherini na pasta dos Negócios Estrangeiros – a italiana passou a ser uma espécie de ministra do Exterior da União Europeia e Gentiloni ganhou uma visibilidade que até aí nunca tinha estado ao seu alcance.

Foi um ministro de consensos: foi tão próximo do secretário de Estado norte-americano John Kerry como do seu homólogo russo Sergei Lavrov – Gentiloni criticou sempre a opção europeia das sanções contra a Rússia a propósito da Crimeia e da Ucrânia. Mas nunca se subtraiu a impor a posição italiana em palcos tão diferentes como a Síria, a Líbia, o Egipto ou a Índia – ao ponto de ser cognominado o ‘ministro das cruzadas’. Único pecado assinalável: em 2015, a Itália exportou 8,2 milhões de euros em armamento, bem mais que os 2,9 milhões do ano anterior.

Incerteza política
Como primeiro-ministro, Gentiloni pode queixar-se de voltar a não ser a primeira escolha: o presidente italiano, Sergio Mattarella, preferia, segundo a imprensa do país, que Matteo Renzi tivesse aceitado substituir-se a si próprio depois da demissão determinada pela vitória do ‘não’ no referendo sobre a Constituição e, não sendo isso possível, ainda testou a hipótese da formação de um governo onde entrassem vários partidos com assento parlamentar.

Ninguém quis. E essa é a maior preocupação do novo primeiro-ministro e também de Sergio Mattarella: com a agenda internacional que a Itália tem pela frente – a 1 de Janeiro, o país assume um lugar no Conselho de Segurança da ONU e, em regime de rotatividade, assegura a presidência do G7 – e os problemas que se avolumam dentro de portas (nomeadamente a falência do sistema bancário), a Itália precisa de tudo menos de uma crise política.

Aos 62 anos, Paolo Gentiloni sabe que não terá uma vida fácil: o Movimento 5 Estrelas chama-lhe ‘avatar’ de Renzi e, pior ainda, continua a liderar as sondagens face a eventuais eleições antecipadas (31,5% contra 29,8% do PD); e Matteo Salvini, líder da Liga Norte, de extrema-direita, afirmou que o novo primeiro-ministro não foi eleito por ninguém e é “a fotocópia infeliz e inútil de Renzi”.

É neste quadro de incerteza que Gentiloni quer alterar as leis eleitorais, um dos motivos do referendo – com alguma oposição a dizer que isso não pode estar na agenda de um Governo não eleito –, e motivar a recuperação do sistema financeiro, o que não está totalmente nas suas mãos: o caso do Monte dei Paschi, o mais problemático, está sob a alçada do Banco Central Europeu, que chumbou o pedido do banco para alargar o prazo para um aumento de capital.

Sergio Mattarella quis sair em auxílio da sua escolha, ao afirmar que o novo Governo tem “plenas funções e poderes”, mas o próprio novo primeiro-ministro diria, depois de se encontrar com o presidente que o designou, que aceitou “não por escolha mas por responsabilidade”. O futuro de Itália é, por isso, e para mal dos pecados da Europa, uma grande incógnita, que a presença de várias forças políticas no elenco escolhido por Gentiloni, novamente consensual, tenta disfarçar.

[Notícia publicada na edição de 16 dezembro do Jornal Económico]

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